O saber ler

Impressões sobre o capítulo “Ler em direção ao desconhecido. Para além da hermenêutica.”, presente no livro Nietzsche & Educação, de Jorge Larrosa.

De forma objetiva, é o “saber ler” a questão-fundamento do excerto tomado para estudo. Um “saber ler” que, de modo mais ou menos brando, interfere na construção de um indivíduo, de um sujeito. “Saber ler”, eis o Homem. Por si só, um infinito. Um infinito mistério gozoso, e mormente doloroso, é o que Nietzsche, filósofo das mil faces em uma, quer que vivenciemos e vivamos, na acepção mais ostensiva que cabe ao verbo viver, no exato instante em que deitamos sob nossas vistas um bom e velho livro.

O texto revela-se, no mínimo, instigante, ao passo que pergunta ao Homem moderno sobre a possibilidade de se desenvolver uma prática sadia e intensa e constante de leitura no atual contexto histórico de nossa organização social, fundada numa mecânica de ações aceleradas e aceleradoras de um ritmo de apreciação dos mais variados eventos.

No palco central, um Nietzsche demasiado exigente para com os seus leitores e para com a maneira de se desenvolver uma leitura “verdadeira”, extremamente preocupado em saber se os outros – nesse caso, os leitores diversos – se permitem ler na “mesma língua” da obra produzida ou, ainda, se adquiriram a faculdade de “ler nas profundezas”, numa intimidade estudada, como que vivenciar uma relação quase que carnal entre leitor e texto.

Um texto-talvez, repleto de encaminhamentos e direções-verdades; manifesto de como degustar a leitura numa operação silenciosa e pausada, de como viver o texto em sua “possível completude”, sendo total na leitura, rumando-nos ao saber calar-se para que nos encontremos no próprio chão do desencontro – “essência da procura” -, ou ao fatal desencontro prolífico.

Não obstante, um outro Nietzsche adverte-nos acerca da possibilidade de se construir o sentido do texto, o seu entendimento, a partir do que se tem como motivo e propósito. Fato esse que nos dá o direito de fomentar um livro totalmente ou parcialmente novo a partir de um mesmo texto-base/livro. E retirar dessa capacidade criativa o “produto” que nos constituirá, não seria o alicerce para chegarmos à resposta ao questionamento de “quem somos doravante a leitura”? Eis uma pergunta.

Ainda a presente dificuldade em se apropriar do que é novo e/ou radical marca de forma considerável o enredo do texto. Após isso, a importância apontada de se saber sair do texto, de esquecê-lo e, o mais difícil, de se saber assimilar o que o texto tem de força. Ou seja, utilizar-se bem de uma “barriga jovial”, capaz de colocar para fora, de despejar, o que não será utilizável naquele dado momento (lê-se, o da leitura).

Neste jogo interpretativo, autor e matéria-prima (Nietzsche) juntam forças para nos levar à consciência do ver e do ler, posto que o mundo está para ser lido, assim como o Homem está para a significação contínua. Um ler progressivo, com “outros” olhos, com “outros” instrumentos, lendo a mesma coisa, o mesmo e antigo e já lido e relido objeto. Por fim, o que o texto quer é que nos confrontemos exaustivamente, no desígnio de apreender e aprender a “completude”, a totalidade das significâncias e, por conseguinte, a essência das absorções.

Germano Xavier

Germano Xavier

Mestre em Letras, jornalista profissional (DRT BA 3647), escritor e coordenador geral do Jornal de Literatura e Arte O EQUADOR DAS COISAS.

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