Paredes brancas que riem

Se esta rua, se esta rua fosse minha
Eu mandava, eu mandava, ladrilhar.
Com pedrinhas, com pedrinhas de brilhante,
Para o meu, para o meu amor passar.

As crianças rodopiavam e iam e iam e iam. Nos seus pézinhos de peões cambaleavam apontando que Ana amava Pedro, mas Pedro queria Isabela. O que ninguém sabia era se Isabela queria alguém. Mas crianças. Rodopiavam. Estavam despreocupadas em sentir razão para algum prazer, e seus dedos ainda eram ingênuos ao contar estrelas e acreditar que dormindo em seus travesseiros e cobertas se podia sonhar. Eu brincava com sorriso ausente. Era mais confortável observar aqueles rodopios do que se nausear girando, e girando, e girando, e girando num senfim. Sorrateiramente os pensamentos vinham, só que ainda não havia uma perspicácia ligeira para compreender a estaticidade da realidade e o movimento contínuo do sujeito. Criança. Atravessava o corpo infantil um espectro de estar imiscuído em uma realidade diversa da que desejaria estar. Foi indo sempre assim. Pique – esconde, mas que o sumiço haveria de ser eterno. Dos deleites da forma simples e pura de se criançar com uma imaginação aberta para o impossível, eu já queria alçar um território ainda proibido para uma façanha que mente dialogava, e corpo não se relacionava. Os outros tinham galhofas com suas cantigas ritimadas em brincadeira, e se o mundo acordasse belo num dia, as coisas findas expressando-se como eternas, a imagem formada era dessa ilusão de prazer. Eu olhava os meninotes algarrazoando e não estava  afim de misturar-se naquilo. Os olhares miravam-se fixos como se ali eu fosse uma moléstia, um degenerado, o tímido excluído pela indiferença. Se essa rua, se essa rua fosse minha, aí teria tantos loucos como eu e os desejos tornariam-se sublimes realizações só pela forma de pensar; ali, teríamos a liberdade como expressão de crescer e sujeito e mundo não seriam adultos ou crianças, mas descobridores. As cantigas teriam um som doce de uma melodia de uma mãe que acaricia seu filho para o sono, e enquanto eu abraçava esse calor materno do dia-a-dia, o mundo teria espaço para que o sujeito fosse a possibilidade. “Criança não pensa, tem que brincar.” Mas o que fazer quando brincar fosse dicionarizado com diferente conotação mais próxima de permitir-se? O sinal tocou, as crianças correram do pátio, os gritos das multidões suadas e enérgicas para terem que se apaziguarem em cada sala, fechada, distante do mundo, com uma apostila de regras.

Nesta rua, nesta rua, tem um bosque
Que se chama, que se chama, Solidão.

O pequeno abajour deixa vestígios de luz com sua lâmpada que expressava cansaço. Havia uma luz vermelha no corredor, alguns barulhos da emergência nos atendimentos. Sala 403. Prontuário: Luís Alberto Augusto Moraes. Esquizofrenia. É considerada pela psicopatologia como um tipo de sofrimento psíquico grave, caracterizado principalmente pela alteração no contato com a realidade (psicose). É o que o CID – 10 cataloga. Costumeiramente é o diagnóstico que me dão com minhas crises convulsivas, de alucinações e delírios. Quem são eles? O ódio consome e nutre um rancor de desprezo pelas pessoas que me acolhem como doentes. É que a psicose é um refluxo mental. Fica engasgada na mente os assospros de ideias, e aqui no lado de fora são reprimidas e voltam corroendo toda a vontade desse corpo. Mas passa, vai passar. Venho alguns dias da semana tomar os anti dopamínicos para estar preso a uma permanência que chamo de irreal. Sim, sim, eu entendo que ache um pouco radical. Mas é moléstia oriunda dessa outra. A pouca luz aguarda como um frio vazio que mergulho. As paredes brancas parecem não ter fim e me permitem que eu veja um espectro diferente do transtorno. Tenho uma janela no meio dos tijolos e posso escrever a realidade que eu mais me sentir a vontade. Por vezes imagino estar com um vício hospitalar nessa comodidade de alcançar meu nirvana olhando fixamente para aquela parede crua. São como algumas memórias. Tão brancas. Quanto à existência, são vivas, muito! E deixam vestígios que às vezes guardam relação com o escárnio que se sofre. Mente e corpo sofrem.

