Onírico 1

A relação acontecia em um banco de pedra, no alto de uma cadeia de montanhas. Exatamente de frente para um abismo.

O lugar era a interseção dos seus mundos: uma janela de rede social, onde se encontravam. Nos períodos em que suspendiam os diálogos, também era por ali que se perscrutavam… e se “deduziam”.

Pouco a pouco a paisagem foi ficando árida, até o verde não existir mais. Porém, ele não se importou. O que apreciava, de fato, era a sensação de ser desejado. Não que admitisse. Nunca! Mas era só isso. Nada mais, nada menos do que isso.

Se admitisse alguma coisa, seria o tesão. Não exatamente por ela, mas pelo coito gramatical que ela tinha, por talento inato, a capacidade de conduzir. Bastava um verbete, no máximo dois e a sugestão se transformava num balé erótico tão intenso, que por vezes incontáveis, transaram ali mesmo, entre as frases do Messanger.

Gostava assim. Das sessões virtuais de sexo explícito, configuradas na poesia ritmada de bocas e de saliva. De buceta e de pica.

Por isso jamais cogitou a hipótese de sair da comodidade do seu teclado. De estirar seu corpo sobre o dela, beijá-la de fato, mordê-la, sugá-la, comê-la. Nem tinha pudores quando afirmava, descaradamente, ser também seu, o desejo do ato. Nunca fora.

Deixou-a plantada uma trinca de vezes, em algum lugar do mundo real ao qual se recusava a ir. Divertiu-se sim, e por que não se divertiria? Afinal, não era exatamente problema seu se ela não conseguia separar um mundo de outro…

Nem tocava no assunto…! E pra que tocar, se ela se incumbia, sozinha, de deslindar as suas faltas em sujeitos, objetos e predicados? Não lia nenhum dos seus faniquitos! E se lia, fingia desconhecer.

O roteiro da história era sempre uma reprise. Bastava um pouco de fleuma para que ela viesse atrás dele, espargindo um riso de frases amarelas, lambendo seus dedos como uma cadela vadia, se empanturrando dos restos de outras simpatias….

Embora sua reação fosse óbvia, ele custou a entender quando ela o chutou na direção do abismo. Ficou tão perplexo com a dor na bunda esquerda, que o baseado escapou dos seus dedos e rodou primeiro, como uma luz tênue na escuridão que se abria.

Mas ele não caiu de uma vez. Conseguiu se segurar numa raiz seca, pouca coisa abaixo do banco. E foi nesse momento, no átimo de uma história que se finda, que ele viu, pela primeira vez… os seus pés!

Nunca imaginou que pudessem ser tão bonitos! Pequenos, delicados, de um tamanho intermédio, entre o trinta e cinco e o trinta e seis. Pés de cutículas bem cuidadas, unhas curtas, criteriosamente pintadas de vermelho…

Ele estava pasmo, lábios entreabertos pelo espanto, quando um dos pezinhos acariciou delicadamente seu rosto… E foi com um langor indescritível, que esfregou sua barba nele.

_ Você já dançou com o diabo à luz da lua?

Ele sorriu, apalermado. Como os morangos de uma parábola budista, o pezinho se imiscuía em sua boca, reverberando numa onda dificílima de segurar… Afora o gosto afrodisíaco daquele pé, percebia, apenas, que a pergunta era cópia literal de outro roteiro. Mas não atinava de qual filme e nem de qual personagem.

_ Não. _ ele respondeu, por fim. Era verdade. Talvez, a única verdade que havia nele. Nunca havia dançado com o diabo à luz da lua. Pelo menos não… Até agora!

R.M. Ferreira

R.M. Ferreira

Mineira, uberlandense e geminiana. Tem formação em História, com mestrado e doutorado na área, mas dedica-se à literatura erótica desde 2011. É a Autora do Blog Calcinha Molhada.

1 Comentário
  1. Pra eu que te conheço (só um pouquinho) rsrsrsrsrsrs … me sinto felicíssima com seu poder de resiliência. O que você escreveu e a maestria com que o fez, é literalmente o dar a volta por cima e de salto alto. Amei!

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