Plano da Operadora

Obra de ficção*

– Vamos surrupiar dois centavos, além dos seis de cada ligação.

– Mas e se perceberem?

– A gente devolve só para quem der pela falta e reclamar. E pra reclamar vai ter que esperar a musiquinha enlouquecedora até cair a ligação.

– E se o lesado ligar de novo?

– Mais uma hora, uma hora e dez da mesma musiquinha. Tortura de solitária mesmo. Aí a gente programa para a ligação cair outra vez. Na terceira tentativa, é sinal que o sujeito está mesmo determinado. Então atendemos, assumimos a cobrança indevida como falha de sistema e fazemos o estorno em créditos. Mas essa medida extrema, pelas nossas projeções, corresponderá a 0,3% das tentativas. O resto desistirá no meio do caminho, por exaustão. É importante lembrar que o plano (o nosso, não o plano promocional do cliente idiota) entra em ação um mês após o início da promoção. Isso porque nos primeiros dias o cliente fica conferindo mesmo, pra ver se é debitada a quantia certa para cada ligação. Depois ele relaxa e não confere mais. Aí sim, podemos bater a carteira mais à vontade.

– Você diz aqui na descrição que esta é a fase 1 do estratagema. Como seria a fase 2?

– É quando começamos a deitar e rolar pra valer. Multiplicamos a tungada de 2 centavos para o equivalente a uns 3 dólares. Logicamente, quanto maior a perspectiva de ganho, maior o risco. Podemos dizer que, nessa etapa, aqueles 0,3% de reclamantes que seguem na luta passam para 4,2%, num cálculo conservador. Mais uma vez, atribuiremos o erro ao sistema e efetuaremos o reembolso após a terceira tentativa do otário. No decorrer do processo, a fúria do assaltado tende a aumentar, e orientaremos a atendente a passar a ligação para uma suposta superiora que dará uma atenção maior ao sujeito, de acordo com o script aprovado na nossa reunião anterior.

– Sei. É hora daquela lenga-lenga toda, de que “é através de pessoas como o senhor que podemos sanar nossos erros e aprimorar nossos serviços”…

– Perfeitamente. Se ainda assim o mané quiser mais briga – teimando em reaver o dinheiro referente a afanadas retroativas, o máximo que pode acontecer é ele chorar as pitangas nas redes sociais ou trocar de operadora. Entrar na justiça ele não vai, não compensa o custo com advogado.

– Bom, vamos em frente. Fase 3.

– A fase 3 é a nossa salvaguarda, mas ela tem seu preço.

– Bom, já vi que daqui pra frente o teor é sério. Alguém fez uma varredura antes da gente começar essa conversa?

– Fica tranquilo. Esqueceu que nós somos a operadora? Estamos conversando num private circuit de última geração.

– Então vai. Prossegue.

– O esquema vai dar dinheiro demais. Mais do que seria seguro para ratear unicamente entre nós.

– Vai daí que…

– Vai daí que uns 35% do total arrecadado no golpe vai pra instâncias superiores, caso estoure escândalo ou se algo muito fora do previsto acontecer. Digamos que essa parte seja um fundo de reserva anual. Findo o exercício, se nada sacarmos para eventual “operação abafa”, a sobra de caixa continua intocável. Nunca se sabe o dia de amanhã.

– Por mim, pode tocar. Só uma dúvida: qual o nome do plano?

– O nosso ou o dos otários?

*Qualquer semelhança com pessoas ou fatos reais é mera coincidência.

Marcelo Sguassabia

Marcelo Sguassabia

Redator publicitário, pianista diletante, beatlemaníaco desde sempre e amante de filmes e livros que tratem de viagens no tempo.

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