“Dá má semente da ambição todos os outros pecados mortais tinham saltado: orgulho de si próprio e desprezo pelos outros. “

Quando lhe perguntavam sobre o futuro, tinha um medo conturbadamente cotidiano que transformava-me no sujeito da frase joyceana. O amanhã quase próximo, nunca aqui. Ao se colocar numa balança de equilíbrio, ponderava que o futuro desonhecido era o que mais buscava. Havia um quê de místico em querer desvendar o lado ocultista da vida como oráculo dos corações. Uma peculiaridade que por muito tempo lhe fez dar breves sorrisos sozinho em saltos da realidade para universos até então inexistentes para a Ciência. Naquelas reuniões de família, quase como Inquisitores, queriam extirpar uma declaração de um cotidiano monótono na busca por realizações vazias: família, emprego e dinheiro. Então rabiscava vertiginosamente seus quadros feito a papel pólen e nanquin no mais clássico estillo de um traçado único que representava a solidificação de suas incertezas. Os quadros foram queimados. Assim como é a chama que consumiu um pedaço de si. A madeira era feita de carne e o nanquim de sangue. Quando as lágrimas caem dos olhos, os sentidos estritamente marejados, as pálpebras nada mais que são janelas de nossos corações. Se olharmos atentamente veremos que o choro saio de dentro do peito e a vontade não é nada mais que coragem. Nem o fogo físico ou essa morte espiritual pôde ser abafada pelas lágrimas, que desembocaram em minhas definhaduras de desespero. Quebrei todos os espelhos de minha casa, ver-me não era mais do que enxergar o reflexo de um incapaz. Assim eu abandonei aquele futuro. Aquele. Relativo é o tempo e nossa presença sobre sua percepção. Então mergulhando no universo próprio aquietei-me de uma forma em que meu mundo seria o sublime encontro dos tempos da felicidade. Aqui estou.

A ternura da escuridão é que se imagina a luz que melhor se adequa ao estado de ser. Vejam se me entendem. Ali de frente a alva parede é uma expressão afirmativa. Talvez outros daqui entendam. Mas é uma condição da natureza humana, ser silêncio. Uma conversa interna naquele diálogo entre um problema que conversa com a solução. Estava sempre ali, os olhos estáticos é que não permitem que quebremos aqueles espelhos e se desnude as conotações ilusórias nas denotações, mesmo que perversas. O lado bom da beleza é esquizofrênica: admite que mesmo o vazio é belo, porque tudo para antes ser algo precisa passar pela condição de nada. A beleza da ignorância. A magnífica face da ingenuidade. Não se esqueça que esse ser sujeito é uma tremenda construção. Ali é um lugar sublime para se pensar na penumbra do abajour que a negativa atordoadora da solidão só estremece e deprime quando forçadas a serem assim. É um estado de espírito. Pois bem, um segredo de assumir: há mesmo de eu ser hipocondríaco do silêncio hospitalar. Intercalado a cada intervalo de espaço silente é possível ouvir a natureza na sua essência: seja desde o parto das condições dos novos sujeitos, seja dos que ali terminam. Quando há o choro de nascer é sem entender da agonia do sofrimento de existir; mas outros riem, alvoaçam, eis que a felicidade tambem se faz com a soma de outra presença. A ausência, por oposto, traz a tristeza e a angústia de que a morte traz de volta o âmago humano de não aceitar essa impermanência; mas quem sabe aqui há o par atintético e os mortos possam querer rir de finalmente descansar em paz dessa realidade conturbada. Ali me sinto acolhido por realizar que esquizofrênica mesmo é a vida, podendo assim me acalmar enquanto ouço as paredes brancas que riem.

Marco Aurelio Souza Mendes

Marco Aurelio Souza Mendes

Nascido na cidade de São Paulo, em 1994, atualmente cursa o bacharelado em Direito na Universidade Federal de Uberlândia (UFU). Atua no meio literário com o pseudônimo de Aurélio Mendes. Possui uma coletânea de contos publicada pela Editora Multifoco chamada Pensamentos Singulares (2013) e uma novela política pela Editora Subsolo, Abapanema: o lugar das coisas ruins (2015). Em processo de editoração de sua terceira obra, "A manhã de J.H. e outros contos" pela Editora Subsolo, fruto da aprovação pela Lei Municipal de Incentivo à Cultura (2015).

Sem comentários; deixe o seu:

Seu comentário é importante!

Your email address will not be published.

Você pode usaratributos e tags HTML: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <s> <strike> <strong>