Para não ser passageiro: pedalar e fruir o caminho

De volta ao pedal diário e ao trabalho. Na cidade de Uberlândia a rotina de quem vai trabalhar em uma bicicleta se assemelha à de outros ciclistas que adotam esse meio de transporte no Brasil. Aqui, ser ciclista ainda requer um esforço pessoal ao enfrentar críticas de todas as naturezas. É preciso autorizar-se a ter a liberdade de usar a bicicleta como seu meio prioritário de transporte, de não ter medo de ser diferente, de ser chamado de ridículo.

Como as bicicletas são associadas à liberdade, à alegria da infância e à autonomia, elas figuram como objetos de decoração, estão nos editoriais e vitrines da moda, mas não são bem vindas em locais de trabalho que não valorizam tais princípios. Então, ocorre que após enfrentar o céu azul, o sol brilhante e o vento no rosto, o ciclista quando chega ao trabalho é por vezes encarado como uma pessoa infantil e ingênua, com eterno “espírito de domingo” (Kreimer, 2012, p.41).  As críticas prosseguem: de que é perigoso andar de bicicleta, inadequado por conta do suor, transporte lento, para solitários, introvertidos e individualistas. E mesmo que o tempo gasto seja menor do que o tempo de pegar um ônibus ou de esperar um taxi (em Uberlândia onde não tem uber), o ciclista ainda é visto como um ser meio relaxado, profissional frouxo, que vai “passeando” ao trabalho. Raramente o elogiam por sua  contribuição ecológica na diminuição da poluição, e menos ainda pela  manutenção da saúde que resulta na economia do sistema público de saúde; o ciclista é visto mais como um idealista frágil e alienado do que como um cidadão consciente e forte.

Tais críticas procedem em algumas argumentações: os ciclistas realmente portam certa cara de domingo quando chegam ao trabalho, muito mais felizes do que outros trabalhadores que passaram trinta minutos em um ônibus lotado, encostados ou sendo roçadas (no caso das moças)  por pessoas estranhas e emburradas. O ciclista não enfrentou um tempão “indo” ao trabalho, xingando o trânsito, tentando ignorar um espaço claustrofóbico e sem ar, teclando ou jogando no celular para escapar daquele momento desagradável, imersos em uma realidade virtual mais interessante.

Não dá para andar de bicicleta e teclar ou falar no celular, não dá para ser passageiro, não se pode ignorar o momento. Se a atenção abaixa, um acidente ocorre, se você não pedala, a bicicleta tomba. O equilíbrio é mantido através da atividade do ciclista, e isso promove uma sensação de autonomia e energia, (sente-se a mesma alegria vivenciada quando da primeira vez que se aprendeu a andar equilibrado na bicicleta). O ciclista vai para o trabalho concentrado no caminho, presente e com atenção plena; focado na pedalada, na paisagem, nos sons, no trânsito e nos outros seres. É um citadino que observa e vive a cidade, porque para ele os espaços públicos não são só passagem e ele não é passageiro. O caminho do ciclista se constrói e se integra com ele. A energia de seu ventre é o seu combustível (gratuito) que interage com uma órbita ampliada da cidade, do planeta, do cosmos.

(neste ponto o leitor pensa: ah, agora foi longe demais!) .

Uma visão cosmogônica do ciclista é apresentada pelo escritor e jornalista argentino Juan Carlos Kreimer no livro “Bicizen: ciclismo urbano como caminho”. Juan vive em Buenos Aires, uma metrópole que oferece muitas oportunidades para ciclistas só comparadas às ciclovias de Santos (S.P) no Brasil. Os portenhos descobriram os benefícios de adotar a bicicleta como meio de transporte diário, lá há movimentos como massacrítica – um dia em que os ciclistas tomam as ruas da cidade, pedindo ainda mais ciclovias, ciclofaixas, e respeito-  rotas turísticas para serem feitas de bicicleta e todo tipo de cestas, bagageiros, paniers.

