Nossa Taba

Diante de tantas mazelas que o mundo civilizado está enfrentando decidi voltar a ser índio.

Embrenhar-me-ei na floresta e não terei mais contato com os brancos.

Tomarei banho no rio.

Andarei pelado.

Colherei remédio na floresta.

Casarei com uma bonita índia. Teremos nossos indiosinhos.

Ela irá pra roça e eu irei caçar. Teremos comida em abundância.

Dançaremos, riremos e cantaremos pra Tupã.

Homenagearemos os espíritos da floresta. Fumaremos e beberemos.

Quando um índio morrer, ficaremos tristes. Aceitaremos e seguiremos nossas vidas.

Preocupar-nos-emos  quando alguém da tribo adoecer.

Na maior parte do tempo viveremos felizes.

Quando morrermos, iremos para a “Nossa Taba” lá no céu.

Lá, os nossos que morreram antes de nós, estarão nos esperando.

Cantarão para nós. Talvez até dancem o Quarup.

Presentear-nos-ão com penas coloridas e na grande oca haverá redes confortáveis.

Muitos de outras tribos estarão também.

Não precisaremos mais plantar mandioca, haverá um estoque interminável de farinha.

Nossa caça será abundante e não precisaremos mais adentrar na floresta para buscá-la. Não precisaremos mais de flechas e nem zarabatanas, pois bastará apontarmos o dedo que a caça virá até nós.

O rio será sempre limpo, a nossa canoa será transparente e não precisaremos mais de remos.

Nossa vida será um paraíso, assim como aqui na floresta.

Aqui  sempre vivemos felizes e nada nos falta.

A “Grande Taba”, lá no céu, deve ser a porteira que nos levará pra junto de Tupã.

Nas nossas conversas de fim de tarde a beira do riacho, o nosso cacique falou que os brancos talvez não sejam gente, pois quando morrem não vão pra “Nossa Taba”. Deve ser castigo ou coisa parecida. Aqui embaixo eles destroem as florestas, contaminam os rios, não respeitam os mais velhos e as crianças. No passado mataram muitos índios e os obrigavam a adotar sua religião e cultura. Por onde o branco passa deixa um rastro de destruição.

E é por isso que eles têm que reencarnar para consertar estes malfeitos.

Eles creem em anjos, deuses, demônios, santos e cidades espirituais. São chamados de crentes, religiosos ou espiritualistas.

Nós, índios, cremos nos espíritos da floresta e em Tupã. E, por isso, os brancos nos denominam de supersticiosos.

Os brancos destroem a mãe natureza e nós cuidamos dela. É por isso que Tupã nos escolheu.

Nosso pajé falou certa vez que branco não é gente porque não tem alma, e, vendo a devastação que ele promoveu, estou quase acreditando.

Sérgio Clos

Sérgio Clos

Escritor de Porto Alegre/RS publicou "Premissas", "A maleabilidade do tempo", "Fios de Prata, "Império do cinismo" e "Fundamentalismo Democrático".

Sem comentários; deixe o seu:

Seu comentário é importante!

Your email address will not be published.

Você pode usaratributos e tags HTML: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <s> <strike> <strong>