Não me diga que a noite é feita para dormir

Diante da noite, some-se a vida e todos para dar lugar a um misteriar de sombras que sussurram para serem decifradas. Olhai-vos ao horizonte, olhai vossas vozes sendo ecos de nomes fabricados e de sentimentos de prateleiras. Não é o que somos, hein? Quiçá sou do tempo da dúvida, porque a certeza de minha constituição vai longear além das visíveis colinas da imensidão d’onde existo. –“Um maço para viagem.”−. Se meus pulmões vão correr em acidificação da nicotina, é problema dado meu. Sinhô concorda, né? Pois é que ouvi de trás que as coisas têm mesmo que serem vividas do dia para noite como se fosse o último dia, momento, suspiro. Não é? Olha, dai-me paciência para que eu vocifere vossa externância de opiniões. Que é que eu falava mesmo? Danoite. Eu andava de forma alheia ao mundo real daquela rua de madrugada, em minha insônia profunda que quicava de bar em bar, com cigarros na mão, e um complexo vazio guimaraniano em coração. Das coisas que um dia eu li, uma eu fiz mote para minha vida: assim como dizia o que citei de pouco, a gente começa nonado donada. E doída era minha insônia tanto quanto as dores de incontáveis tragédias dos poucos dias que fui dormir cedo. Estranheza essa de dito priorístico contradizente: o homem quase cambaleia de sono alucinógeno, e reclama dos dias que deitou em baby sleep. Sou um aeroporto para que os sonhos possam pousar. Mas minha referência encontra-se fora do mapa. Deixai eu vos dizer umas prosas. A noite e o dia, em suas feições de hora, têm seus minutizares apregoadores de sinestésicas sensações. Lúcidos ou ilúcidos somos atraídos por elas das mais diversas formas possíveis. Percebe? Aqui, escuta mais, hein. É rápido. Nas noites dormidas com a rapidez a gente perde de fazer fortuna com a vida e aprender com as poesias de buteco, em que os homens com seus hábitos notívagos vão ser forma bem mais de sonho na noite, enquanto em dia cerram pálpebras mecânicas como homens, e só. Saudade é um doce de que nas primeiras mordidas deixam os corpos diabéticos, morrendo com excesso de amor. Olha, é tanta dificuldade que uma alma nesse mundo passa para aguentar ser alguém que eu nem sei de quem é a culpa. Mas o que eu dizia mesmo? Vuxe, da insônia, esqueci. Pois acordar é isso. Diferente dos olhos zumbídicos pregados no mundo em que o corpo fica em um transe telecinético. Era como se nas noites o homem pudesse alçar voo pela cidade e mergulhar nas luzes de seu subúrbio não mais como humano, mas como uma simples ave que deseja apenas imergir dentro de um habitat hostil e misturar-se sem causar um espanto enquanto vive. Ixê, eu sei, sei! Perdi-me longamente porque os homens são viventes daqui assim. Então, o cigarro ainda está aceso em minha mão e a fumaça vai abrindo-me caminho por uma ladeira que corta as ruas e uma viela do finzinho da avenida. Olhei naquela noite para o céu e quis saber se as estrelas poderiam me dizer de quantos dias uma vida é feita. A gente passa. E as travessas da vida por vezes são apertadas. É encalçar duvidamente de respostas frouxas e dislexas. —“Ora, quiçá sou eu ente superior para saber quando é que homem vai morrer?”—. Calma, deixa eu frestar com o ar aqui por conta de que eu tenho gosto pelo frio da meia noite. A brisa noturna é densa e misteriosa em número tão assombroso quanto as estrelas do céu. Sou homem que gosta de olhar para o alto e esperar que as coisas caíssem de lá. Porquanto deixo-me assim, subentendido em metáforas, eu sei que a vida é feita de enchessências e vaziessências. Assim eu pergunto de quantos dias é feito é um homem. —“Há dias em que o mundo não se abunda em afagos. Há sim. Esses são abismos fortes de intimização da tristeza.”—. Pergunte para qualquer um das pescarias. Há de eu ainda querer discordar um pouco dessa sua fala, em aparência bendigo. Dói muito voltar sem nada, apenas com queimadura de um sol forte na lombar. Esses dias eu subtraio da minha conta. —“Sabe de uma coisa, tem mesmo é que dizer que há muita conta no negativo com essa fórmula.”