Ouro de tolos?

“Não acumuleis para vós outros tesouros sobre a terra, onde a traça e a ferrugem corroem e onde ladrões escavam e roubam; mas ajuntai para vós outros tesouros no céu, onde traça nem ferrugem corrói, e onde ladrões não escavam, nem roubam; porque, onde está o teu tesouro, aí estará também o teu coração.”

Mateus 6,19-21

Existe uma prática de se dar prioridade às chamadas VIPs (very important persons). Isto acontece com os serviços bancários, de transporte, de hotelaria e até hospitais, dentre outros. Essas pessoas, muitas vezes chamadas por outros nomes (como “clientes golden”, “Personnalité”, etc…), podem não ter nada mais do que contas bancárias volumosas e recheadas. É preciso lembrar, no entanto, que a riqueza monetária não é a única existente.

Existem outros tipos de riqueza, como a riqueza de experiências, por exemplo. Uma pessoa, mesmo não tendo uma polpuda conta bancária, pode ser rica em experiências, pode ter viajado por muitos lugares, conhecido culturas bem diferentes, pode ter vivido situações que conferiram a ela conhecimentos práticos que poucas pessoas viveram.

Outra é a riqueza estética (refiro-me à beleza corporal, especificamente), aquela que os possuidores apresentam características que os incluem nos grupos dos considerados mais belos. Lembremo-nos de que esses “padrões” são variáveis.

Há também a riqueza intelectual (ou erudição). Trata-se de toda a bagagem intelectual adquirida através dos estudos, leituras, conhecimento de mundo e também pela própria experiência, depois de transformada em reflexão.

Podemos também falar da riqueza de caráter, ou moral, cuja maior característica é a obediência a princípios de retidão no pensamento e na ação, que afastam os seus “portadores” de atos contrários a esses princípios, como a corrupção, por exemplo.

E há, ainda, a riqueza espiritual, ou anímica, cujas maiores características são a benevolência, a compaixão e o desapego em relação aos bens materiais e aos assuntos de ordem temporal.

Essas riquezas não se excluem, necessariamente. Alguém pode ser rico, materialmente falando, e, mesmo assim, ter princípios morais e anímicos. Tudo vai depender da prioridade que se dá a cada uma dessas riquezas.

Agora, voltando ao enunciado do primeiro parágrafo deste texto. Seria muito estranho se os bancos, as empresas de transporte, hospitais, e outros, passassem a priorizar esses diferentes tipos de riqueza, criando lugares especiais para os mais inteligentes, para os mais belos ou para os mais corretos.

Por respeito, e por lei, há prioridade para as pessoas de maior idade, mas não, necessariamente, pela sua experiência de vida, mas sim por reconhecimento a alguém que já viveu, contribuiu muito e já não pode contar com a plenitude de suas forças físicas.

Bom, se parece estranho que se priorizem esses “outros” tipos de riqueza, por que então aceitamos tão facilmente que se priorize tanto assim a riqueza material (monetária)? Somos, ou não, todos iguais?

Imagem:

“Mansa Musa I (1280 – 1337)” – (http://rebloggy.com/) – Com uma fortuna que, com dados atualizados, chegou a U$ 400 bilhões, é considerado o homem mais rico, monetariamente falando, que já viveu no planeta Terra. Seu reino englobava o território atualmente formado por Gana e Mali e regiões ao redor. (www.sitedecuriosidades.com/).

Paulo Irineu Barreto

Paulo Irineu Barreto

É escritor e Professor do IFTM. Doutor em Geografia Humana e Cultural e Mestre em Filosofia Política e Social. Pesquisa e escreve sobre Cultura, Educação, Filosofia, Geofilosofia, Geografia e Política.

2 Comentários
  1. Querido, Artigos assim nos fazem reafirmar a importância da filosofia como prática e como pensar social. Admiração e respeito.

Seu comentário é importante!

Your email address will not be published.

Você pode usaratributos e tags HTML: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <s> <strike> <strong>