O Badalar das Horas

O RELÓGIO DE LARGOS PONTEIROS, pêndulo e pesos no alto da parede da sala de jantar marcava 17h30. “Cuco!”. O vapor que saía do ferro embaçava as lentes de seus óculos. O suor escorria pelo rosto indo incomodar ao pescoço. O tempo não ajudava nem um pouco. Pleno inverno e aquele mormaço infernal de julho, o céu branco de nublado e o chão vaporizando. Da janela, o Largo da Encruzilhada fervia tal como um formigueiro agitado de transeuntes operários correndo ao mínimo sinal de chuva. Que chovesse, ao menos isso seria diferente!, desabafava. Aquele ano tinha sido nó!

Sobre a mesa da sala de jantar uma pilha de roupas estritamente passadas e dobradas ganhavam a forma de uma torre multicor. A escuridão já tomava todo o ambiente. Num gesto maquinal, esticou a mão e ascendeu a luz. 18h. Seis vezes mais ecoou o som no pequeno apartamento, “Cuco!”. Ouviu o som de chaves girando na porta, o coração bateu angustiado.

– Boa tarde, querida. Como foi seu dia?

Pela primeira vez não respondeu. Quantas respostas teria dado àquela pergunta? Lembrou-se de sua mãe que há muito tempo ficara naquela de responder perguntas iguais nos mesmos horários todos os dias, enquanto jazia em casa na incumbência de deixar tudo um brinco. Confusamente, ainda lembrou-se daquele gerente do banco que teria perguntado qual a sua profissão e, irrequieta, teria respondido o que sua mãe lhe preparara há tanto para responder: “dona de casa”.

Estava cabisbaixa, perdida em devaneios quando ele se aproximou subitamente. Nem percebeu que havia derrubado o ferro por sobre uma camisa. Uma camisa? Era a mais cara camisa da casa, cuja marca se avistava bem no peito, por cima do coração, uma camisa estilo suéter que ele tinha ganho da mãe.

– Querida… Meu Deus! Por que fez isso?!

Deixou que ele, desesperado, socorresse a camisa, tentasse limpá-la, tentasse costurá-la, fizesse o que bem entendesse, não lhe importava nem sequer o tamanho do buraco, pra dizer a verdade, sequer tinha visto o tamanho do buraco. No alto da parede da sala de jantar o relógio antigo marcava 18h15.

Guiou seus pés para o quarto. Nunca fizera aquilo em dez anos de casada, naquela hora, naqueles minutos. Seria a hora de responder dizendo que o dia dela fora normal e de perguntar como fora o dia dele, de ouvi-lo reclamar do chefe insuportável da Gerência Operacional de Tributos Mercantis da prefeitura, das perseguições, do clima ruim e do processo administrativo recentemente instaurado para investigar sua amizade com um empresário do Poço da Panela, cuja empresa estaria sendo muito beneficiada pela Administração e outras coisas de repartição, como a falta de papel, de tinta, de cor, de sabor, de humor, de ar, de tudo.

Cansara-se daquilo tudo. De dar nó na gravata pela manhã, de desatá-lo à tarde. De cuidar da casa, de guiar a cozinheira, tinha se enjoado até da cara da pobre Ceição, pobre cozinheira, tinha sido despedida naquele mesmo dia. Ela se enjoara até mesmo do fato de não ter tido filhos. Pusera na cabeça que não tinha vocação para ser mãe – a maior mentira de sua vida, tudo para render o dinheiro dele que, funcionário do município, ganhava “quase uma miséria”, segundo dizia. Cansara-se até das mesmas amigas de prédio, conversando sobre as mesmas idiossincrasias estúpidas de sempre.

– Querida, perdi a melhor camisa que tinha e eu nem acredito! O que deu em você, hein? Oxe! Vou à cozinha beber um copo d’água e quando voltar conversamos sobre isso.

Não queria conversa, não queria saber de camisa e de nada, queria mesmo era que aquele cigarro que ele fumava todo começo de noite lhe entupisse os pulmões, lhe contaminasse de polônio, qualquer coisa que a salvasse daquilo.
Certa vez assistiu num programa da televisão uma matéria sobre um sempre possível envenenamento por polônio pelos fumantes, e pensou “e porque não somem duma vez, nicotina mais isso e esses caiporas ainda vivem dando baforadas na cara da gente!”, tinha, na verdade, quando pensado, lembrado de seu marido, daquela sua mania insuportável de fumar com uma estúpida elegância…

Rumou para o quarto. Ficou ainda alguns instantes parada em frente ao guarda-roupa. Seu rosto estava gélido, faltava-lhe coragem. Sempre lhe faltou coragem. Estava morta? Esteve morta. A morta da Encruzilhada, morta sem que ninguém soubesse… Se bem que hoje em dia ninguém nunca sabe…, as pessoas vivem suas vidas silenciosas de prédio e veem no outro o seu inferno pessoal… O céu é o outro, não o inferno, sempre soube disso, e, não obstante, tinha sido dobrada pelos novos costumes de solidão e vida mais ou menos.

