O sítio da minha tia

Olha gente, em tempos bicudos, é complicado falar em política. Ainda mais agora por causa do dualismo. Entretanto a nossa classe política desandou de vez na falta de ética e na irresponsabilidade. Trocando em miúdos, os larápios tomaram conta do país. É muito estresse, parece que a coisa não tem jeito mesmo. E, quando me arrisco a falar no assunto, vem uma chuva de pedra pra cima de mim. Resolvi sair um pouco de circulação em não comentar mais sobre o tema. Tenho o direito de nem sequer opinar e me abster de futuros ranços ideológicos. Vou morar num lugar tranquilo por uns tempos. Coloquei meu triplex a venda. É verdade, tenho um triplex no bairro Guarujá aqui em Porto alegre. Nem gostava dele, a minha mulher sim, era apaixonada pelo triplex. Ela ainda está viva e pode confirmar. Em comum acordo fomos morar no sítio da minha Tia. Fui eu, ela e o nosso cachorro, um vira-lata que a gente adotou de um canil da cidade. O nome dele é Vacário. Foi minha muher que botou este nome nele. Mia tia ficou contente em ter hóspedes na casa dela. Ela é naturalista e adora animais, tem um mini zoo. Tem de tudo lá. Tem até laguinho lá no SÍTIO DA TIA BAYA. (Ah, Baya é o nome de uma frutinha) Minha avó gostava da natureza e colocou este nome nela. Eu acho bonito o nome. Lembro-me da minha infância quando corria pelo SÍTIO DA TIA BAYA. Não tinha tanto bicho, mas hoje está cheio. Quando chegamos, soltei o Vacário e ele saiu em disparada pelo gramado, latindo e faceiro da vida; foi no chiqueiro, latiu bastante. Foi até um capão e não parava de uivar. Parecia estar chamando alguém. E estava. Vacário já conhecia muitos daquele zoo. Veio chegando graxaim, bugio, lhama, leitão, raposa, anta, galo velho, pato, e outros bichos que eu nem lembrava que existiam. Fiquei surpreso, pois a bicharada veio dar boas vindas ao meu cachorro. Veja que honra! Perguntei pra minha Tia: – Tia Baya, quanto bicho a senhora tem e de onde veio tanto assim? A senhora tem licença do Ibama?

– Claro, meu sobrinho, tudo preto no branco. Todos eles têm nome e só chamar que eles vêm, principalmente na hora da boia. Mas, nem todos são bonzinhos. Tem que ficar esperto. E não chega perto da lhama que ela te dá uma cusparada. O nome dela é Jean. Tem um bugio que é mal educado também, sobe nas árvores, fica roncando e ainda joga cocô quando está irritado. Eu botei o nome de Fináfio nele, não sei por que, me veio este nome na mente. Ele anda meio triste e nessas “pulanças” dele de galho em galho enganchou o dedo numa forquilha, quebrou e necrosou. O veterinário teve que amputar o dedo. Ah, tem um galo velho que se chama Michel, mas ele anda muito estranho ultimamente até o canto mudou, agora é “cocorocó-lo-ei”. Tem um cisne chamado Gleici Narizinho. Com esta tem que ter cuidado, entra lá cozinha e fica revirando tudo. Só dá despesa e não serve pra muita coisa. Porco, ih! É o que mais tem. Tem uma meia dúzia deles que se rolam na lama todos os dias. Esta semana peguei a máquina de lava-jato e fiz uma limpeza neles, mas o barro não saiu. Estão todos encardidos. No fim do ano, vou escolher dois e assar no rolete. Já estou engordando alguns deles. O porco Écio é certo que vai pro assado de fim de ano. Teu tio se aposentou e ganha uma merreca e aí tive que alugar aquelas peças lá dos fundos. Transformei numa pensão para os alunos da Escola de Agronomia aqui perto. Tô me incomodando, pois os graxains entram pelos fundos da pensão e roubam comida, fruta, o que tiver de alimento eles levam. Este dia encontrei no pé de uma árvore o produto do roubo. Eu acho que era pro bugio Fináfio e a anta que de vez em quando aparece pra comer também. A anta ainda não tem nome. Só sei que ela anda por aí quando o galinheiro faz uma gritaria danada. Tem um porquinho que tá me dando nos nervos, é o Lind pig, é muito chorão. Fuça e chora, fuça e chora o tempo todo. De repente vai pra banha também. O mais engraçado de tudo isto, é que o bugio e a anta se dão bem. Ele tá carente, pois perdeu sua companheira há pouco tempo. Tem um porco grande de pelo preto e focinho mole. Teu tio botou o nome dele de “Juiz boca mole”. Não sei de onde ele tirou este nome. Mas o Tofolino é o pior, só faz confusão no chiqueiro, logo, logo vai virar toucinho.

– E o Tio, Tia? Ainda fala muito em política?

– Não mais, aprende uma coisa sobrinho: Aqui no SÍTIO DA TIA BAYA é proibido falar em política! Ah, deixa eu te mostrar a minha nova obra. Fiz um novo laguinho pra criar umas traíras. Elas estavam lá no outro, não quis arriscar por causa dos patinhos amarelos que eu crio. São tão bonitinhos! Quando eu levo comida pra eles, bato com a colher na panela e eles ficam dançando dentro d’água. Cá pra nós traíra é tudo boca grande, não dá pra confiar. Tem até raposa aqui no sítio, o nome dela é Lobão, tá velho já. Garnisé tem bastante, têm umas vermelhinhas que logo, logo vão pra panela. Saracura, já viu uma? É difícil, tá sempre escondida. Tenho uma de estimação, a Marininha. De vez em quando eu ouço os gritos dela. E vocês lá no Guarujá, um bairro tão bonito. Por que venderam o triplex?

– Olha Tia, é uma longa história, se eu lhe contar a senhora nem vai acreditar. Num outro texto eu conto pra senhora. Deixa-me tirar as malas do carro, que depois a gente conversa.

o sitio da minha tia
O sítio da minha tia.

Sérgio Clos

Sérgio Clos

Escritor de Porto Alegre/RS, articulista, 63 anos, com foco nas peculiaridades da Terceira Idade.

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