Olhares Paralelos

EU sabia que ele precisava. Na verdade, a necessidade que tínhamos não tinha nome, mas era nossa – não somente dele. Da parte dele talvez isso fosse um simples fato, só que da minha não. Foi ele quem me veio primeira vez falar da namorada, daquele problema que tiveram. Por que ele achava que eu poderia ser o seu conselheiro, o seu guru? Acaso eu tenho lá cara de compadre Quelemém? Na verdade ninguém do compadre Quelemém soube a cara, mas dele o que sei apenas é a certeza, que hoje faço, de que “o diabo vige no homem”, nada mais.

E daí ele me veio. Não é que eu não queria que viesse, mas é que há muito tempo eu estava sem precisar daquilo tudo, a viver num rio de marasmo que desgostava, mas depois de tudo aquilo até passei a de alguma forma apreciar. No entanto, logo que chegou fiz a inferência um pouco falsa de que era algo que de algum modo precisava, daí ele ficou. Na vida tem coisas que nos vem. Há coisas que me vieram e eu não sei nem explicar porque as aceitei tão de bom grado como se fosse um grego recebendo um mendigo com a falsidade da espera de Hermes. E foi assim que ele me veio. E foi assim que de algum modo também fui a ele.

Estávamos naquele piquenique de família de final de semana. A mãe dele, dona Etelvina, era parceira da minha de décadas a fio na observação da vida alheia. Não obstante, nunca havíamos nos visto, senão naquele dia em que descemos juntos do ônibus cheio suspirando, e caminhamos meio paralelamente até atravessarmos a mesma rua e entrarmos em portas paralelas. Olhamos um pro outro de relance com um olhar que de certo modo compreendia que alguma coisa em nossa vida um dia seria paralela. Mas o olhar que trocamos foi bem mais que paralelo e tenho a fraca, mas real impressão de que nosso olhar cansado de todo um dia de estudos longe de casa, e do suor, e do calor do Recife, e da umidade excessiva do ar, e de toda aquela loucura duma cidade que cresce como um adolescente sem a orientação de um adulto e fica assim desordenada, era um pouco do olhar do cão sem dono e vira-lata que vaga por aí meio que pedindo com a vista. Naquele dia entrei em casa com duas certezas que não eram certas, mas eram de algum modo certeiras em mim: finalmente eu conhecera o filho da vizinha e o olhar dele me pedia algo.

Naquela “excursão”, como meu pai fazia questão de anunciar, fomos meio que apertados como gado de corte nelore uns em cima dos outros e coube a nós dois sermos imprensados pela tia Adalgiza que com sua gordura de anos a fio firmada no doce ocupava dois lugares inteiros. Desculpa te apertar. Ele me disse. Sem problemas, cara. Eu respondi. Tia Adalgiza… – baixei a voz – tem certo medo de morrer de fome. Rimos. E foi aquilo, tínhamos sido amigos a vida toda e não nos dávamos conta. Por vezes descobrimos num amigo recém-achado, esse mistério místico do universo, de sentir nele alguém que já se conhecia há décadas – décadas que nunca foram.

E fomos falando de mil coisas como se precisássemos. Como se a carência que tínhamos um do outro fosse a ausência de vinte anos sem se ver por causa de alguma viagem à Europa, por exemplo. Mil coisas foram objeto de nossas conversas e víamos no olhar um do outro o brilho daquele primeiro dia, só que sem o crepitar morto do olhar do cão sem dono. A vida talvez seja isso, um crepitar de olhar do cão sem dono para o cão doméstico. A necessidade que a gente tem de se domesticar é latente – no fundo é a necessidade de ter na vida alguma paz.

