O Cão Líquido

Minha mãe dizia que mexer no lixo é um perigo, “tem caco de vidro, tem micróbio, tem rato…!”. Já maiorzinho, comecei a levar o lixo pra fora, mas fazia a operação com a ponta dos dedos. Adolescente, certamente justificado pelo trauma, eu dava pontapés pra ver o saco de lixo voar da calçada até o meio da rua pros carros passarem em cima.

Bom, como se pode ver, a minha relação com o lixo não é das melhores. Imagine a senhora aí que me lê, que vai se horrorizar com esta crônica, o conflito interno pelo qual fui tomado no sábado passado, quando me deparei com uma caixa de cervejas importadas, da marca Erdinger, coisa finíssima, com três lindas garrafas cheinhas, abandonada ao lado do balde de lixo nas escadas do meu prédio? Algum sujeito sem coração destinou as coitadas a um fim melancólico como aquele, sabe Deus por quê.

Na parte frontal da caixa havia uma janela que permitia avistar as garrafinhas brilhantes lá dentro. Abri a tampa de papelão e levantei uma contra a luz. Perfeita! Cerveja de trigo, minha preferida. Por que uma pessoa, em posse das faculdades mentais, jogaria no lixo cervejas importadas? Teria sido a mulher do vizinho, para castigá-lo?

Entrei em casa e a Vanessa perguntou:

— Por que você demorou lá na lixeira?
— E-eu?
— Ficou olhando a caixa de cervejas, né?
— Você também viu?
— Vi, e já logo imaginei o que você ia pensar quando visse. Nem pense em pegar.
— Claro que não. Imagina um absurdo desses…

Fui dormir naquela noite perturbado com a imagem da caixa de Erdingers na cabeça. Domingo de manhã dei um jeito de arrumar um lixo pra ir lá fora jogar. Certamente a caixa já teria sumido, claro, o zelador já devia ter passado a mão. Abri a porta do acesso às escadas e… Lá estava ela! No mesmo cantinho do chão. Vou entrar com uma das garrafas para averiguar em casa, pensei. Só que aí me ocorreu que meu vizinho poderia ter armado aquilo tudo só pra se divertir às minhas custas. Imaginei-o atrás da porta, ele e a mulher se acotovelando em frente ao olho mágico para rir do vizinho miserável catando cerveja do lixo.

Voltei pra casa e busquei um saco. Abri a porta e a luz do hall se acendeu novamente, com aquele click indiscreto, que convida todos a correr pra fuçar a vida alheia pelo olho mágico. Imaginei o cara agora, de cuecas, barrigudo, correndo pra me ver. Abri a porta das escadas e pra disfarçar produzi um barulho artificial no balde de lixo. Num movimento ágil pus uma das garrafas na sacola e voltei pra casa, num passo meio trôpego, de bandido que bate carteira e se esguelha pelo meio da multidão. Fui direto pra cozinha.

Pus a menina em cima da pia. Conferi a tampinha. Intacta. Não tinha sido violada, o que descartava a possibilidade da garrafa ter sido aberta e o conteúdo envenenado com estricnina – ou urina de vizinho sacana.

— Ô, Cesar, você foi pegar a cerveja do lixo!?

Dei um pulo de susto.

— Fala baaaixo! Só estou averiguando…
— Averiguando? Você não vai beber isso, temos uma filha pra criar!
— Claro que não, imagina um absurdo desses!

Ela ficou ali, recostada de braços cruzados na geladeira, me condenando com uns olhos de inspetora de presídio.

Peguei o abridor e fui tirando a tampa, devagar. O chiado do ar escapando e as borbulhinhas lá dentro confirmaram o que eu já suspeitava: a garrafa estava lacrada desde sempre. Olhei pra carcereira que permanecia de olhos frios na minha direção. Coibido debaixo daquela pressão psicológica, me fiz de cientista e derramei o conteúdo na pia, lentamente, e fiquei observando, ar de especialista. Só me faltava um avental de laboratório e uns óculos de proteção. O cheiro gostoso da cerveja honesta, indo pelo ralo, me invadiu o nariz e cortou meu coração. O que meu amigo Edu Toledo, gourmet e produtor de cervejas artesanais, diria se visse um absurdo desses? Pode isso, Eduardo?

— É, parece que a cerveja estava perfeita – falei, tentando sensibilizá-la.
— Agora chega disso, Cesar — ela disse, inclemente — A gente ainda não está precisando pegar coisas no lixo

Mais uma noite ruim. Sonhei que estava amarrado a uma cadeira, algemado com as mãos pra trás. Um verdugo encapuzado me dava safanões e eu dizia “Não, senhor, não me condena, senhor! Foi por honra, senhor! Eu não podia deixar elas lá, senhor! É o pão líquido, senhor, por favor, senhor! Eu não faço mais, senhor!”

Na manhã de segunda nem olhei na lixeira pra não me decepcionar com a visão do chão vazio, peguei o elevador e desci pra garagem. Trabalhei mal. Como eu poderia permitir aquelas garrafas, virgens, incólumes, gringas, abandonadas à própria sorte no lixo? “O zelador, o zelador vai pegá-las!”. Nunca pensei tanto num zelador na vida.

Pode continuar a ler, Edu, que as barbaridades contra a melhor amiga do homem já vão parar por aqui, prometo.

Assim que cheguei em casa, umas 18h30, subi, decidido a reparar aquele mal. O elevador parou no meu andar e eu saí direto em direção à lixeira.

Eram umas 21h quando a Vanessa flagrou as garrafas gelando no refrigerador. Eu tinha lavado as duas bem direitinho, e foi aí que descobri o mistério…

— Cesar, pe-la-mor-de-Deus, você vai mesmo beber isso?
— Claro que não! Imagina um absurdo desses!
— Pôs na geladeira por quê?
— Fica calma, é só um ensaio laboratorial de refrigeração.
— Se jogaram fora boa coisa não é, pensa!
— Descobri tudo, veja aqui, julho 2014. Venceram faz 2 meses e o vizinho cruel jogou as pobrezinhas na rua, como um homem mau faz com seu cão quando ele fica velho.
— Ah, eu não vou dizer mais nada, desisto…
Foi pra sala. De repente voltou.
— E vê se não me conta isso pra ninguém, ouviu?
— Claro que não! Imagina um absurdo desses!

Cesar Cruz

Cesar Cruz

É paulista da Capital. Nascido em 1970, escreve contos, crônicas e artigos, além de fazer consultoria e revisão textual sob encomenda. Tem 4 livros publicados: O Homem Suprimido, Scortecci – 2010; A Idade do Vexame & Outras Histórias – 2011, A Invasão dos Horácios – 2013 e Território Conquistado – 2015, todos os três últimos pela Pontes Editores. Blog: Os Causos do Cruz.

2 Comentários
  1. César, essa foi a melhor de todas.
    Consegui visualizar você, o lixo, a cerveja e sua esposa.
    Muito divertido. Muito mesmo. Parabéns! kkkkkk

  2. É a prova de que bebida não faz bem, mesmo sem bebê-la, a Vanessa também não tem coração heim, lavou tava apto, a mulherada não entende esses coisas ou não tem coragem, ou ciúmes do que a gente é capaz de fazer sei lá… vai entender.

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