Os Guerreiros Pó de Arroz

Lá vem o Big Brother Brasil! Quem aguenta?

O pior do programa não é o vazio cultural que ele multiplica, consagra e encerra, já que nesse quesito a concorrência é enorme. O pior é a ter que ouvir o Pedro Bial, em ordinários arroubos poéticos, erguer à categoria de heróis, guerreiros, exemplos de resistência, perseverança e determinação os seus mocinhos mimados, confinados numa mansão com piscina e academia.

Quando vejo aqueles guerreiros de biscuit na TV, me logo vêm à mente os verdadeiros guerreiros que conheço… Estão por toda a parte. Na estrada, sob o sol esturricante, lá estão desde cedo com uma enxada nas mãos grossas, carpindo o mato; uns roçam e outros recolhem o cortado em enormes sacos. O trabalho é duro, assim como o patrão, de quem nunca verão sequer a cara. Um pano molhado amarrado à cabeça, espécie de burca, os protege male-mal da morte por insolação. De tempos em tempos um caminhão de caçamba aberta os recolhe como gado, largando-os quilômetros adiante. Os brothers de papel machê me fazem lembrar também das mães dos jornalistas decepados via satélite para o mundo assistir, dos portadores de deficiências, de doenças congênitas, das crianças-soldado do Oriente Médio, dos idosos brasileiros abandonados pelo Governo, a mendigar o dinheiro para o remédio nos semáforos. Me vêm à mente os mineradores, que morrem jovens por aspirar gases nocivos nas minas subterrâneas; as vítimas da violência urbana, a viúva que chora o marido assassinado, os trabalhadores que pegam a primeira das seis conduções diárias às 4h da matina lá no cafundó, os que vivem em regime de escravidão em porões, os que moram em palafitas e bebem da mesma água que lhes serve de esgoto, os que penam nos corredores dos hospitais públicos, os pais das crianças desaparecidas, os que moram na rua…

Diante desses legítimos heróis, como aguentar mais uma vez a ladainha do Bial em seu ode àqueles homens ocos?

Aí de nós!

Cesar Cruz

Cesar Cruz

É paulista da Capital. Nascido em 1970, escreve contos, crônicas e artigos, além de fazer consultoria e revisão textual sob encomenda. Tem 4 livros publicados: O Homem Suprimido, Scortecci – 2010; A Idade do Vexame & Outras Histórias – 2011, A Invasão dos Horácios – 2013 e Território Conquistado – 2015, todos os três últimos pela Pontes Editores. Blog: Os Causos do Cruz.

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