Para ser criança, um espanto

porque piscam luzes dentro de mim,
e eu sou apenas uma criança, arrebatada,
diante do mago brinquedo
(Rotina de Viagens, de Germano Xavier)

Escrevi o haicai supracitado lá pelos idos de 2009. O motivo de escrevê-lo, já não sei se recordo mais. Talvez nem motivado por algum acontecimento real ele tenha sido. Todavia, acerca de sua temática, rapidamente consigo detectar sua simples lógica existencial. Trata-se um haicai sobre o espanto. Um homem que, em determinado momento, enxerga-se tal qual uma criança que está diante de um mágico brinquedo, arrebatado a ponto de ficar com a alma iluminada. Sim, um pequenino poema sobre o espanto, sobre os espantos.

Eis aí, talvez, o segredo para a felicidade mais profunda: cultivar, com amor, sabedoria e longevidade, a capacidade que possuímos de nos espantar diante das mínimas coisas. Espanto é um substantivo masculino que pode significar qualquer surpresa causada por algo de singular, de inesperado. Tudo aquilo que nos causa algum susto, assombro ou pasmo. O espanto pode ser também o elixir da longa vida, dos longos sorrisos, das duradouras interações para com o mundo e para com as pessoas que nos cercam cotidianamente.

O espanto nasce na gente quando ainda somos crianças. Brota dentro e utiliza-se de nossos órgãos sensoriais para se materializar. O Belo – e dentro cabe o Feio também -, quando aos olhos do espanto, tem intensidade de perplexidade. As mãos se fecham, os olhos se abrem, as pernas tremem, enfim… o corpo inteiro aprende rápido a demonstrar espanto. O que possuímos de mais interno, por sua vez, também segue as sensações sentidas e observadas por nosso lado exterior. O espanto é movido e motivado pela Beleza.

As crianças enxergam o Belo com mais facilidade, pois estão olhando as coisas pela primeira vez. As crianças inauguram as coisas e o mundo cada vez que se espantam. Espanto é encanto. Espantar-se é encantar-se. Os adultos, muitas vezes, perdem tal habilidade. Muitos adultos não se deixam encantar. Encantar-se é uma forma de encontrar a Deus. Rubem Alves reforçava isso: “Deus é alegria. Uma criança é alegria. Deus e uma criança têm isso em comum: ambos sabem que o universo é uma caixa de brinquedos. Deus vê o mundo com os olhos de uma criança. Está sempre à procura de companheiros para brincar”.

Em tempos de se comemorar a criança que há em nós, semear espantos em nossos corpos e almas torna-se atitude urgente para que não deixemos morrer nossas infâncias de maravilhas. Ser criança é querer e fazer o que se quer sem temer a nada nem ninguém. Quando nos tornamos adultos, ser criança não é apenas se esforçar mentalmente para se voltar ao passado e agir como um dia agimos, mas olhar o futuro com olhos desenvoltos, armados de uma liberdade conquistada com o aparecimento dos fios brancos na cabeleira, tentar viver o que é real e elaborar realidades para o que ainda é sonho. E sonho, todo mundo sabe, sonho é espanto dentro da gente.

Germano Xavier

Germano Xavier

Mestre em Letras, jornalista profissional (DRT BA 3647), escritor e coordenador geral do Jornal de Literatura e Arte O EQUADOR DAS COISAS.

Sem comentários; deixe o seu:

Seu comentário é importante!

Your email address will not be published.

Você pode usaratributos e tags HTML: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <s> <strike> <strong>