O autor Kreimer vai além e defende a ideia de que a bicicleta oferece os mesmos benefícios da meditação, porque convida ao mesmo estado de plenitude (o estado em que ficamos tão envolvidos com algo que não pensamos em outra coisa). Para Kreimer(2013), o cicloativismo está aumentando porque as pessoas identificam rapidamente os prazeres sensoriais e o desenvolvimento cognitivo gerado pela bicicleta, e assim, mais ciclistas geram mais ciclistas. É contagiante. A ida ao trabalho não precisa ser cansativa e pesada.

Para ler: KREIMER, Juan Carlos. Bici zen. Buenos Aires: Planeta, 2013.
Fotografia: Luciana Arslan

Luciana Arslan

Luciana Arslan

Trabalha na Universidade Federal de Uberlândia - UFU, onde é professora do IARTE. É autora de livros publicados pela Editora Moderna e Thomson Learning. Formada em Artes Visuais, fez mestrado na UNESP, doutorado na USP e realizou estágio de pesquisa pós-doutoral no Center for Body, Mind and Culture na Florida Atlantic University com bolsa da CAPES. Tem concentrado seus estudos na área da Somaestética.

4 Comentários
  1. Bem sou muito suspeito para discorrer sobre seu texto, pois a identificação foi total, diariamente uso esse meio de locomoção e me sinto imensamente grato por receber doses endorfínicas gratuitas. Obrigado por compartilhar

  2. Andressa,
    Muito obrigada por sua leitura. De fato a cidade de Uberlândia precisa criar mais ciclovias e incentivo aos ciclistas. Espero que você contribua para tal movimento de mudança, que começa com ideias e fantasias. Sou mais “bicicleteira” do que ciclista (falo sobre isso em outro texto publicado em agosto aqui), mas não sou ciclista de domingo: a bicicleta é meu meio de transporte diário – e para o Kreimer, o “espirito de domingo” foi uma imagem para se referir ao bom humor com que o ciclista chega ao trabalho. A minha percepção do céu azul e sol brilhante de Udi provavelmente advém do contraste com São Paulo onde vivi 35 anos sob um insuportável tempo cinza opaco, nublado e poluição sufocante. Assim como sua percepção de ser bem aceita no trabalho como ciclista provavelmente se refere a alguma boa experiência pessoal…que me agrada saber.

  3. “ocorre que após enfrentar o céu azul, o sol brilhante e o vento no rosto, o ciclista quando chega ao trabalho é por vezes encarado como uma pessoa infantil e ingênua, com eterno “espírito de domingo” (Kreimer, 2012, p.41)

    Essa parece mesmo uma escrita de ciclista de domingo. No dia-a-dia, eu trocaria “o céu azul” por céu seco e poluído, “o sol brilhante” por sol ardente e “o vento no rosto” por rajadas de contra vento.

    Ainda acrescentaria que em Uberlândia as ciclovias não atendem como estimuladoras do meio de transporte, atendem apenas ciclistas de passeio. Quase não existem lugares para se trancar a bike na cidade. Muito menos existem estabelecimentos (nem mesmo de iniciativa privada) que oferecem uma ducha. O “belo” projeto da Algar e da Granja Marileusa custa uma nota, a bicicleta que era pra ser acessível, não é!

    Não é mesmo fácil ser ciclista pelas condições que a cidade oferece! Mas tirando os problemas, que são muitos, e falta de bom senso de alguns no trânsito, nos últimos 5 anos o “bicicleteiro” passou a ser chamado de “ciclista” e começa a ser bem aceito no trabalho sim. Espero que cultura esteja mesmo mudando e se firme.

  4. Muito bem escrito o texto.
    Conduz a muitas reflexões importantes sobre o tema e deveria ser lido pelo povo da nossa cidade.

    Obrigado, Luciana!

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