O quadro misterioso

O relógio marcou dez. Francisco desceu apressadamente as escadas, pois já estava no seu horário. Ao chegar a recepção do hotel, viu que o rapaz do turno anterior ainda atendia dois clientes, aparentemente um casal, que acabavam de chegar.

– Boa noite, disse educadamente.

O casal respondeu a sua saudação, e logo após pegaram a chave que o outro os forneceu e seguiram em direção as escadas que davam para os quartos. Antes de subir, a mulher que estava em companhia do seu marido, virou-se para os dois rapazes e apontando para um quadro pregado na parede, disse-lhes:

– Este quadro é uma belezinha. Sabem informar quem o pintou?

Os dois rapazes olharam repentinamente para o quadro pendurado atrás deles e divisaram a bela paisagem que ele representava. Francisco fez com a cabeça que não sabia a qual artista pertencia aquela obra, olhou para seu colega como se o indagasse se ele sabia, e este também balançou a cabeça dando a entender que também não sabia da procedência do quadro. A moça meneou a cabeça, esboçou um leve sorriso nos lábios como se agradecesse, e seguiu com seu marido em direção ao quarto.

– Como foi o movimento aqui hoje, Luiz? – indagou Francisco ao rapaz que já arrumava suas coisas para ir embora.

– Foi calmo. – respondeu o outro sem entusiasmo algum na voz.

Após passar um tempo organizando as suas coisas que estavam por ali, Luiz se despediu de Francisco e partiu, deixando-o só atrás do balcão da recepção para cumprir com os seus deveres.

O homem sentara-se na cadeira que ficava atrás do balcão, ligou o computador que o outro havia desligado, e passou a vasculhar a internet, já que não havia nada ali que ele pudesse fazer, a não ser esperar que chegassem hospedes ou que o telefone tocasse. Seus olhos cravados na tela multicor da máquina faziam com que ele perdesse a noção de tempo e espaço, e se concentrasse apenas naquilo que via. Resignado na sua condição, desbravava o cyber espaço almejando que as horas se consumissem para que ele pudesse voltar para a sua casa.

Alguns minutos se passaram. A noite estava morna. Uma brisa tépida acariciou o pescoço do homem. Francisco bocejou e se espreguiçou fazendo um movimento involuntário que levou o seu olhar ao encontro do quadro pendurado na parede. Era realmente uma belíssima pintura impressionista. As arvores grandes e pomposas de folhas amareladas se confundiam com algumas flores rosadas e lilases, e no meio da mata havia um caminho de cascalho amarelado, e ao fundo montanhas com picos gelados. No canto esquerdo da paisagem havia um rio de águas cristalinas que corria para os montes de picos gelados e que denunciava certa frescura no lugar. O céu estava colorido por tons pastel e alaranjado, como se denunciasse um por do sol.

Curioso e encantado com a beleza da pintura o homem se levantou da cadeira onde estava sentado e indagou-se, chegando mais perto do quadro “como nunca antes havia reparado naquela imagem”? Seus olhos investigaram aquela figura como se procurasse nela algo que explicasse o seu encantamento.

Será que aquele lugar existia? Perguntou a si mesmo, e a vontade que teve era de estar ali, dentro daquele quadro vivendo aquele momento de harmonia e esplendor. As coisas naquela paisagem exalavam a métrica que o autor havia usado para dar forma a pintura. Francisco quis estar ali, viver aquela imagem, senti-la com o seu tato. E foi por isso que se aproximou do quadro e toco-o buscando trazer a sua realidade a sensação de fazer parte daquela paisagem. Era assim que a arte penetrava o coração do homem. O momento de contemplação em que aquele que observa se confunde com o que é observado. Aquele momento era o grande mistério da arte, o encontro do que a imagem era, e o encontro de quem naquele instante a fazia ser o que era.

