Os desaparecidos

Acordou um dia fora de si. Não sabe como. Não soube por quê. Não é que não quisesse. A gente sempre quer saber o porquê das coisas. Mas acontece que o conhecimento é uma farsa e nós somos os farsantes. Acordou um dia fora de si e se perdeu sem retorno. As coisas sempre acontecem assim – quando a gente acorda. Um dia estamos bem conosco, com todos os outros e com a vida e de repente, após alguns sonhos estranhos a gente acorda virado do avesso. Aquilo era o seu avesso? É como se devesse haver um Kafka para todo Gogol no mundo, e após sonhos intranquilos precisássemos nos dissolver e não houvesse volta. E não houvesse redenção. Olhou para si detidamente no espelho e chorou para dentro. Sentia que as águas dos mares interiores não mais escapavam pelas janelas de seu rosto porque eram muitas as máscaras que precisava usar e toda aquela resina irritava a pele sob as personas. Seus olhos, contudo, estavam brilhando. Aquilo era um sinal apocalíptico. A besta que subiu da terra precisava digladiar com a besta que subiu do mar. Seu coração batia como se houvesse saído do sarcófago mais antigo sob as areias mais distantes de um Egito antigo e morto, mumificado. Olhou para si e era preciso. Sim, era preciso morrer para nascer de novo. A vida após a morte é uma matéria apenas terrena. A expiação do filho rebelde era dar a cara à tapa e morrer pregado numa cruz. O sangue expia. É preciso verter sangue, mas não como um cordeiro imbecil, preciso era verter-se numa luta como alces ou leões perturbados por seu papel social na selva. Abriu uma lata de cerveja e pôs um pouco num pequeno copo. Tomou aos poucos, lentamente, sentindo a espuma e o líquido gelado queimarem a garganta. Vestiu-se, porque ainda tinha alguma consciência da necessidade de, de algum modo, ser obediente. Saiu na sala e viu as crianças brincando. A mulher, da cozinha, reclamava como sempre. Riu perdidamente e foi embora. Instalou-se entre os que ficaram um estado de desesperação como no finale do allegro ma non troppo da nona de Beethoven. Choraram algum tempo por ele, depois tiveram raiva pelo malferimento de seus egos. Tinham muita pena de si mesmos. Depois não sobrou mais nada. Anos mais tarde se descolava lentamente de um poste um papel encardido no qual constavam seu nome, foto e um título tosco e negritado de “Procura-se”. Abaixo do papel, ao lado do poste, uma mulher morena e linda descia da moto de um homem velho. Dela desencadeavam-se raios de luz e alguma sensualidade explícita. Olhou para o homem na moto e, rindo, esperou. Ele, sem fitá-la, meteu a mão no bolso de sua camisa e dele tirou duas notas de cinquenta reais que, indiferente, estendeu a ela, que pegou o dinheiro enquanto olhava perdidamente ao léu. Sobre sua cabeça, no poste, o papel se descolou de vez e perdeu-se no ar.

Mário Filipe Cavalcanti

Graduado em Direito pela Ufpe, advogado, escritor, autor dos livros de contos Comédia de enganos (Penalux, 2013) – Semifinalista no Prêmio Sesc de Literatura 2014 – e O circo (EdUfpe, 2015), colunista das revistas Samizdat e Página Cultural e colaborador do site Homo Literatus, já saiu pelas revistas Flaubert e 7faces. Leitor voraz e pianista retraído, é ainda algumas coisas mais e também absolutamente nada. Conheça o Blog .

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