O Tempo da Bola

Práticas esportivas para o aprimoramento dos sentidos e da vida[1]

 

I

Reflexões da academia

Em Uberlândia descobri pessoas que vivem para as academias. Espaços que incentivam profícuas reflexões – nos espelhos. Locais onde a vida parece pesar mais. Com anamnese e um objetivo definido, a iluminação forte aclara as ideias, que, por vezes, são sufocadas pelo som alto.  Corpos endurecidos. Firmes. Três séries de quatro.

Crucifixo máquina é o símbolo do novo templo. Treino. A fundo. Levantamento terra,  glúteo máquina, rosca direita, supino inclinado e o maravilhoso banco romano: de onde podemos observar Adônis e os novos Deuses acá-endêmicos.

Os corpos resistentes são marcados por roupas justas e suadas.  Os moletons largos da geração flash–dance foram substituídos pelo dry fit. Não há  mais tempo  para acrobacias ou devaneios, só para contradições abdominais.

Lugar onde o corpo se altera quimicamente, gera serotonina, ressalta a respiração e a carne. Sim, somos músculos e carne, cheios de agressividade. Na academia podemos ser animais e viver o momento presente através do suor.

II

A prática de esportes como desenvolvimento sensorial

Quase todo esporte pode proporcionar um desenvolvimento somático,  melhorar a percepção, a forma de pensar e apreender o mundo. Isso não é novidade no Oriente, e vale lembrar, que no Ocidente os esportes já faziam parte do desenvolvimento intelectual na Grécia Antiga.

Pensar que esportistas se dedicam apenas ao trabalho físico é reduzir o impacto psicológico e o amplo desenvolvimento pessoal promovido pelos mais variados esportes. Na perspectiva da somaestética, a fruição estética da vida se nutre da nossa capacidade sensorial, e assim as atividades corporais são inseparáveis da nossa cognição intelectual.

Posso citar o exemplo de um esporte que comecei a aprender em Uberlândia: o squash[2], (que é uma uma espécie de tênis jogado em uma quadra pequena e fechada). Popular em grandes cidades como Nova Iorque, sua prática está apenas começando a ser mais difundida em Uberlândia.

Do squash, podemos tirar muitas lições que podem ser aplicadas para a vida.

A velocidade da bola que se movimenta muito rápido de um ponto distante à um ponto próximo obriga o jogador à uma incomum acuidade visual, de mudança rápida de foco, dificilmente praticada no dia-a-dia. Tal habilidade ocular, quando bem desenvolvida, pode nos salvar de muitas situações perigosas;

Outro princípio do squash é assegurar movimentos econômicos. O jogo exige muita explosão e resistência: fazer a mais é fazer de menos, não podemos gastar energia à toa. Não adianta chegar antes na bola (aliás, ela precisa de espaço para ser vista) e também não adianta fazer um movimento lindo e prolongado. A ação precisa ser justa e exata. A dimensão da economia de energia é muito aplicável para a vida: quantas vezes não colocamos energia a mais em momentos diversos da nossa vida? Podemos pensar em como desperdiçamos nossa energia em situações e relações irrelevantes, em contraste com a pouca energia que nos sobra para o que realmente é essencial à vida.

Finalmente, e dentre muitas outras lições do squash está a convivência com um parceiro de jogo na quadra:  agressiva, animal … e respeitosa. Perceber o adversário é fundamental para assegurar a diversão, o ritmo da relação e não levar uma raquetada na cara!

III

O Tempo da Bola

O jogador de futebol que tem o “tempo da bola” sempre encontra a bola no ar e dá aquela cabeçada perfeita. No senso comum  entende-se que o jogador com o “tempo da bola” possui um “dom”, uma espécie de talento artístico, que adviria de uma esfera exotérica. Eu não gosto dessa abordagem, porque ela desconsidera as habilidades sensoriais desenvolvidas pelo jogador, que são seu mérito pessoal e não divino.

O tempo da bola é uma incrível habilidade humana de reconhecer o trajeto da bola, uma precisa acuidade visual aliada a uma capacidade de se projetar no momento exato: com tranquilidade, motivação e suavidade. Tem gente que tem o tempo da bola na vida: casa na idade certa, estuda na idade certa, encontra as oportunidades no ar e se lança de cabeça.

Também conheço muita gente que não tem “o tempo da bola”, demora demais para começar ou terminar relacionamentos; está sempre em desacordo com o tempo – dos outros e do mundo. Gente  desajustada em um nível perceptivo: não desenvolveu a capacidade de reconhecer o tempo da vida e agir em congruência com o tempo dos outros e do mundo. Apesar de esforços enormes nunca encontra a bola no ar.  Pior, sem intenção, tais pessoas dão verdadeiras raquetadas em seus parceiros, chutam canelas por agirem em momentos errados. Correm demais, estão sempre cansados e nunca pegam a bola.

Acredito, baseada em meus estudos de somaestética, que para estas pessoas esportes praticados em duplas ou em grupos poderiam ser uma ferramenta de melhoramento pessoal. No esporte em grupo temos que perceber que, além do tempo da bola, existe o tempo das outras pessoas. Percebemos que para ter jogo deve haver o outro, e também atenção plena, ou, a bola cai.

[1] A primeira parte deste texto foi reelaborada a partir de um texto que publiquei, alguns anos atrás aqui mesmo no Página Cultural.

Luciana Arslan

Luciana Arslan

Trabalha na Universidade Federal de Uberlândia - UFU, onde é professora do IARTE. É autora de livros publicados pela Editora Moderna e Thomson Learning. Formada em Artes Visuais, fez mestrado na UNESP, doutorado na USP e realizou estágio de pesquisa pós-doutoral no Center for Body, Mind and Culture na Florida Atlantic University com bolsa da CAPES. Tem concentrado seus estudos na área da Somaestética.

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