O maltês

Lois disse pra uma amiga dela uma vez que me adquiriu num petshopp da esquina pela bagatela (ela enfatizou bastante o termo “bagatela”) de cinco mil reais. Lembro que vi uma das amigas fazer uma cara de enorme surpresa. Acho que isso era ser importante para Lois. Eu custara bem caro e nisso estava o meu valor. Todas as coisas importantes valem muito dinheiro? Nunca entendi porque Lois e os seus dão tanto valor a uns pedaços de folhas fedidos a que chamam “dinheiro”. Vi na televisão, uma vez, que mataram doze humanos como Lois por causa dessas folhas fedidas. Ouvi a humana empregada do apartamento vizinho conversar à tarde com a humana empregada do nosso apartamento que um outro humano havia roubado um de minha raça que andava com sua humana dona pela calçada certa noite. Era porque todos nós valíamos algum dinheiro.

Tudo isso sempre me deixou um tanto estranho. Fui feito para ser dócil, amigo, companheiro, gentil e dançar algumas sonatas de Mozart que o filho de Lois tocava numa coisa esganiçada que chamavam “violino”. Mas eu fico aqui, enregelado no meu trono de cão e penso, penso bastante se foi pra isso mesmo que eu fui inventado. Todos somos inventados, certo? Fico me perguntando se o animal que inventou a raça da Lois estava um pouco embriagado ou desajuizado. Quem inventaria seres como a Lois?

Mas eu gosto muito da Lois, o que é estranho, sabe? Ouvi certo dia a Bárbara dizer que amava alguém, acho que essa palavra “alguém” talvez designasse outro humano como ela. Olhei detidamente para ela, e pensei que ela estivesse doente. Sim, parecia muito doente, estava um pouco retardada das faculdades mentais e chorava por nada, como se estivesse apanhando constantemente de uma mão invisível. Acho que o que eu sinto por Lois deve ser o contrário disso, porque me sinto muito bem. A humana empregada (chamo assim porque nunca me disseram o nome dela) disse certa vez que o contrário do amor é o ódio. Acho que odeio a Lois, porque o amor é muito doentio. Mas acontece que certos dias eu amo a Lois e, por isso, sinto uma vontade enorme de arrancar-lhe um pedaço, ou de desaparecer e fazê-la sofrer muito com isso.

(ela sofreria por me perder ou por perder cinco mil reais?)

Fico aqui no sofá branco da cor dos meus pelos ouvindo Mozart. Botam ele pra tocar no tocador de CDs. O Filipe (o humano que cruza com a Lois) disse pra Bárbara quando a Bárbara era um pouco menor e mais ajuizada, que Mozart era um gigante da música. Um grande humano. Daí fui ler algo sobre o Mozart na biblioteca do Filipe, quando todos estavam dormindo. E vi que o Mozart tinha uma inteligência das mais raras, embora sofresse de um amor mal resolvido e tivesse se casado com uma pessoa que nem amava tanto e que vivia na quase-pobreza, escrevendo músicas magistrais pra poder sobreviver. Aquele homem era de fato um gigante, mas era muito burro por amar alguém. Não se deve amar na vida. Daí eu ficava enregelado no meu sofá branco ouvindo esse grande sábio-burro.

E então a Lois aparecia. Sempre de supetão e querendo carinho. Falava comigo com uma voz esganiçada como o “violino” do filho dela, uma voz que não era dela, cheia de lágrimas de felicidade nos olhos, uma doidivanas.

Uma vez o Filipe chegou muito bêbado e ficou largado no chão da varanda, olhando os prédios lá fora e bebendo. Cheguei junto dele, ele tinha cheiro de muitas ruas e sementes, daquelas que ele lançava na Lois quando cruzava com ela. Fiquei olhando ele. Daí ele me olhou e me perguntou “acha que devo me jogar, cãozinho? Acha que devo?”. Fiquei ali olhando pra ele. Por que não, né? Mas sei lá, já percebi que os humanos têm sérios receios em se jogar dos lugares. O filho violinista do Filipe e da Lois se jogou uma vez de um avião e, quando voltou pra casa, todo mundo ficou boquiaberto enquanto ele contava a história da sensação que teve. Acho que a vida é mais ou menos como a sensação de se jogar de um avião. Se você não se joga não sabe como a vida é. Mas eles têm muito medo de se jogar e no fim o Filipe se levantou e foi, cambaleando tomar uma ducha e depois se deitar.

(ficar em coma era uma forma de se esquecer?)

Depois dessa história o Filipe resolveu colocar uma tela na varanda grande do apartamento em que morávamos. Acho que ele tinha medo de resolver a vida dele. Bem, muitos têm. A Lois, por exemplo, prefere ficar o dia todo me dando tarefas pra agradá-la, acho que sou o bobo da corte. Gosto muito da Lois. Amo e odeio. Mas eu preciso fazer o que quero. Preciso aproveitar antes que o Filipe faça essa burrice. Preciso me jogar.

Mário Filipe Cavalcanti

Graduado em Direito pela Ufpe, advogado, escritor, autor dos livros de contos Comédia de enganos (Penalux, 2013) – Semifinalista no Prêmio Sesc de Literatura 2014 – e O circo (EdUfpe, 2015), colunista das revistas Samizdat e Página Cultural e colaborador do site Homo Literatus, já saiu pelas revistas Flaubert e 7faces. Leitor voraz e pianista retraído, é ainda algumas coisas mais e também absolutamente nada. Conheça o Blog .

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