Panos de Prato

No princípio era um pano lindo pintado a mão com acabamento em fita. Artesãs se dedicam a pintá-lo durante um dia ou dois. Muitos são verdadeiras obras de arte. Quando é dado de presente vai direto para a tampa de vidro do fogão ou adornar o micro-ondas.  Às vezes fica guardado para uma ocasião especial. O pano de prato antigo já está meio surradinho e é rebaixado a pano de pia. Aquele bonitão que chegara há pouco, vai cumprir o seu destino: secar as louças e vasilhames. Já não é mais um presente, tem uma função nobre: PANO DE PRATO. O outro, coitadinho, de tanto esfregar a pia e limpar o fogão, gasta e rasga um pouquinho. Está condenado. Vai para o chão que estas gentes pisam. Mas, a sua odisseia ainda não terminou. O dono da casa, que é mecânico, precisou de algo para limpar a graxa de suas mãos. Será o triste, melancólico e inexorável destino da obra de arte que outrora enfeitava a cozinha das gentes. Rasgado e sujo de graxa, ele termina sua epopeia em um saco de lixo. Decompor-se-á no lixão da cidade. Eu, sinceramente, não queria fazer comparações, mas tem um bichinho dentro da minha cabeça que diz: Faça! Outro fala o seguinte: deixa pra lá, é início de semana, vai colocar o leitor em deprê! Não teve jeito, fui pras cabeças e comparei. Então vejamos: Criaturas dos cabelos prateados, já tiveram algum evento parecido com o pano de prato? Sim, vos não lembrais mais. Vós fostes pais jovens, idolatrados e admirados pelos rebentos recém-chegados. Vós fostes uma obra de arte em carne e osso(para eles). O tempo passou, vós passastes a limpar os vasilhames que eles sujavam pelas andanças da vida. Depois, passastes a limpar o fogão onde lhes preparava o alimento. E não contente, ou sem se dar conta, para que a sujeira do chão da existência não lhes causasse nenhum desconforto, passastes a limpar o trilho das dificuldades por onde eles deveriam caminhar. DISSESTES SEMPRE “SIM”, O SIM NÃO ENSINA, O “NÃO” É PEDAGÓGICO. Vós pensastes que fizéreis de tudo para os seus. (Inclusive o que não deveríeis.). Agora, aquela idade chegou, a passos largos. Já não sois mais um pano de chão. Tornastes-vos algo sem muita valia, pois a graxa que sujara as mãos dos rebentos e outros, será dada para vós limpar, que sempre dissestes SIM. Vosso destino, depois desta falsa filosofia da utilidade, será decompor-se no descarte da invisibilidade.

Não nascemos para sermos úteis, nascemos para a ação e para a felicidade. Nascemos para viver a nossa vida e não a dos rebentos ou de quem quer que seja. Pense nisto. Se vós vencestes na vida, os seus também vencerão.

QUE VÓS CONTINUEIS COM O MESMO GLAMOUR DE UMA OBRA DE ARTE DADO DE PRESENTE. VIGIE-VOS.

 

Sérgio Clos

Sérgio Clos

Escritor de Porto Alegre/RS, articulista, 63 anos, com foco nas peculiaridades da Terceira Idade.

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