Panóptico (ou o olho que tudo vê)

Texto 03: O panóptico ou A casa de inspeção – IN: SILVA, Tomaz Tadeu da (org). O Panóptico. Jeremy Bentham – Belo Horizonte: Autêntica, 2000, pag. 15- 26.

De cara o título do texto já me conquistou.

Fiz uma espécie de separação, talvez resquícios de uma cadeira ou outra do curso de Letras que faço. A junção do termo “Pan”, do grego “Pantós”, e o seu significado de abrangência, de totalidade… com o termo “Óptico”, do grego “Óptikos”, respeitante à visão, ao enxergar as relações humanas e o mundo, ocasionou curiosidade em mim. Eu estaria diante do “Olho que tudo vê”, do grande escritor e filólogo J.R.R. Tolkien? Por admirar a saga fantástica escrita por este mestre da fantasia, escolhi o texto de Jeremy Bentham. Era dúvida também se esse texto faria uma conversa paralela com os programas estilo “Reality Show” televisionados por “mundos” não tão distantes. Era dúvida, sim, mas eu precisava ler o texto.

E li.

O mundo passou por mudanças. O mundo muda, sim, sempre. Ele é mutável. O homem é mutável, ele muda. As relações sociais mudaram, em todas as esferas possíveis. O contato Homem X Poder mudou, muda, é mutável. Não foi diferente durante a Idade Média, trevas que não sei onde. Não foi diferente nos anos e séculos após o “fim” da Idade Medieval.

Um dia tudo fica velho, perde seu valor ou perde seu mérito existencial. Aí surgem novas coisas, novas idéias, novos homens. E a mudança de paradigma é sempre uma batalha “dente por dente, olho por olho”. O estratagema escolhido para se alavancar muros novos é um signo difícil de ser elaborado.

O estratagema.

Jeremy Bentham quebra os vidros opacos da frente de nossos olhos e revela o novelo de lã que é o alicerce de uma instituição social-humana. O presídio é a fonte de análise, o projeto de sustentação de seus valores enquanto presídio e enquanto aparelho funcional. O seu destinar, o seu “para quem, como?”… Da planta ao telhado, a noção de objetivar uma feitura.

Qual a significação? O valor? A forma que isso toma, qual? Um presídio é só um presídio? Quando ele muda de nome? Quando vira Casa de Inspeção? Transforma-se? Como? Para onde vai? Quem é o habitante? É o homem o habitante? É? Não? Sim? De que tipo? Tem tipo? E esse homem, vai? Quem viu? Para onde? É cimento de construção esse homem? Ou é brinquedo de quebrar? Serve? Ou gasta? Como mudar o nome desse homem? Tem como? Há jeito? Há? Como?

No Panóptico, a função básica parece ser o comunicar para descomunicar, olhos para não ver. Há uma preocupação em produzir afastamento, desligamento, incerteza, desnatureza e desinformação. A tal “inspeção” é feita para privar, reter, castrar.

Capa-se a alma do homem. Capa-se o olho. O homem fica cego…

Será mesmo novo esse método? O ordenamento das funções dentro da arquitetura do presídio deve obedecer a um conjunto de ligações, de comunicações. Os tempos modernos pediram uma revisão na forma de o homem se comunicar com o próprio homem, e também com o que a ele parece superior.

Ficou necessário vigiar.

Vigiar: subtende-se controlar. Controlar, palavra de ordem. Controlar o homem, ele próprio.

Controlar…

O Panóptico é a cadeia da alma. Prisão organizada para matar o fantasma da existência. O ver é a arma que trucida, o vigiar é o sabre que esfacela, o espiar é a mata que esconde, o ser-visto é a faca na jugular, morte sem vida, caimento dos ombros, a dor que suga pouco a pouco…

Alguma semelhança com a noção do Big Brother?

O que diria Orwell?

Daria ele um tiro para o céu e comemoraria a existência já antiga de um de seus mundos?! Ou revelaria influências diante das missivas observadas no texto de Bentham? E por que tanta aleivosia? Não é o Panóptico a câmera que te vigia quando atravessas a calçada de teu prédio? Não é o Panóptico a câmera que registra a placa do seu carro na saída do estacionamento? Não é o Panóptico a imagem tua no televisor do supermercado?

O que é mesmo Panóptico?

Existiu ou existe? Velho ou novo? Usa muletas o Panóptico? Quem vai preso? Eu? Você? Todos nós estamos presos? Quais os crimes? Viver? Viver é um crime? Ser homem é um crime? Somos vítimas? Sim? Não? O que somos?

Tijolos de construção? Ou cimento de quinta categoria?

Germano Xavier

Germano Xavier

Mestre em Letras, jornalista profissional (DRT BA 3647), escritor e coordenador geral do Jornal de Literatura e Arte O EQUADOR DAS COISAS.

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