Os nomes de ninguém

– Senhores vereadores, prosseguindo com a pauta da nossa sessão ordinária, vamos ao próximo item: discussão sobre os critérios da municipalidade para dar nome aos novos logradouros públicos. Com a palavra, o vereador Feitosa.

– O assunto é polêmico, senhores, e exige reflexão profunda…

– Precisamos rever os processos e encaminhamentos dessa questão pela Câmara. Tem vereador que passa o mandato inteiro só cuidando disso. E, mesmo fazendo tudo pelos mortos e nada pelos vivos, acaba garantindo sucessivas reeleições. Todos sabemos como a coisa funciona, inclusive temos três vereadores peritos na prática aqui mesmo, nessa sessão: acordar bem cedo, saber quem morreu, ir ao velório, chorar o finado e prometer à família um nome de rua para legar sua memória à posteridade. É claro que a parentalha toda vai votar nele no próximo pleito. E alguns desses nobres colegas são tão profissionais que só escolhem defunto de família grande, que rende mais votos. Os que têm poucos parentes eles deixam para a vereança iniciante.

– Um aparte! Nosso partido defende a bandeira da renovação, o que inclui os nomes de rua! A cidade foi fundada em 1686, e ninguém mais sabe quem são as pessoas que dão nome às nossas principais artérias. Só para citar alguns exemplos: Rua Dona Quitéria Bontempo, Avenida Sebastião Albino dos Sanches Pedreira, Praça Cônego Aristenes… É hora de substituir esses hoje desconhecidos por mortos mais frescos, que tenham relevância na sociedade atual. Ou pelo menos nos últimos 100 anos.

– Mas os descendentes dos ilustres mais antigos podem entrar na justiça, alegando direitos adquiridos. Afinal, alguma coisa de importante fizeram para merecerem nome de rua lá no tempo do onça. Imagine Vossa Excelência a pendenga jurídica.

– Podemos substituir os nomes de ruas por números, para acabar com a discussão. Rua 1,2,3,4 e assim por diante. A vantagem é que a pessoa que está procurando um endereço já se orienta, pois sabe em qual zona da cidade fica determinada numeração. É um serviço que prestamos ao munícipe.

– Protesto! O que a gente ganha com isso?

– Concordo com o Vereador Josevaldo. É prático mas impessoal demais, é frio e não rende voto. Rua tem que ter nome de gente. E, mesmo com toda essa crise imobiliária, o que não falta é loteamento novo com um monte de “praca” esperando batismo.

– De fato, corre o risco de faltar finado para tanto logradouro. Mas devo alertar que os nobres legisladores se esquecem das ruas que têm datas como nomes. Quinze de novembro, sete de setembro, treze de maio. Poderíamos escolher algumas datas significativas para o município. O dia do início de um mandato, da inauguração de uma ponte, do aniversário do nosso digníssimo prefeito…

– Não, não, a imprensa vai cair em cima, pode mobilizar a opinião pública, vão alegar demagogia e autopromoção…

– E assim, o que acham: Rua desemprego zero, Rua segurança garantida, Rua educação para todos, Rua saúde e saneamento básico, Rua respeito ao dinheiro público. Imaginem Vossas Excelências! Em cada inauguração de rua, um tema para comício. E uma forma disfarçada de propaganda política para todos nós desta casa. Imaginem só, a rádio transmitindo o discurso: “Declaro inaugurada a Moralidade na Municipalidade”, eita como soa bem isso!

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Marcelo Sguassabia

Marcelo Sguassabia

Redator publicitário, pianista diletante, beatlemaníaco desde sempre e amante de filmes e livros que tratem de viagens no tempo. Blog Consoantes Reticentes.

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