O milagre dos Andes

No final do ano de 1972, o mundo foi surpreendido por uma notícia vinda da América do Sul que chocou a todos. Tratava-se da queda, nos Andes, de um pequeno avião que havia saído do Uruguai, no dia 12 de outubro de 1972, levando jogadores do time de rúgbi “Los Old Christians”, e familiares, para uma partida no Chile. O avião caiu a cerca de 70 km do destino, numa área de difícil acesso e totalmente coberta pelo gelo.

Atribui-se o acidente ao fato de o piloto ter iniciado o procedimento de descida antes do momento correto, perdendo assim o controle do avião, que se chocou com as montanhas. O choque fez o avião se dividir em dois e os ocupantes da parte traseira serem arremessados para fora. Após o choque, a parte posterior do avião deslizou na neve, parando bem distante do lugar onde ficara a cauda. O piloto e o copiloto morreram pouco tempo depois da queda. Dos quarenta e cinco passageiros e tripulantes que embarcaram, trinta e cinco sobreviveram à queda, mas muitos morreriam nos dias seguintes, em consequência dos ferimentos, das escassas condições de tratamento dos traumas e de outras razões, como uma avalanche, sobre a qual falaremos na sequência. Os sobreviventes tiveram que se organizar para se manterem vivos, enfrentando o frio, a fome, o medo, a solidão e a passagem do tempo. Entre eles, destacaram-se Nando Parrado, com 19 anos na época, e Roberto Canessa, com 21 anos. Canessa era estudante de medicina, o que foi muito importante para a sobrevivência do pequeno grupo que resistiria a todo o sofrimento daqueles próximos setenta e dois dias.

O acidente fez com que Nando perdesse a consciência e só a recobrasse três dias depois. Ao recobrar a consciência, ficou sabendo que sua mãe havia morrido na queda e que sua irmã, que morreria alguns dias depois, estava gravemente ferida. Em virtude do mau tempo, devido à nevasca, as equipes de busca cessaram os trabalhos no oitavo dia após a queda do avião. Os sobreviventes não tinham como se comunicar para além das montanhas geladas, mas tinham um rádio, com o qual captaram a notícia de que as buscas tinham sido abandonadas. Agora sabiam que permanecer com vida para sair daquele lugar dependeria deles e de mais ninguém. O fato de serem religiosos praticantes, conforme relatos dos próprios sobreviventes e de estudiosos do caso, foi decisivo para que mantivessem as esperanças e a sanidade mental mínima para lidar com aquela situação.

Os sobreviventes se abrigavam dentro da fuselagem do avião e se alimentavam com chocolate e vinho que encontraram nas bagagens. Para obter água, derretiam o gelo com o calor do Sol e armazenavam a água nas garrafas de vinho vazias. Chegou um momento, no entanto, em que não havia mais alimento, foi quando tiveram que tomar a decisão mais drástica de toda a permanência nas montanhas geladas: comer os corpos daqueles que haviam morrido no acidente. Isto só seria possível devido ao fato de o gelo conservar os corpos, evitando que entrassem em estado de putrefação.

O fato de terem se alimentado com a carne dos que morreram em consequência da queda do avião, rendeu-lhes alguns dissabores e tiveram que se explicar, assim que voltaram ao Uruguai. Mas tudo ficou esclarecido, embora muitos deles tenham convivido muito tempo com uma profunda crise de consciência, conforme declarou o sobrevivente Álvaro Mangino:

Para começar, ficava constrangido, como se escondesse algo, ou tivesse vergonha do que tinha feito. Embora todos dissessem que estava tudo bem, meus amigos, minha esposa, o padre a quem confessei e os médicos, mas, no íntimo, sentia essa culpa, da qual levei anos para me livrar, para tirar de dentro de mim. Ninguém me julgou pelo que eu tinha feito. Eu julgava a mim mesmo. Aos poucos, fui me libertando, até o dia em que percebi que não fazia sentido sentir vergonha, foi um ato natural e racional. E faria de novo, se preciso.

O acidente nos Andes ganhou maior notoriedade devido ao fato de os sobreviventes terem se alimentado com carne humana. No entanto, o momento mais significativo da experiência pode ter sido quando, duas semanas e meia após a queda do avião, uma avalanche, durante a noite, lançou neve dentro da fuselagem, matando oito dos sobreviventes por asfixia, pois lhes faltou o ar. Como havia três sobreviventes num ponto mais alto no interior da fuselagem, os mesmos não foram cobertos pela neve e se arrastaram sobre ela, buscando os lugares onde estavam as cabeças dos demais. Assim, conseguiram salvar muitos deles. Esse episódio demonstra a estreita linha entre a vida e a morte. Se os três jovens estivessem deitados junto aos outros, não haveria nenhum sobrevivente do desastre e o mundo jamais conheceria os fatos posteriores ao desaparecimento do avião. Sobre essa experiência, dois dos sobreviventes fizeram as seguintes declarações:

Eduardo Strauch: Quando estava sob a neve, aprendi que a morte é o começo da vida. Comecei a sentir um prazer enorme, algo me chamava, não conseguia resistir. Queria ir, senti contentamento, plenitude, bem estar e paz. E quando ia chegar lá, meu primo tirou a neve do meu rosto. Ia em direção a algo maravilhoso e estava quase chegando lá. Tenho certeza de que a morte é o começo da vida. Uma vida muito melhor. Melhor dizendo, é o primeiro passo em direção à vida eterna. Então a morte não me assusta. Tenho certeza de que aqueles que morreram ainda vivem e posso senti-los perto de mim. É incrível poder passar isso para os outros perderem o medo da morte.

