O MBSC e o Torneio de Abdominais

Respeito as categorias e organizações formalmente constituídas, bem como seus direitos reivindicatórios. Mas desde que suas bandeiras sejam factíveis e que se manifestem pacificamente, sem comprometimento da ordem e do direito de ir e vir da população. Não foi o caso da arruaça travestida de protesto conflagrada pelo MBSC – Movimento dos Botões Sem Casa, na última quinta-feira.

A exemplo do que ocorre anualmente, saíram às ruas, alinhados e em passeata, botões de todos os feitios e tamanhos: brancos e coloridos, de plástico, madrepérola e madeira, os nus e os revestidos de tecido. Até mesmo os botões da Revolução de 32, já partidos ao meio, desfilavam garbosos como numa parada da Independência. Aos gritos de “Queremos Casa!”, procuravam a todo custo sensibilizar os cidadãos de bem a abraçarem seu ideal.

O epicentro da algazarra ocorreu pouco antes das onze da manhã, quando os botões e seus líderes juntaram-se a outra manifestação em curso, esta dos descamisados, no cruzamento da Duque de Caxias com a Quintino Bocaiúva. O desfile tomou corpo e ganhou novo e unificado grito de guerra: “Botões e descamisados unidos jamais serão vencidos!”

Abramos um parêntese e tracemos um paralelo entre o MBSC e o MST. O leitor há de convir que promover reforma agrária vai além da distribuição de terra. As famílias assentadas precisam ter acesso a sementes, adubos, defensivos, meios de armazenagem e toda infraestrutura de escoamento da produção.
Da mesma forma, no caso do MBSC, de nada vale subsidiar as casas dos botões se junto com elas o governo não oferecer os insumos necessários à subsistência dos beneficiados, tais como linhas, agulhas e demais aviamentos. Em suma: a meu ver, criou-se enorme balbúrdia em torno de uma proposta inviável e de contornos nitidamente demagógicos.

Meu outro comentário diz respeito ao Torneio Interestadual de Abdominais, que em sua 28ª edição polariza todas as atenções e reúne dezenas de milhares de participantes no Ginásio de Esportes Joãozinho Rignoto. Rivalizando em porte e prestígio com a Festa do Peão de Barretos, este evento inseriu definitivamente nossa cidade no calendário turístico nacional. Tanto que o chamado “Circuito do Abdômen” já integra os pacotes rodoviários de várias operadoras de turismo.

Nada justifica, portanto, as falhas nos critérios de julgamento e premiação do certame. Como é sabido, as eliminatórias se dão em pequenos grupos de 800 atletas, que executam os movimentos abdominais sob os olhares atentos de 37 juízes. O problema está nas diferenças de constituição física entre os inscritos. Peso, idade, lordose, escoliose, hérnias de disco e pintas de nascença são variáveis que tornam a peleja desigual.

Some-se a isso os fatores genéticos. Existem indivíduos dotados naturalmente de musculatura abdominal mais desenvolvida, e não há nada o que se possa fazer a respeito. Também não me parece razoável colocar, numa mesma eliminatória e em igualdade de condições, um bóia fria com Mal de Chagas e um roliço filho de fazendeiro com o bucho entupido de granola enriquecida de vitaminas e ferro (embora a granola, neste caso, possa eventualmente mais atrapalhar do que colaborar com o desempenho do cidadão).

Estas discrepâncias tornam especialmente meritórios os feitos de Athanazio Lemos, que na categoria meia-idade masculino chegou à marca de quase 59 abdominais no tempo limite de 1min e 35 segundos. Outra conquista de destaque coube a Leocinéia Arcádio, categoria terceira idade feminino, cujo escore alcançou bem mais de 67 movimentos concluídos com sucesso.

Urge que as autoridades se empenhem na normatização de parâmetros mais equânimes de disputa, a fim de que doravante nenhum inscrito seja prejudicado.

Marcelo Sguassabia

Marcelo Sguassabia

Redator publicitário, pianista diletante, beatlemaníaco desde sempre e amante de filmes e livros que tratem de viagens no tempo.

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