Daí, após todo o final de semana em que dividimos o mesmo lado do vôlei de praia, do churrasco, dos passeios na praia – ele não corria porque tinha uma espécie de cansaço –, das conversas em roda de fogueira e até do mesmo colchão do mesmo quarto, dada a tamanha quantidade de pessoas alojadas na nossa antiga casa de veraneio, nós nos separamos quando da volta e, após toda a mundiça de nossos parentes se apertarem dentro de casa, e até de dona Etelvina entrar também na sua, meio de lado para não esbarrar nos umbrais as assaduras de sua pele branca flácida, ficamos nós dois ali parados, olhando um para o outro, como que à espera de que o tempo não fosse o tempo, e se o fosse que assim como nós gostasse de burlar as regras a ele impostas e resolvesse não passar. Bem, amigos, né? Ele perguntou como se fôssemos amigos há séculos e tivéssemos brigado. Você pergunta como se fôssemos amigos há séculos e tivéssemos brigado. Rimos daquilo. Era engraçado. Sim, amigos. Entramos um pouco deslocados e sem o movimento maquinal do robô do laboratório de tecnologia do colégio. Mas ao girarmos as maçanetas de nossas portas, trocamos aquele mesmo olhar do início – paralelo. Nosso olhar nos dizia que éramos seres bem mais complexos que os robôs. Não tínhamos o atributo metálico do olhar fixo e vidrado, aquele olhar-clamor dos robôs… Tínhamos, não obstante, um outro olhar, e no peito uma falta de fôlego que dizia algo.

Mas isso tudo tinha se passado muito rapidamente como se nós não precisássemos verter o tempo, solver dele essa substância dos dias idos. Como se nós não precisássemos. Daí ele me veio com aquela história da namorada. Sempre pensei como meu pai de que problema de amor, homem tem mesmo de guardar a sete chaves – morre com a gente. Mas ele me veio, não sabia resolver. Precisava resolver. Não sabia como e eu fiquei assustado com aquela sua ausência tão a mim escancarada de saber como. É que dona Etelvina tinha manias antigas de só querer saber de assanhamentos na sua casa depois que o filho (que era único) casasse. E ele se me veio dizer que teve uma daquelas com a namorada quase que sobre o sofá da velha Etelvina. Disse-me isso na calçada contígua de nossas casas e eu seguia ouvindo-o meio perdido dentro de mim. Haviam se esfregado até a hora em que ele gozara. Você penetrou ela? Perguntei. Não, não, de jeito nenhum! Ele me disse como livre de um peso. Mas o olhar que me lançou perguntava perdidamente: estou livre mesmo? Fique tranquilo. Disse-lhe. E ele se deixou ficar ali ao meu lado vendo a rua, o movimento, as pessoas indo e vindo e as horas passando como se nada mais nos fosse preciso.

Passamos longos dias perdidos nessas horas que passavam. Havia momentos em que ele me via da janela de sua casa, sentado na calçada olhando a poeira e o vento e vinha sentar-se ao meu lado. Sua presença não me tirava os pensamentos mais íntimos, nem os mais sórdidos. Era como se ele fosse um cúmplice meu anunciado para todas as horas e eu pudesse fazer do espaço que havia entre nós dois, um corredor contíguo entre nossas mentes repletas de reticências inimagináveis e não justificadas.

Eu sabia que ele precisava. Na verdade, a necessidade que tínhamos não tinha nome, mas era nossa – não somente dele. E eu também precisava tanto quanto ele. Nas vezes em que via seu corpo andar pela rua se indo em direção a qualquer lugar longe dali. Era como se tivesse medo que com o tempo nos separássemos de vez. Aquilo começou com um suor frio e o palpitar do coração. Depois era aquela espécie de certeza do medo da ausência. Medo do fim da amizade. Medo do fim de qualquer coisa que se agitava em meu peito e que o mundo nomeava amizade. E ele me dizia que o peito dele às vezes batia como uma alfaia louca em dias de maracatu. Gostávamos um do outro como quem ainda ama o pai que um dia morreu. Sentíamos saudades. Sentíamos alguma coisa que faltava e o olhar tênue que trocávamos sempre à entrada de casa, paralelo.