Os olhos de Francisco passearam pela paisagem tentando identificar nos cantos do quadro um nome que revelasse quem o havia pintado. Entrementes não havia identificação de autor algum. A única coisa que ele percebeu, chegando mais perto da imagem, foram algumas pegadas que estavam marcadas sutilmente no caminho de cascalho. Seus olhos com as bolas negras apequenadas de contemplação, ou horror?… Se concentraram naqueles seixos deixados por alguém. Quem haveria passado por ali? Seria possível alguém ter passado por ali?

Francisco quis mais que tudo naquele instante ser aquele que por ali passou, congelar-se naquela imagem e divisar naquele quadro o que estava além do horizonte. Sentia que ali dentro havia mais do que os olhos podiam identificar. Sua alma gritava conectada aquele ambiente exigindo do seu corpo a obrigação de fazer parte daquela paisagem. Talvez naquele lugar, deixadas às mazelas desse mundo, poderia viver da forma que o aprazia.

Estar naquela paisagem, capturar aquele momento único com seus sentidos, não apenas com o olhar, mas com todo o seu corpo. Como seria possível? Não seria possível. Que mãos perspicazes haviam esboçado aquela bela pintura? O autor deveria ser um grandioso artista. Francisco pôs uma de suas mãos sobre a tela, quando repentinamente foi surpreendido por um novo cliente.

– Boa noite!… – exclamou o homem ao se aproximar da recepção.

– Boa noite, senhor, o quê deseja?

– Gostaria de um quarto para passar a noite.

–  Ah sim, temos alguns vagos… Então ofereceu um dos quartos ao senhor que carregava um olhar rude, e depois de entregar-lhe a chave voltou a se sentar na cadeira atrás do balcão de recepcionista.

Havia esquecido do quadro que instantes atrás o encantou e o fez sentir-se mais perto de algo que ele não poderia explicar, mesmo que tentasse.

Após alguns minutos sentados fitando o nada, Francisco debruçou a sua face sobre o balcão e acabou por pegar no sono. Acordou quando uma luz misteriosa e esverdeada surgiu por trás dele. Virou-se assustado e percebeu que a luz vinha do quadro. Encantado ou horrorizado com aquilo, se aproximou da paisagem e ao chegar próximo a imagem pôs uma das mãos sobre ela. A luz verde que dali saia se tornou mais forte. Francisco foi engolido pela luz que cintilava intensamente e se perdeu na imensidão do que ele não compreendia.

***

Pela manhã o casal que havia se hospedado no hotel a noite, desceu as escadas para tomar o café da manhã. A mulher ainda admirada com a beleza do quadro, se aproximou da recepção que estava vazia e passou a observá-lo.

– Amor, veja, há algo de estranho nesse quadro. Parece diferente do que vimos ontem à noite.

– Não amor, deve ser impressão sua. – concluiu o homem.

– Deve ser. Gostaria muito de saber de quem é esse quadro, mas vê, nem no próprio quadro há assinatura alguma.

– Amor, vamos. Estou com fome.

A mulher se demorou ainda alguns instantes observando a pintura. O seu marido seguiu em direção a cozinha. Ela investigou toda a paisagem, as flores, as arvores, as montanhas, e viu que no fim da estrada de cascalho havia um homem. Um homem que não lhe era estranho. Seus traços lembrava alguém que ela conhecia, mas ela não sabia quem. Intrigada com o que via, aproximou-se mais do quadro, e tomada por certa indiscrição passou para trás do balcão da recepção cravando os olhos na figura do homem. Seu olhar anuviou-se quando ela percebeu que se tratava nada mais nada menos do que o homem que a havia atendido na noite passada. Mas como? Isso não era possível. Atordoada e tomada por certa vertigem litúrgica, a mulher se afastou do quadro, e correu para o encontro do marido na sala do café da manhã sem saber se o que havia visto era aquilo mesmo ou se a loucura a havia acometido.

Marcos Welinton Freitas

Marcos Welinton Freitas

Baiano do Bravo/Serra Preta. Graduando em Economia pela Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS). Escritor: poeta e contista.

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