O relógio da vida

Subitamente veio na minha mente a curiosidade de olhar para o relógio da vida. Mirei o cronômetro e quase tive um chilique. Haviam passados 21.900 dias. Fiquei nervoso, agora sei que é uma questão de tempo mesmo. Se tudo correr bem ainda faltam aproximadamente 7.300 dias para romper a faixa de chegada. O mais triste é que, ao invés de correr mais forte, tenho que desacelerar e tentar chegar por último. Ilusão minha, não é por ordem de chegada é pelo número de dias. Ontem mesmo eu achava que seria eterno, mas hoje descobri que o segredo é o tempo.

Para aqueles mais apavoradinhos é sempre o que resta. Confesso que estou nervoso, principalmente por que amanhã faltarão 7.299 dias…

Dei uma espiada no passado para ver se eu tinha feito alguma cacaca. Ih! Foram muitas! Agora é tarde. O que está feito, está feito.

Meus ídolos se foram todos. Nelson Gonçalves, Francisco Alves, Dolores Duran, Inezita Barroso, Vinicius de Morais, Clara Nunes, Elvis Presley, Elis Regina, Gonzaguinha, Tim Maia, Cauby Peixoto e muitos outros. Até o Renato Russo era meu ídolo. Todos eles em algum momento de suas jornadas julgaram-se eternos. Seus legados ficaram na nossa memória.

Sou um cidadão comum e lá no fundo gostaria de construir um legado para os que ficassem. Coisa de ego mesmo, mais para me exibir do que outro sentido prático.

Arrumar minha casa interna para chegar lá no paraíso todo certinho é fora de propósito. Lá deve ser muito monótono.

Estes sete mil dias, que ainda tenho como presente de Deus, eu utilizarei da maneira mais tranquila possível. Não contarei mais os dias que faltam, ficarei nervoso, é certo. Contarei um dia de cada vez. Chico Xavier, outro ídolo meu, dizia: a vida é uma página em branco para ser escrita. Eu digo: Cada dia é uma página em branco para ser escrita. E vai ser assim. Não perdoarei ninguém e não pedirei perdão para ninguém. Não há razão na minha jornada para pedir perdão e ninguém me fez mal algum para ser perdoado. Sou abençoado, pois passei incólume por essas questões, já está tudo preto no branco.

Sentarei à beira da sanga para prosear mais comigo, aquele eu esquecido que foi por mim. Escutarei o meu silêncio e filosofarei para os galhos e as areias da orla.

Desvencilhar-me-ei  dos ranços  que adquiri ao longo do caminho e que me fizeram mal, principalmente aqueles ideológicos. Colocarei mais vida nos sete mil dias seguintes.

Reavaliarei as minhas pequenas hipocrisias. Jogarei fora o meu ceticismo. Darei uma reformulada no meu ego, ele às vezes incomoda. Darei um choque de gestão nos meus valores  há muito descontrolados. Quero ficar em paz. Entretanto, não virarei monge, não mesmo. E nem casto.

Se pudesse voltar no tempo para fazer diferente, é certo que erraria de novo. Na vida é assim. Vivemos o tempo de errar e acertar. O acertar será sempre para o futuro.

Abandonarei o Budismo. Esse tal de caminho do meio soa como fundamentalismo.

Abandonarei o Catolicismo, pois tenho muito pecado e não quero ser salvo.

Abandonarei o Espiritismo, pois ele fala muito em reencarnação e resgate cármico.

Não quero saber de reencarnação e nem sequer de resgate. Uma  só jornada já está de bom tamanho.

Continuarei o meu caminho solito arrecadando bons amigos para essa etapa derradeira. Afinal de contas o que é realmente importante são as boas relações que fizemos durante a vida. E é isso.

Depois de amanhã faltarão 7.998 dias…

Sérgio Clos

Sérgio Clos

Escritor de Porto Alegre/RS publicou "Premissas", "A maleabilidade do tempo", "Fios de Prata, "Império do cinismo" e "Fundamentalismo Democrático".

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