E então veio o dia em que mainha me veio dizer que fazia muito gosto do meu namoro com a Marcela e que um dia, em poucos anos, uns três ou quatro quando muito, ficaria muito feliz em nos ver casados. Como, mãe? Uma casa. Uma casa? Sim, menino! Uma casa! Já tinham pra nós até casa certa. Uma casa nossa posta muitos anos em aluguel nas proximidades da Madalena. Daí, não sei nem bem porque, aproveitei o espaço que tínhamos após a compra dos ingressos daquela ópera no Teatro de Sta. Isabel, que eu quase forçara ele a assistir. Aproveitei o dito momento para falar-lhe. Queria saber o que pensava. Na verdade, queria apenas falar. Dizer as coisas. Daquele mesmo jeito em que existem horas que nos dá a única vontade de dizer, não importa o que, nem por quê. Daí lhe disse que me casaria com a Marcela em breve. Não pude ver seu olhar. Não pude ver se incidiu em mim ou se se perdeu nas vagas invisíveis dos ventos que assomam a Dantas Barreto adentro. Vi que desviou de mim os olhos, mas seu corpo não pôde evitar de me mostrar a lágrima perdida que fez solitariamente o percurso inverso, como se uma força gravitacional estranha a atraísse à minha vista. Eu vi. Ele, ao tornar para mim o rosto notou esse meu descobrimento. E se deixou ficar com aquela perdida cara com que me disse para não casar. Trocamos ali um mesmo olhar. Um mesmo olhar só que mais carregado com o peso da nossa ausência. Não estávamos no teatro, nem na ópera. Estávamos no espelho de nossos olhos.

E foi quando saímos. Não sei bem como se deu, mas sei que ao me dar por mim não estava mais em lugar nenhum que fizesse correta inferência, e só mesmo a velha gorda branca do quadro na parede me fez inferir estar na casa de dona Etelvina. Lá havíamos vertido duas horas após o espetáculo sentados diante um do outro como se alguma coisa de muito estranha nos unisse num ritual de desnecessidade – a desnecessidade de qualquer coisa do mundo. Apenas os olhos se viam e se dosavam em suas cores de mel escuro de abelha. Frente a frente. Daí ele quebrou a silêncio dos corpos e a paragem dos sons e adentrou com sua mão direita lentamente as bordas de baixo de minha calça. Rimos. Ele nunca chegaria onde quisesse. O jeans não era lá tecido leve pra ceder. Daí tiramos. Tiramos ambos as calças que vestíamos e vestimos uns calções leves que ele tinha em sua casa. Nos pusemos assim, abraçados como se encerrados um no outro, como se tão aprisionados e perdida fosse a chave que não ligássemos mais para absolutamente nada. Estávamos como Edmond Dantès, só que sem a necessidade das chaves.

Nos deixamos ficar abraçados e foi assim mesmo que deitamos. Ficamos ali deitados e já nem pensávamos em mais nada. Estávamos tão concentrados em sentir o calor do corpo e das horas, a estadia de um no outro como se a vida não passasse daquele instante de contínua cumplicidade. Não cabia em nossas mentes um ser, um dever-ser, mas tão somente um existir. E existíamos ali um no outro.

Todo aquele mar de profundidade em que nos pusemos teve duração. As coisas na vida parecem precisar de duração só pra um dia dizer que foram. Precisamos nos limitar como que pra dizer um dia que fomos. O fim de tudo aquilo se deu assim muito abrupto como o tal soneto de separação do Vinícius de Moraes. É que também tinha uma certeza que vez ou outra me fugia e desde quando o conheci e nossa amizade se iniciou ignorei: dona Etelvina tinha dois filhos. E, claro, o segundo filho tinha as chaves da casa de sua própria mãe, entrando sem bater e na hora que lhe aprouvesse.

Viu-nos deitados do modo em que estávamos esquecidos de tudo e todos. Nós precisávamos. Nosso precisar era nosso e assim era um. Viu-nos ali deitados e fez-nos um único, um único e duro olhar paralelo.

Depois disso, nunca mais nos vimos.

Mário Filipe Cavalcanti

Graduado em Direito pela Ufpe, advogado, escritor, autor dos livros de contos Comédia de enganos (Penalux, 2013) – Semifinalista no Prêmio Sesc de Literatura 2014 – e O circo (EdUfpe, 2015), colunista das revistas Samizdat e Página Cultural e colaborador do site Homo Literatus, já saiu pelas revistas Flaubert e 7faces. Leitor voraz e pianista retraído, é ainda algumas coisas mais e também absolutamente nada. Conheça o Blog .

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