O rosto partido de Ana Cristina Cesar

O rosto se mostra. Vi Ana, certa vez, com uma amiga – era um livro de capa rosa com o rosto partido de uma mulher na cor azul com um nome estampado sobre a imagem, “Ana Cristina Cesar”. Aberto o livro, ouvi-a dizer: “E ele e os outros me veem/Quem escolheu este rosto para mim?”

Ana se mostrou. O livro de capa rosa-azul me acompanhou nos bares, lares e filas burocráticas. “Poética”, publicado pela Companhia das Letras em 2013, é composto pelos primeiros livros publicados em vida pela poeta – “Cenas de abril”(1979), “Correspondência completa”(1979), “Luvas de pelica”(1980) – e pelos livros póstumos organizados por seu amigo, Armando Freitas Filho – “Inéditos e dispersos”(1985), “Antigos e soltos”(2008).

Ana nasceu no Rio de Janeiro,  em 1952. Formou-se em Letras, na PUC-Rio; fez mestrado, em Comunicação Social, na UFRJ; e Master of Arts, em Crítica e Tradução, na Inglaterra. No Brasil dos anos 1970, os ditos poetas marginais, como Cacaso e Chacal, exerceram uma atitude política diferente ao mimeografar uma nova forma de escrita, contrapondo à vanguarda concretista, distribuindo livros mimeografados. Situações cotidianas surgiram sem grande trabalho com a linguagem em tons cômicos e escrachados – poemas de circunstância, poemas-minuto, poemas-piada. Ana conviveu com essa gente, no entanto, apesar de sua escrita carregar traços que se assemelham à estética de sua geração, ela se fez singular.

Diversos trabalhos acadêmicos e jornalísticos foram publicados sobre Ana C. Há em comum, na maioria desses textos, figurar o rosto de uma mulher jovem, bela, intelectual e suicida. Não pretendo trilhar esse caminho. Falo de um rosto vi. Falo de um outro modo.

Muro branco e buraco negro. Olhos, bochechas, boca, nariz. O muro branco, sobre o qual os signos se inscrevem, fala sobre significância, enquanto o buraco negro, onde se aloja a consciência, fala sobre subjetivação. Semióticas mistas que constituem um dispositivo: duplo eixo significação-subjetivação, sistema muro branco-buraco negro. Surge aqui a ideia de uma máquina abstrata da rostidade, proposta por Gilles Deleuze e Félix Guattari.

“Ora a máquina abstrata, por ser de rostidade, irá rebater os fluxos sobre significâncias e subjetivações, sobre nós de arborescência e buracos de abolição; ora, ao contrário, por operar uma verdadeira “desrostificação”, libera de algum modo cabeças pesquisadoras que desfazem em sua passagem os estratos, que atravessam os muros de significância e iluminam buracos de subjetividade, abatem as árvores em prol de verdadeiros rizomas, e conduzem os fluxos em linhas de desterritorialização positiva ou de fuga criadora” (DELEUZE & GUATTARI, 1996. p.60).

Não é o sujeito que escolhe o rosto, Ana. É o rosto que escolhe o sujeito. Mas, é possível desfazer o rosto? Ao desfazer o rosto, corre-se o risco da loucura. O rosto é uma organização forte. O rosto é coletivo. Desfazê-lo é político.

O cotidiano, a confissão, a fragmentação. O rosto partido. O texto de Ana se mostra louco. Em um ensaio, ela comenta: “Na ‘nova sensibilidade’ pós-tropicalista, a cultura (o saber, a técnica) é redimensionada pela loucura (percepção fragmentária) e vice-versa.” Para a autora, a poesia é construção do real, o texto é autônomo, distinto de seu autor, objeto a ser contemplado e recriado pelo leitor.

Ana Cristina Cesar se insere nas reflexões filosóficas contemporâneas, acerca da literatura. Retomo Deleuze e Guattari, para indagar: qual o rosto de Ana? Certamente, há que se atravessar o muro branco das subjetivações e se embrenhar pelos buracos negros de subjetividade. O texto fragmentado e o rosto partido merecem atenção.

“Acreditei que se amasse de novo
esqueceria outros
pelo menos três ou quatro rostos que amei
Num delírio de arquivística
organizei a memória em alfabetos
como quem conta carneiros e amansa
no entanto flanco aberto não esqueço
e amo em ti os outros rostos”

Ana se matou no dia 29 de outubro de 1983. O seu rosto se mostra. Não o esqueço. Não o esquecemos. Ana Cristina Cesar será a segunda mulher homenageada pela FLIP – Feira Literária Internacional de Paraty, que acontecerá entre os dias 29 de junho e 3 de julho deste ano. A poesia não morreu.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

CESAR, Ana Cristina. Crítica e Tradução. São Paulo: Editora Ática, 1999.
CESAR, Ana Cristina. Poética. São Paulo: Companhia das Letras, 2013.
DELUZE, Gilles; GUATTARI, Félix. Mil platôs: capitalismo e esquizofrenia. Vol. 3. São Paulo: Ed. 34, 1996.

Fernando Borma

Fernando Borma

Natural de Ituiutaba, reside em Uberlândia desde criança, é Minas Gerais. Psicólogo e poeta, autor do livro “Amando palavras”.

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