A Morada do Veado Branco

Oh! noite voluptuosa que se ergue sobre o dorso dos montes, revela para mim o segredo dos pássaros rechonchudos que dormem entre os galhos das arvores frondosas e o sibilar das folhas ao menos soçobrar do vento. Diga-me senhora das sombras que passeia pelas alamedas obscuras da floresta, o que está por trás do odor das flores, o veneno dos caóticos, a morada do veado branco?

– Julieta! Julieta! – os fantasmas clamam por meu nome. Eles sabem daquilo que me faz fraca. As miudezas violáceas que evolam-se da minha alma triste. Estou intentando reinventar a minha própria existência.

Cavalos do tempo que soluçam entre as lágrimas do instante, observem os reais motivos que me induziram chegar até aqui. A minha feminilidade está afetada. Em um lado vejo que correm os rios da vida, em outro, pedras paralisadas inquirem os meus movimentos. Se abro os olhos sou obrigada a enxergar. Fizeram cada parte do meu corpo com uma função especifica. É necessário que eu restabeleça a razão pela qual meu pé serve de apoio para meu corpo, e minhas mãos para tocar.

– Julieta! Julieta! – eu poderia pedir-lhes mais alguns minutos de silêncio, mas a mão do homem me toca. Agora sou uma Eva acordada. Morta-viva.

– Esqueceu do nosso compromisso hoje? – perguntou-me dois grandes lábios vermelhos e pomposos como uma grande maçã madura. A negritude do seu rosto invadiu o meu campo de visão. Seus olhos, seu nariz, sua boca… – Julieta! Você está me ouvindo? – a mão continuava a tocar meu corpo no intuito de me fazer acordar.

– Deixe-me dormir só mais um pouco… – intervi sonolenta.

– Ficará tarde… Vamos, levante.

– Tudo bem. – respirar é uma tarefa que cumpro automaticamente. Estou absolutamente convicta de que a minha única utilidade é viver.

Observo o homem que me acordou, não tenho a certeza de conhecê-lo. Sei do seu nome, sua origem, tenho domínio sobre cada parte do seu corpo, mas quem é ele? A única certeza que tenho é de… nada. Não tenho certeza de coisa alguma. Hoje sou esta, amanhã poderei ser outra qualquer. Talvez esteja embriagada na porta de um puteiro, esfolada, estuprada, sangrando a virilidade daquele que me violentara. Oh, noite voluptuosa, olenta como os nenúfares de um lago siberiano. Não tenho a certeza de que na Sibéria existam lagos com nenúfares, o que quero da noite é enfeitá-la com as palavras que me mantém viva.

Hecate reina só na amplidão enegrecida. A escuridão mora nos meus sonhos. Sou a senhora estereotipada, deusa- mãe em busca do encontro com o deus dos grandes chifres procurando descobrir se a realidade que se estende sobre os meus pés é uma invenção minha ou da mão criadora do universo.

Tenho total liberdade para ser quem eu sou, mas resta uma dúvida… Diga-me senhor das estruturas desejosas e sofomaníacas do corpo, qual o intuito soturno da alma que habita a conjuntura dos meus ossos.

– Já está tudo pronto? – indaguei observando as cestas postas sobre a mesa. Ele estava sentado em uma cadeira a minha espera.

– Sim, arrumei enquanto você dormia. – Então era assim… as coisas aconteciam enquanto eu dormia, eram postas no lugar, organizadas e reorganizadas. Enquanto eu repousava em uma liturgia diáfana, o mundo estava em movimento. A ilusão era continuar acreditando que as montanhas estavam paradas.

Saímos da casa e andamos em direção ao bosque. Caminhávamos identificando o chão com os pés. Os rastros de outras eras estavam espelhados naqueles caminhos. Chegamos. Ele com aquele seus dois grandes braços africanos, o corpo másculo, torneado, abriu uma toalha sobre o chão e colocou as cestas sobre ela, organizando em seguida o que tirava de dentro das mesmas. A nossa frente havia um rio enorme. Olhou-me nos olhos enquanto colocava a geleia de framboesa a minha frente.

– Você está calada hoje. – afirmou tendo a certeza de que algo havia acontecido comigo. Nem mesmo eu, com toda a minha suposta majestade de mim mesma, sabia o que tinha se passado comigo. Silêncio! Estou exigindo o seu silêncio Marcelo. Fique calado. Eu preciso compreender o que se passou. O sol está brilhando intensamente. Espero que estas torradas estejam gostosas. Olhem só o rio. O rio me lembra o homem. Somos descendentes dos peixes.

Estou um pouco confusa sobre como tudo se desenrolou. Os pássaros estão cantando, preste atenção.

– Estou apenas pensativa. Tive um sonho estranho.

– Conte-me sobre ele.

– O problema é que não me lembro de nada.

– Esqueça, deixe pra lá, então…

– Não consigo…

Fitou-me por um instante intrigado e depois voltou seu olhar para o rio.

– Olhe! – exclamou apontando para uma criatura que bebia das águas do rio.

– O que é aquilo? – perguntei desinteressada.

– Um veado branco.

Veado branco. Aquilo ecoara em minha mente como uma bomba de proporções inimagináveis. Veado branco. Qual a relação que a minha existência mantinha para com a daquele ser.

– Preste atenção querida, no jeito como ele se move…

O expectador do veado branco. Meu deus, agora… Como numa visão agora eu sabia.

– Julieta! Acorde! – exclamei para mim mesma.

Naquele sonho eu era uma caçadora. Estava a procura de algo, como sempre estive. Eu não conseguia enxergar. O escuro era a minha única realidade. Algo corria na mata. Eu estava com arco e flecha nas mãos. Caçava alguma coisa. Corri por entre as arvores do bosque sedenta. A lua reclinava sua face alvacenta para iluminar o meu caminho. Sentia a destreza sobre meus pés. Eu estava apta aquilo tudo. 

Parei, sabia que o que eu caçava estava ali. Aquele era o momento. Fiquei em posição de ataque. A flecha estava direcionada para aquilo que se revelaria para mim na morte. Estiquei o arco o máximo que pude. Avistei um vulto nas sombras. Soltei a flecha. 

O espaço de tempo que existe entre a vida e a morte, é curto tal qual o espaço que demorou para que a flecha atravessasse o pescoço do veado que caiu estatelado no chão.

– Ele é lindo não é querida?

Agora eu sabia. Eu havia matado o veado branco. Abençoa-me Cernunnos. Eu havia matado a caça sem saber da sua morada.

– Estupida! Eu sou uma estúpida! – exclamei alto, assustando o veado que correu desesperadamente.

– O que foi querida? Você está bem? – O homem indagou-me preocupado.

– Nunca mais eu serei a mesma. – as lágrimas escapuliram dos meus olhos deixando meandros em meu rosto.

Estava tudo acabado!

Marcos Welinton Freitas

Marcos Welinton Freitas

Baiano do Bravo/Serra Preta. Graduando em Economia pela Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS). Escritor: poeta e contista.

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