O tempo regulamentar

Perto do fim, como quem sabe que o tempo regulamentar da primeira etapa da partida irá acabar, o homem que ama seguirá amando, mesmo sabendo que o árbitro do jogo da vida poderá soprar o apito a qualquer momento e fazer com que todos adentrem o austero silêncio dos mornos intervalos. Próximo ao fim, como quem espera a hora certa de atacar, o homem que ama persistirá no amor, mesmo suspeitando de todas as dificuldades, de todas as barreiras e de todos os lances desleais que o jogo da vida poderá impor aos jogadores.

Muito perto do fim, como quem sabe que o contra-ataque pode ser o segredo para a vitória, o homem que ama partirá em disparada para lugar qualquer onde exista, dentro dos quatro cantos da sagrada arena, a possibilidade do gol de placa, aquele mais belo tento já feito por uma pessoa, inesquecível, imorredouro. Perto, muito perto do tempo limite se esgotar, como quem planeja o gol do título para os derradeiros minutos da segunda etapa do dérbi, o homem que ama abraçará sua fé e teimará a imprimir força em seus pés-coração, suspenderá a dor de estar já sem fôlego e forçará sua última jogada.

Quase finalizado o tempo, como quem conhece a largura das traves, o homem que ama chutará para longe o raciocínio lógico que lhe escreve palavras de triste final que nublam sua alma e recomeçará os planos de defesa. Longe do início do mais importante dos clássicos, como quem infere as artimanhas do adversário, o homem que ama alicerçará táticas indestrutíveis e convocará a voz imperiosa da torcida a inflamar o gramado em holofotes. Quase lá, como a querer um momento de descanso após luta intensa no estádio, o homem que ama respirará a vontade do outro e se espelhará no amanhã que nunca morre.

Vislumbrando a travessia temporal, após o apagão que deixara as arquibancadas no breu do desconhecimento e do distanciamento, o homem que ama erguerá suas pálpebras morgadas pelos dias sem brilho e fustigará a visão dos noturnos instantes abertos nos clarões. A esperar o desfecho, antes de o árbitro decidir pela pequena paralisação, o homem que ama empoderar-se-á, armar-se-á e irá ao encontro do amor de sua vida: o gol que ainda não aconteceu, unido à sensação de glória ao ver a pelota couraça estufar as brancas redes do arqueiro rival.

Sob os auspícios dos letais ponteiros, como a prever as agruras de uma impiedosa derrota, o homem que ama abominará o pensamento que fraqueja e criará uma redoma protetora para o sentimento que carrega dentro do peito, um amor de tanto amor e amor e amor e tanto. E vendo o juiz a içar suas mãos ao centro do gramado, sereno em ser o que se é sem aceitar direito o transcorrer das jogadas mais circunstanciais, o homem que ama não permitirá dar-se tal ente vencido pois, para ele em sempres, aquela partida jamais haveria de terminar um dia.

Germano Xavier

Germano Xavier

Mestre em Letras, jornalista profissional (DRT BA 3647), escritor e coordenador geral do Jornal de Literatura e Arte O EQUADOR DAS COISAS.

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