Ode ao Centauro

Cantá-lo-ei, ó meu amado,
Pois sei de tu, como nunca antes ninguém ousara tentar desvendar.
Sei do teu nome, do teu sobrenome, da tua descendência.

Qual o astro que corta o céu em fulgurante desordem, tal é o meu amado,
Tal a sua sombra inexplicável, contrastando com sua verdadeira aparência
Ora humana, ora animalesca.

Cantá-lo-ei, ó meu amado,
Pois tu sabes, desde que o mundo se fez mundo para mim
As passifloras da minha carne desabrocham em canções para te.
Pois tu sabes, arqueiro, desde que a tempestade espectral dos teus cabelos
Tocaram meu rosto em um instante íntimo
As aves que pousam nas veredas do meu amago
Compõem salmos para ti.

Cedros. Mirra. Incensos.
Noites cabalísticas.
Os gritos espeitorados da minha garganta.
Tu pisoteias-me
Como se eu fosse um bosque por onde correm gazelas e raposas.
E tu me caças,
Tu me procuras em meu próprio corpo, ou procura a ti mesmo?

É neste instante insolúvel que em mim
Desatam-se os nós feitos de magma que é meu sangue.

Ó meu amado,
Qual o sábio que prediz o meu destino, tal és tu
Ambíguo e indefinido.

Sei da tua deidade menor, quase humana,
Da minha deidade maior, quase deus.

Cantá-lo-ei, pois do vento que sussurra indelicadezas em meu ouvido
Tu és a brisa que acaricia o meu dorso e arrepia-me toda a espinha.

Quando em minha cama, debruço-me buscando Hipnos e Morfeu
Quem ao longe exclama meu nome?
É a tua imagem em meus sonhos.

Quando passeio pelos pomares e meu olfato embriaga-se com o cheiro advindo das macieiras,
Qual a serpente que me incita a comer a maçã?
És tu!

Andas armado de espadas, destro de guerra.
Quando a via-crúcis do meu corpo percorre
Lançando dissabores efêmeros em minhas cavernas e covas.
Mata pouco a pouco o abnegado que me corrompe
E depõe o trono de mim mesmo
Para desposar-me e reinar em meus castelos suspensos.

Sabiamente saturno te deu a vida,
O sol deu-te a sabedoria que tens,
E é por isso, ó amado meu,
Centauro que me pisoteia,
Que estou rendido aos teus pés,
E te entoou odes descontinuas,
Para cantar o teu corpo, a tua beleza
E o encontro místico da nossa carne.

Marcos Welinton Freitas

Marcos Welinton Freitas

Baiano do Bravo/Serra Preta. Graduando em Economia pela Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS). Escritor: poeta e contista.

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