O Revoltante Crime da Placa Roubada

Onde vamos parar? Urge a necessidade de uma política pública de repressão a certos tipos de crime, crimes tão bárbaros que nossa mente recua só de nos pensarmos, um dia, vitimados por eles. Não bastassem os latrocínios, os estupros, os pais que jogam os filhos da janela do apartamento e o boliche com cabeças humanas, eis que surge o horrível, o monstruoso, o inimaginável Crime da Placa Roubada.

Todos os horrores se encerram nesse novo crime, já que a partir dele, com a família rendida, tudo (eu disse TUDO) pode acontecer.

A prática, que no mesmo tempo em que me chocou me deixou encantado pela criatividade, consiste no seguinte: uma família feliz em viagem estaciona o carro numa dessas paradas de estrada, do tipo frango frito, e quando volta embarca no veículo e segue viagem. Não sabem, coitados, que dentro de minutos estarão nas mãos de criminosos brutais que poderão roubá-los, espancá-los e realizar com eles toda a sorte de sevícias, entre elas estuprar as mulheres, decapitar os homens e retirar os rins das crianças, ainda vivas, para o tráfico.

Você vai continuar a ler isto? Por que será que o horror que se arremessa sobre a vida do próximo atrai tanto a gente? Pare de ler agora se for capaz, eu o desafio.

Bom, vamos adiante, já que você também parece se alimentar dessas barbaridades.

Com a família longe do veículo por alguns minutos, os larápios roubam a placa dianteira do carro, que por não ter lacre é facilmente retirada. Em posse da placa vão para seu próprio carro, parado logo adiante no acostamento. Ficam ali, esperando as vítimas incautas passarem por eles para que as sigam pelo tempo que for necessário. Sempre bem vestidos e embarcados num veículo de luxo, perseguem disfarçadamente o carro-alvo até que o momento oportuno surja, geralmente numa estradinha secundária, ladeada por mato em ambos os lados e banhada apenas pela luz da Lua (sim, esse crime é cometido ao anoitecer, e o bote é aplicado já com o breu instaurado).

O amigo leitor está ansioso para saber o que acontece agora? Calma, chegaremos lá. Isso, se ajeite no sofá, busque uma cerveja se quiser. Eu espero.

Pois bem. Em posse da placa, imersos na noite e já na estradinha secundária, ultrapassam o veículo da família e dão ritmadas buzinadinhas. Com o vidro aberto o bandido que está de passageiro, belo, sorridente e cavalheiro, mostra a placa do carro supostamente caída quilômetros atrás ao pai da família, que vendo ali a placa do seu próprio veículo sacudida diante dos seus olhos por pessoas tão gentis, não pensa duas vezes e encosta o carro no acostamento escuro. E os bandidos param logo à frente… Isso, amigo, dê um gole da gelada, no conforto do seu sofá, e pense no que acontecerá a partir daí.

Ao ler o relato dessa nova modalidade num email, confesso que abri minha própria cerveja e, num misto de indignação, ódio e admiração, soltei um sonoro Uau!

Claro que não demorei a enviar o email por whatsapp a um grupo de amigos, todo orgulhoso pelo privilégio de poder alertá-los, afinal ninguém antes de mim sabia daquilo. Ah, a vaidade… Serei eu um verdadeiro benfeitor a combater o crime a partir da minha sala?

Qual não foi minha surpresa ao receber do amigo Marcelo Santos, em questão de minutos, a seguinte mensagem: “É mais um spam, Cesar, mais um texto desses que circula pelos grupos. Não existe esse crime, é lenda. Esse aí eu já recebi 5 vezes. Antes de divulgar, dê um gúgol para ver se é verídico. Abço!”

Você deve ter um amigo assim, que sabe mais do que você acerca de tudo, que sabe fazer cerveja caseira, que conhece a resistência dos materiais, que entende de entradas USB, HDMI e VGA…

Agora estou aqui, sem saber quem odiar. Devo odiar os malditos ladrões, que nunca praticaram o sensacional Crime da Placa Roubada? Ou o Marcelo, que sabe mais e é mais esperto do que eu?

Estou revoltado!

Cesar Cruz

Cesar Cruz

É paulista da Capital. Nascido em 1970, escreve contos, crônicas e artigos, além de fazer consultoria e revisão textual sob encomenda. Tem 4 livros publicados: O Homem Suprimido, Scortecci – 2010; A Idade do Vexame & Outras Histórias – 2011, A Invasão dos Horácios – 2013 e Território Conquistado – 2015, todos os três últimos pela Pontes Editores. Blog: Os Causos do Cruz.

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