Gustavo Zerbino: Quando senti meus pulmões quase explodindo, meu coração acelerando, quando não aguentava mais, comecei a ver a minha vida inteira passando, como um filme. Voltei até quando eu era bebê, engatinhando aos pés da minha mãe. Então, tornei-me uma luz, indo na direção de uma luz maior, cor de laranja, como um néon para onde todos os tipos de luz convergiam. Havia uma paz imensa, sem ansiedade, como se estivesse no paraíso. Então ouvi alguém chamar, Gustavo!

Graças à determinação e à coragem de dois dos sobreviventes, Roberto Canessa e Nando Parrado, o desastre acabou tendo um final feliz, pois os dois, após setenta e dois dias no gelo (dos quais, dez foram de caminhada pelas montanhas), encontraram um camponês chileno que lhes prestou socorro, possibilitando que fossem resgatados, medicados e alimentados. Logo em seguida, Nando, no dia 22 de dezembro de 1972, voltou ao local do acidente com membros e helicópteros da força aérea chilena, para resgatar os outros sobreviventes, numa das mais impressionantes e emocionantes histórias de resgate já vividas e contadas. A esperança que os catorze sobreviventes, que ficaram no gelo enquanto Canessa e Parrado buscavam auxílio, depositaram nos dois amigos tinha dado frutos. Essa cena, e o drama vivido pelos sobreviventes, foi representada no filme Vivos (Alive – 1993)*, de Frank Marshall, e serve como uma mensagem de otimismo, como um exemplo do elevado valor da vida e como prova de que a realidade pode, em muitos casos, superar, também positivamente, a ficção.

A história vivida pelos jovens uruguaios é um episódio de superação mas, acima de tudo, uma experiência única na história recente da humanidade, cujo desfecho foi feliz devido à união, a organização e à imensa vontade de voltarem “à vida”, depois de considerados mortos.  Imaginemos, por um momento, o que teria acontecido se cada um tivesse tentado se virar por si mesmo, levando à prática a regra do capitalismo individualista que é a marca registrada da nossa sociedade, o resultado seria a loucura, o eclipse total da razão e a morte de todos. Eles não teriam sobrevivido se tivessem se comportado da maneira como nós, em geral, vivemos, de maneira egoísta e individualista. A organização empreendida por eles, até mesmo organizar e racionar a distribuição da carne humana que lhes serviu de alimento, garantiu a sua sobrevivência, o retorno aos seus lares e ao convívio com os seus familiares.

Passados mais de quarenta anos, o acidente ainda provoca debates. Foi tema do filme citado acima e de muitos livros e documentários. Os sobreviventes, na sua maioria, fazem parte da elite uruguaia e continuam residindo próximos uns aos outros e se encontrando regularmente. O mais ilustre é Nando Parrado que, depois de se recuperar, tornou-se piloto de motos e de automobilismo. É celebridade na TV uruguaia, palestrante de sucesso e CEO de inúmeras empresas com base no Uruguai. Escreveu o livro “Milagre nos Andes” e colaborou como consultor no filme de Frank Marshall, o que garantiu ao longa metragem uma fidelidade rara entre realidade e cinema.

Apesar de tudo, Nando faz questão de não se considerar um herói. Para ele, o episódio dos Andes foi uma história de sobrevivência, de vontade de viver e não de heroísmo.

Concluo com depoimentos marcantes de quatro sobreviventes:

Roy Harley: Creio que o mais importante que ficou desta experiência foram os sentimentos que experimentamos todos os dias. Os amigos, as discussões, brigar, depois nos abraçarmos. Termos que viver como um grupo tão unido. Todos tínhamos o mesmo senso de sobrevivência e amizade.

Roberto Canessa: Olhei para a linha onde a neve terminava e não acreditei naquilo, não havia mais neve. Então pus um pé no lado onde não havia neve, outro onde havia, e disse: “Estou salvo. Não vou mais morrer, tenho que tirar meus amigos de lá. Esta é a linha entre a vida e a morte”.

Carlito Paez**: Quanto a ter comido carne humana, não me envergonho. Se tivesse de fazê-lo de novo, o faria, sem hesitação. O que jamais faria é dizer quem nós tivemos que comer para sobreviver. Isso machucaria os parentes dos que morreram e é algo que não estou disposto a fazer.

Nando Parrado: Cheguei novamente em minha casa e meu pai estava só, minha irmã mais velha havia se mudado e eu havia sido dado como morto. Chegar e ver a sua foto, em preto e branco, sobre a escrivaninha, é um sentimento raro e difícil, porque é a fotografia de uma pessoa considerada morta. (…) E a vida segue. As pessoas te querem, lembram-se de você, mas a vida segue.

Notas:

*Em 1976, foi produzido um filme sobre o episódio, baseado no livro “Os sobreviventes dos Andes”, do jornalista Clay Blair Jr.
**Carlito Paez tinha apenas 17 anos e era o mais jovem entre os sobreviventes.

Fontes:

Documentário: Alive
Filme: O Milagre dos Andes – Frank Marshall – 1993
FERNANDES, Paulo I. B. Ensaio sobre The Dark Side of the Moon e a Filosofia.
PARRADO, Nando. O Milagre dos Andes. 

Imagens:

http://www.parrado.com/gallery-andes.html
http://www.istoe.com.br/reportagens/

Links:

Carlito Paez no Programa do Jô – http://www.youtube.com/watch?v=XJlHVYd2mm0
Documentário: http://www.youtube.com/watch?v=aQIRKw8ZlqA

Paulo Irineu Barreto

Paulo Irineu Barreto

É escritor e Professor do IFTM. Doutor em Geografia Humana e Cultural e Mestre em Filosofia Política e Social. Pesquisa e escreve sobre Cultura, Educação, Filosofia, Geofilosofia, Geografia e Política.

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