– Angélica, onde está a Conceição? Angélica?!

Olhou para ele lentamente e saboreou aquela sensação de vê-lo estupefato observando por sobre a cama uma pilha de roupas estritamente dobradas numa torre multicor caminho de uma enorme mala de rodinhas.

Ela ainda sorriu. Um sorriso sem graça, de quina de boca, mas um sorriso. Era engraçado vê-lo assim tão surpreso, era uma surpresa até mesmo pra ela, todas aquelas sensações borbulhando dentro de si, aquele frio na barriga, aquela vontade enorme, aquela ânsia por…, um prazer quase que sexual…, há tanto tempo…

– O que significa isso, Angélica? Onde está a Conceição? O que você está fazendo? Primeiro foi minha camisa… Tá tudo errado nessa casa hoje! O que é isso? Que brincadeira é essa, posso saber?

Olhou para ele na última tentativa de rever quem há dez anos tão intensamente amara. Inútil. Nada mais existia, a não ser um vale de ossos secos que até o Deus era incapaz de dar vida… Um ser d’outro mundo como o conde criado na mente de Stoker, que apenas sugava o sangue de seu pescoço toda noite, deixando uma marca e um ranço horrível…

Fechou a mala com dificuldade. Pegou um pouco de dinheiro no armário, pondo na carteira de mão. Passou por ele sem fitá-lo. Não estava se escondendo de seus olhares, estava enjoada pelos séculos dos séculos, não aguentava mais tudo aquilo, sua vida como um eterno bis. Queria que regesse sua vida agora um único princípio maior: ne bis in idem. Cruzou a sala, meteu a chave na porta e parou.

No alto da parede da sala de jantar o velho relógio alemão, presente de casamento de sua sogra, um antigo cuco de largos ponteiros, enorme e caríssimo, marcava 18h42. Riu. Riu horrivelmente, achou-se uma louca com aquele riso, mas não se importou: ser desvairada tinha lá o seu prazer. Riu como uma doida, insana, perigosa… A sogra tinha dado aos noivos o tempo, a máquina de marcar o tempo do “até quando durar”. “Que velha escrota!”, disse antes de rir ainda mais.

Saiu do apartamento fechando a porta atrás de si, depois de tê-lo visto ainda como que congelado na porta do quarto. Chamou o elevador. Nele, a vizinha de cima com o filho bobão (menino amarelo de prédio), que, vendo a enorme mala, arriscou:

– Boa noite, dona Angélica…

– Se em dez anos nunca me deu boa noite no elevador, não me dê agora, sua velha trambiqueira!

A velha arregalou os olhos e nem sequer conseguiu sair do elevador, seu filho ainda tentara lhe despertar daquela petrificação. Riu uma vez mais. Atravessou a rua, direção do Largo da Encruzilhada no qual só andava em determinadas horas. Tomou um taxi e sumiu no cruzamento com a Avenida Norte e a João de Barros.

No apartamento pairou o silêncio profundo, com azedos tons gris. Alberto, sentado quase que esquecido de si mesmo olhava para o chão. Sua mente partia-se em mil devaneios, seu coração ansiava segui-la, mas não adiantaria…, para nada iria servir, era o que lhe dizia sua mente num último cálculo. Repentinamente ouviu-se o badalar do antigo relógio, 19h. Da portinhola aberta saiu o pequeno pássaro empalado e ouviu-se ressoar por todo apartamento o som do “cuco” sete vezes mais.

Naquele instante Alberto rompeu seu silêncio, meio que sem saber, pensando só após dez anos o mesmo que Angélica: “que velha escrota!”.

Mário Filipe Cavalcanti

Graduado em Direito pela Ufpe, advogado, escritor, autor dos livros de contos Comédia de enganos (Penalux, 2013) – Semifinalista no Prêmio Sesc de Literatura 2014 – e O circo (EdUfpe, 2015), colunista das revistas Samizdat e Página Cultural e colaborador do site Homo Literatus, já saiu pelas revistas Flaubert e 7faces. Leitor voraz e pianista retraído, é ainda algumas coisas mais e também absolutamente nada. Conheça o Blog .

3 Comentários
  1. Parabéns pelo conto Mário! Fico feliz em saber que agora tem um espeço nesse grande difusor de cultura do Triângulo Mineiro. Sucesso nas publicações futuras, grande abraço!

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