O chulé de Hitler

É triste e embaraçoso. Viram o rosto e tapam ostensivamente seus narizes com as mãos, à minha passagem. As pessoas se afastam, a repulsa vai me isolando até o limite do insuportável. No meio da multidão, quase sempre se abre uma clareira por onde ando, tamanho o efeito dessa bota malcheirosa. Mas curiosamente consigo antever, nesse caminho que se abre, um sinal de respeito e submissão pacífica. Uma reverência do povo para com seu líder. Vamos, vamos, deixem passar o rei dos fedidos.

No colégio, Fohenstein, aquele de bigodinho ridículo e cabelo repartido que veio de Auschwitz, é o mais perverso. Do alto de seus coturnos ele me olha com cara de nojo, como se dos meus pés saíssem gases letais. Meu Deus, até onde vai a crueldade humana! Eu não tenho culpa se os fungos proliferam mais em mim do que na maioria das pessoas. Isso não faz da minha uma raça inferior, nem de Adolph um ser humano abjeto.

Que foi que eu fiz para merecer tanta perseguição? O que me vale é a amizade de Takeshi e Albertini. Mesmo que todos se virem contra mim, pelo menos esses dois eu sei que estarão ao meu lado, nem que o mundo um dia caia sobre nossas cabeças.

Imagem: wikimedia commons 

Marcelo Sguassabia

Marcelo Sguassabia

Redator publicitário, pianista diletante, beatlemaníaco desde sempre e amante de filmes e livros que tratem de viagens no tempo.

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