O Palhaço

ENGRAÇADO QUE NAQUELE momento enquanto ria, ria de se matar, lembrava-se de certo provérbio de Salomão que sua mãe, que era muito religiosa, vivia lendo pra ele… Será que ela sabia? Será que no fundo podia sentir?

         Dava uma cambalhota, duas, três, e fazia aquelas maravilhosas caras e bocas que arrancavam o riso de todos, sim!, o riso…, o riso, o RISO! E ele via, descrente, o riso – já tinha tido uma espécie de overdose daquela loucura, e, em sua mente, enquanto fingia desmaiar por causa do pum que outro palhaço, colega de anos de circo, tinha soltado, relembrava as palavras todas, pequenas e certeiras para ele naquela fase de sua vida: “Até no riso o coração sente dor”…

         Daí aparece-lhe bem na frente o colega, que no ano anterior tinha sido considerado o melhor palhaço da região, e, na tentativa de lhe socorrer, fazendo um enorme esforço para levantá-lo com os dois braços, acaba soltando outro pum e ele desmaia de novo. O público vai à loucura. O riso ecoa de canto a outro da grande lona, e ele repara, por entre uma cortina espessa nos fundos, que o grande apresentador, dono do circo, signore Parini Pallocco, afia os bigodes e ri de fininho – deve estar contando os lucros – “Filho duma cretina! Faz tempo que não me paga direito!”, desabafa interiormente enquanto vê o colega saltitar. Era sua vez, de acordo com o ensaiado. Saltita.

         As crianças dessa vez foram postas bem na frente, os pais geralmente ficavam com elas nos colos, mas hoje em especial o cretino do Pallocco tinha baixado decreto que na hora dos palhaços criança tinha de ficar na ponta, na frente, parte baixa das arquibancadas, o mais próximo possível da alegria. E o desgraçado sabia que o que lhe motivava a continuar no circo eram os risos das crianças…

         Aqueles sim, risos sinceros, altíssimos, fortes, risos de seres débeis e angelicais, que da vida nada sabiam, que nada podiam compreender… Os adultos, uns calhordas que viam das acrobacias e palhaçadas que ele fazia uma espécie de droga, da maconha para seus problemas diários, pseudo problemas.

Uma vez escutou enquanto se arrumava no camarim uma senhora cheia da grana dizer pra amiga: “Vamos, logo, Margot, não podemos perder o início, quero tirar das palhaçadas dessas caras a motivação que aquele escritório infame não me dá mais, afinal, palhaço só serve pra isso, né?!”. E, no fim, era isso, pensava, seu trabalho era embalar as angústias desses monstrinhos.

         Não, não, preferia as crianças. As crianças não sabiam que ele recebia cachê para sobreviver, que se não trabalhasse morreria de fome e que não tinha pai nem mãe para lhe ajudar, as crianças não sabiam que ele era só no mundo desde criança dada a morte de seus familiares, as crianças não sabiam que ele pedia no sinal antes de ir parar ali, que tinha mulher e filho pra sustentar a milhares de quilômetros dalí… Os adultos também não sabiam de tudo isso, ao menos boa parte deles, mas tinham consciência de que ele era um ser humano e de que não ganhava o mesmo que o respeitável advogado da arquibancada 23 que olhava e ria com ares de magistralidade.

         E o calhorda do Pallocco que não me paga há bem uns três meses, filho duma mãe!

         Soam os tambores, chegara a hora mais esperada, o seu colega pularia por dentro de um círculo de fogo, todos na expectativa, os tambores ainda mais altos, batidas vindas de todos os lados, um, dois, três, o salto perfeito e nem um pedacinho do colega queimado. A plateia ergue-se e aplaude de pé.

         A vez dele. Achava uma droga tudo aquilo, porque cargas d’água ele teria sempre que se ferrar, que fazer a parte pior, enquanto aquele idiota do Guído fazia o perfeito? Já havia conversado com Pallocco antes sobre isso, não achava justo que o Guído fizesse sempre a parte legal no espetáculo e ele bancasse sempre o idiota, sem falar que Guído estava recebendo direitinho, enquanto pra ele aquela miséria…

         – Mío querido, o seguinte eco, disse o italiano estufando o peito, tu és palhaço de quinta, um arranjo, tcherto? Guído, não, Guído niente disto, Guído mio primo, palhaço de primeira! E miséria tu estás acostumado passar mesmo, eco?!

         Nem acreditou quando ouviu aquela resposta, e tinha planejado, planejado tudo dali mesmo, diriam depois, caso descobrissem, e descobririam sim, já que hoje a modernidade é outra, que tinha sido tudo, tudo, “tutti”, como dizia o idiota do Pallocco, premeditado com requintes de crueldade.

         Saltou no arco e queimou-se todo, caindo feito um besta no chão e debatendo-se, o público aplaudiu com ainda mais força, as crianças, seguindo os adultos, riam daquela algazarra, ele, todo se queimando e o besta do Guído – adorava fazer essas coisas – em vez de buscar um extintor, joga um produto lá ainda mais inflamável! O público enlouquece!

