No princípio, criou o homem o vício e lembrança

Estava estacionando meu carro no entremeio das árvores de uma calçada, quando reparei na velha entrada de esgosto no canteiro vizinho. Ah sim! Aquela saída! Tinha meu livro no banco traseiro para entregar à antiga professorinha do primário, daquele tipo que chamamos de “tia” e nos faz vidrar nos miúdos das letras desde pequeninos. Estava de visita na cidade de minha infância e resolvi deixar meu livro como lembrança. E nisso surgiu lembrança da lembrança, de quando a mesma professora reclamava entre uma gramática e outra sobre toda semana o esgoto daquele vizinho arrebentar as infiltrações de sua casa. Era uma tragédia. Tinha em meus olhos um passado nítido, a voz rouca da professora já senhora, o semblante sério com que nos fazia decorar seus pretéritos imperfeitos tentando nos tornar sujeitos mais que perfeitos.

Andam juntas em um homem duas coisas: as lembranças e os vícios. De vez em quando há de ser a primeira o objeto da segunda. Casos não tão excepcionais assim e cada vez mais frequentes em sujeitos que crescem a base de ilusões. As memórias constroem o corpo do indivíduo, dão forma a esse abstrato estranho que é o ser humano. Quanto aos vícios, assumo ser o apego aos pequenos detalhes de cada momento. Lembro-me definitivamente acerca de outro palpite: tão profundo é o vício ligado ao homem, como conjunção quase carnal, eis que nossa natureza é dada ao proibido. Aquele remete a uma ligação indelével a esse ilícito.

O amorfo é característica dos gênios. Sujeitam-se a sucessivas desorganizações para comporem do caos a criação. Todo indivíduo possui um anarquista no peito, um outro sujeito que possui incessante vontade de rasgar as roupas, sair nu pelo mundo e esquecer das convenções de etiqueta para experimentar a natureza em sua verdadeira essência. Não minta, é obstinação despida de sucesso. Haverá algum momento em que o corpo não suportará a existência aprisionada. Haverá algum momento em que se desenvolverá aquele ego oculto dos anseios primitivos, da curiosidade, da liberdade. Como não podemos ser esse sujeito livre no constante cotidiano, recorremos a perfeita válvula de escape do vício. E como Nietzsche, eternamente retornamos através da lembrança.

Tenho a sutil impressão de que sou dos vícios de rememórias. Antes de tocar o interfone naquela ocasião, sujeitei-me a uma incessante cadeia de lembranças que iam desde as deleitosas aulas sobre derivações parassintéticas até aos conteúdos linguísticos que influenciaram minha literatura. Quanto a você, intrigo-me em querer saber as prontas ideias que lhe formam como sujeito. Independente de com qual categoria seu eu mais se expressa, tenho uma plena certeza: de vícios e lembranças forma-se seu conjunto como pessoa. Mesmo que nos enganemos e tentemos nos privar de olharmos para os sujeitos e sensações, esse silêncio é construído em voláteis ilusões. Corroem-se no primeiro abalo emocional ou leve perturbação tanto de incômodo quanto de êxtase.

Não sou ligado a mártires de religiosidade. Mas sei que no Genesis há tal dito sobre no princípio a terra ser sem forma, vazia e com as trevas vagando em abismo. Eis que surge aquele ser mágico que alguns chamam de Deus e diz “Haja luz!”, e luz houve. Pois se em nosso Genesis o sujeito é o tal disforme, é o vício a penumbra e a lembrança o ser mítico que dá as ordens.

Marco Aurelio Souza Mendes

Marco Aurelio Souza Mendes

Nascido na cidade de São Paulo, em 1994, atualmente cursa o bacharelado em Direito na Universidade Federal de Uberlândia (UFU). Atua no meio literário com o pseudônimo de Aurélio Mendes. Possui uma coletânea de contos publicada pela Editora Multifoco chamada Pensamentos Singulares (2013) e uma novela política pela Editora Subsolo, Abapanema: o lugar das coisas ruins (2015). Em processo de editoração de sua terceira obra, "A manhã de J.H. e outros contos" pela Editora Subsolo, fruto da aprovação pela Lei Municipal de Incentivo à Cultura (2015).

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