—.Uns vozeiam baixo em resmungos das divagações daquele meu ser. Mas passear pela cidade era isso, querer ser único e só ao mesmo tempo em que era acolhido pela noite, sua eterna companhia. A vida de uma profissão nem era tão diferente da minha ou de tantas outras que sozinhavam escanteadas. Enquanto isso, eu tenho minha própria voz e a sua para me acompanhar, por conta de que suponho ter um diálogo, mesmo que eu esteja colocando suas frases. Plúmbea lua como poesia, como pode ser tão linda! Diante das nuvens ofusca-se tímida como uma amante de que certa vez receei em pegar em sua mão para confiar meu coração junto ao seu. Orai-vos por ela que talvez esteja já longe ao ladinho das estrelas. Agora o luar acalenta-me com vossa presença paciente de ouvir meu corpo e mente, caminhando como sombra por onde eu sempre ando. –“Diga que a ama e pegue nas mãos finas e ternas para sentir que é possível dialogar apenas com o toque e os olhos.”−. Oxê, eu não corageei para isso, ainda que eu fosse suficientemente homem de corpo formado para isso. Eu tinha umas medâncias sentinelas que alvoroçavam com uns inúmeros ‘quiçás’ diante das possibilidades que eu tinha de escolha. Olha, eu fui solitário por um tempo, e por vezes diria ser feliz com a solidão. É que eu ainda não tivera provado aquele doce da saudade. Por conta que agora sou só um sonho de, qualquer dia desses, cruzar n’outra esquina qualquer e chamá-la para um café. –“Mas por conta de que?”−. Eu vejo em seus olhos a saudade. Distantepensar. Deus a tenha se tiver em glória com o Pai. Ora, já faz tanto tempo essa vindoura paixão que naquela época meus cabelos ainda fechavam toda circunferência de minha cabeça. Ai ai, já sente uma fadiga da noite? Impulsei-me por vossa vontade de querer continuar a historizar para não comprar uns calmantes naquela próxima drugstore e ninar em desejo da companhia dos anjos (as suas liras sempre fazem-se sonhar). Mas é na noite que as ideias melhor se espreitam, não nego essa verdade indubitável. Se eu fosse escrever um livro, teria de ser algo com uma frase simples no início, mas impactante desde o começo. Aquela primeira impressão que não fosse plausível do descarte e da ignorância. Minha primeira frase tinha de ser um pedaço de mim grafado em palavras na página daquela obra. Os sons transmitem sensações e é isso que se deve fazer com um livro. Se fosse uma história de ficção, ia ser com um personagem como um dos homens que ficavam como segurança de bar. Era circundado de mistérios, de contos das prosas suspenciantes. Javier seria o imigrante latino que quisera tentar uma vida melhor nos trópicos prósperos. Não tinha como amigo Lèvi Strauss, se não teria ele tido a certeza que os trópicos são feitos de lágrimas amargas. Os olhos dele ofuscavam e tinha a certeza de que iria ser homem dos mandos e desmandos da terra. —“Apesar de que, pensando melhor, não se lia sociólogos na época de O Pagamento Final.”—. Tem razão. Pois é. Sim, nesse interlúdio eu já estava na carregada de mais outra’lma, outrora que passou entre dois piscares rápidos; um livro é outro berço que conjuga uma parte sanguínea de si. Num deles eu estava numa história, bem como agora emendei em outra mentalmente. E outra e mais outra e mais outra sucessão infinita que vai cadenciando em roteiros que só cessam com a morte. A ficção reserve apenas para uma. A bituca terminou. Trinta e cinco centavos deixados como ácida reflexão nicotinizante. Os entorpecentes diuturnos nos dizem mais do que somos do que qualquer outra coisa. Para conhecer um homem, bem antes de saber o que veste ou com quem anda, pergunte o que bebe. Diante de minha casa eu tive noção de que relogeou em minha vida timerizados minutos de pouco espaço-temo, mas que rastreou um corpo e forma de como somos diante de um diálogo com a própria sombra. Desde agora, que vosso entendimento tenha se clarificado pelo meu gosto da noite em troca do dia e de um sorriso a troco de alcaloides do que uns rasos abraços dos cruzadores de nosso dia. Dirijo sem destino e sem perguntas de quem vai entrar. Não se defina de outra forma nem queira achar outra explicação, porque viver é justamente esse taxiar infinito num mistério noturno e sem rumo. Boa noite.

Marco Aurelio Souza Mendes

Marco Aurelio Souza Mendes

Nascido na cidade de São Paulo, em 1994, atualmente cursa o bacharelado em Direito na Universidade Federal de Uberlândia (UFU). Atua no meio literário com o pseudônimo de Aurélio Mendes. Possui uma coletânea de contos publicada pela Editora Multifoco chamada Pensamentos Singulares (2013) e uma novela política pela Editora Subsolo, Abapanema: o lugar das coisas ruins (2015). Em processo de editoração de sua terceira obra, "A manhã de J.H. e outros contos" pela Editora Subsolo, fruto da aprovação pela Lei Municipal de Incentivo à Cultura (2015).

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