         Hora de jogar-se na tina d’água, pequena, apertada, mas água, se lança pra apagar o fogo e o público ri, ri, ri…

         Horas depois, o espetáculo encerrado, como tudo na vida, começo, meio e fim. O público, farto de risadas, já dormia contente em casa. Na saleta da administração a sombra de Pallocco dando rios de dinheiro ao Guído. Os outros artistas já estavam nos camarins, todos tinham recebido, ele, como sempre, era o último da contabilidade e aguardava do lado de fora.

         A lua estava bonita, cheia, no céu, o circo armado gigantescamente, lona vermelha e branca, nos arredores de Brasília, terra bonita como uma virgem: fria e seca. A pele dele mesmo, que não era acostumada a essas sequidões, rachava-se de alto a baixo. Por um instante ainda pensou na pele do Pallocco rachando-se ante a sequidão de tamanhas labaredas…

         O Guído saíra com seu calhamaço de dinheiro à mão, dizendo, orgulhoso e provocativo: “Hoje o lucro foi alto!”.

         Ele ignora, entra na lona, contorna o picadeiro, depois daquelas cortinas espessas é que está Pallocco, sentado em uma sala onde reluzia à porta placa com os dizeres: “DA ADMINISTRAÇÃO”. Entra, senta-se.

         – Mío caríssimo, cada dia tu interpretas meglhore o palhaço idiota!

         – Quanto ganho por hoje, Pallocco?

         Tinha dado uma chance ao filho da mãe, uma chance de se redimir e evitar o sinistro, na contabilidade dele, com esse seriam quatro meses, o locador da pequena casa que alugara pra mulher e filho em Recife já exigia os pagamentos ou então: rua! Despejo! E pensar que ele estava tão distante de sua família, a melhor coisa que tinha, feita no circo mesmo, em Pernambuco, época de ouro…, não, não era possível, Pallocco pagaria, todos saíram pagos.

         – Mas acertamos mês que vem, é que se te pago fico sem lucro, bambino, e ainda mais num te dou trailer, comida e tudo?

         – Obrigado, Pallocco. Respondeu secamente.

         Levantou-se. Cerrou a porta atrás de si. Ainda ouviu o italiano dizer baixinho: “que palerma! Melhor achado do circo: um pedinte de sinal!”. Contornou de volta o picadeiro apressadamente – sentiria alguma saudade apenas do riso sincero das crianças ingênuas. Olhou de canto a canto a arquibancada, aquele riso, aqueles risos…

         Tudo estava vazio e silencioso.

         Dentro apenas Pallocco e o completo nada, silêncio das horas mortas. Na parte de fora, nada que denotasse vida, a turma, sem maquiagens e parolagens de palhaçadas resolvera gastar dinheiro num bar da capital federal.

         Tomou dos instrumentos que havia preparado o dia todo. Voltou à sala do Pallocco. Olhou pra um lado e pro outro – ninguém. O italiano ainda contava dinheiro lá dentro. Do bolso do macacão tirou uma pequena chave, meteu na fechadura da porta, girou-a duas vezes. Saiu.

         Rios de gasolina e querosene – o cheiro forte da vingança. Aquele riso todo ainda ecoava na mente dele, na barriga ardia a fome. Em sua mente a família a passar necessidades em Recife…, “Pallocco, seu miserável!”, pensou. Ascendeu a centelha e lançou-a ao ar, num ato divino de destruição. Prometeu teria corado se visse…

         Virou-se pelos calcanhares, e andou, andou, andou, não sabia para onde, não sabia quando seria pego, não sabia se seria pego, não sabia se ao menos um dia veria sua família de novo. Faria o possível, o impossível…

         No instante em que caminhava ainda ouviu os gritos do italiano ecoarem nos desertos secos dos arredores de Brasília. O fogo consumia tudo. E, sem saber como, ele riu. Riu de gargalhar, é que agora entendeu aquele ditado popular que um amigo de Recife vivia lhe dizendo, muito melhor que o tal provérbio da mãe que tinha lembrado mais cedo, que alegria de palhaço é ver o circo pegar fogo.

Conto integrante do livro O CIRCO, aprovado em Edital da Editora Universitária da UFPE (no prelo)

Mário Filipe Cavalcanti

Graduado em Direito pela Ufpe, advogado, escritor, autor dos livros de contos Comédia de enganos (Penalux, 2013) – Semifinalista no Prêmio Sesc de Literatura 2014 – e O circo (EdUfpe, 2015), colunista das revistas Samizdat e Página Cultural e colaborador do site Homo Literatus, já saiu pelas revistas Flaubert e 7faces. Leitor voraz e pianista retraído, é ainda algumas coisas mais e também absolutamente nada. Conheça o Blog .

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