Post Scriptum

Terminou pondo o último ponto na estória. Lá já iam mais de cem páginas. Às vezes não sabia bem como conseguia chegar naquilo. E perguntariam certamente a ele se o caminho todo por qual percorrera já estaria pré-estabelecido. Essa é uma daquelas perguntas que sempre fazem a um escritor. Mas as pessoas perguntam isso porque no fundo sempre estão muito preocupadas com um antes e um depois. As pessoas nunca sabem nada do agora.

Deslizou na cadeira pendurando os braços paralelamente um ao outro e soltou um grunhido que seria entendido talvez apenas por um ser canino. Um grunhido amarelo fogo, daqueles que têm cor e som de ameaça. Olhou em volta, os livros empilhados aos montes, bagunçados, espalhados para todos os lados. A desorganização já fazia parte de sua forma de ver o mundo. Nada em sua vida era muito escorreito, não tinha a mínima vocação para germanismos.

Ergueu-se novamente, esticou o braço e levantou vários livros e revistas jogando-os ao chão para pegar uma carteira de cigarro Derby Suave que jazia sob os escombros de papel. Puxou um fino cilindro branco de ponta negra e riscou um fósforo levando o fogo à boca. Soltou a fumaça e por dentro de si soltou outro grunhido.

Estava um pouco suado e tinha alguma dor de cabeça. A sensação era a de ter gozado, mas não lembra bem se houve um pico, um clímax qualquer. Sempre que se sentia assim após ter escrito lembrava das certeiras palavras de Rilke ao jovem poeta. Que a arte da escrita é como a sexual. Sempre é. E agora, que tudo se resumia a um finito est restava o mesmo que sentia sempre que terminava o sexo: frustração. O texto estava posto – no mundo. Mas o mundo não era dele e de ninguém, e no fim das contas o texto também não. A desorganização já fazia parte de sua forma de ver o mundo. E o mundo era somente uma reunião muito harmônica de muito caos.

Foi à janela. Sob a janela o mundo se movia com a lentidão das onze horas da noite. No horizonte o mar enegrecido e frio. Precisava oxigenar a mente. Levou o maço de cigarro. Desceu após pôr algumas peças de roupas leves. Saltou um dos bancos do calçadão e dirigiu-se à areia da praia. Sentou-se. Olhou o mar. Fitou aquela imensidão escura que ora se aproximava e ora se distanciava, fez o máximo de esforço possível para se inspirar. O mar merece uma estória dessas qualquer. Olhou, fechou os olhos, sentiu a brisa, o vento, a maresia. Passou uns quinze minutos nesse engenho e no fim: nada. Puxou um cigarro, pegou o isqueiro e se pôs a fumar.

Tentou olhar novamente o mar, mas de repente se viu naquele labirinto cretense que eram as lembranças de Mara. Mara e seu vestido rendado curto e branco, saltando as ondas espumadas do mar escuro na praia de Casa Caiada. Mara e sua boca vermelha púrpura. Seu sexo fértil e farto, suas palavras emaranhadas, pronunciadas baixinho ao pé do ouvido. Aquelas palavras rondando sua mente e o rosto de Mara como pano de fundo. De repente, o marido de Mara: sacou a ponto quarenta e deflagrou três tiros que lhe perfuraram o peito violentamente. E tudo no mundo era o mar escuro, as ondas branco-espumadas, o alvo rendado do vestido curto de Mara, suas palavras emaranhadas e seu rosto de pano de fundo… Acordou suado. Bateu duas vezes na face e despertou de uma vez do sonho.

À sua frente a luz branca intensa do computador e a última frase do livro que jazia ainda em aberto:

E após o ocorrido, Mara foi muito infeliz

Terminou pondo o último ponto na estória. Lá já iam mais de cem páginas. Às vezes não sabia bem como conseguia chegar naquilo. E perguntariam certamente a ele se o caminho todo por qual percorrera já
estaria pré-estabelecido. Essa é uma daquelas perguntas que sempre fazem a um escritor. Mas as pessoas perguntam isso porque no fundo sempre estão muito preocupadas com um antes e um depois. As pessoas nunca sabem nada do agora.

Levantou-se, olhou ao redor. Deteve-se na foto enorme que esfriava na parede. Como legenda da bela mulher de negros cabelos encaracolados: Mara. Sentou e tentou chorar, mas seus olhos eram secos e áridos como a mais quente e rachada terra sertaneja. Mas o sertão havia era dentro de si. O sertão e a sequidão de seu espírito eram uma ausência.

É que de repente, o marido de Mara: sacou a ponto quarenta e deflagrou três tiros que lhe perfuraram o peito violentamente. Olhou para ele de súbito e disse friamente: nem você, nem eu. Assim estava traçado o triste fim de Mara. Havia prometido a si mesmo que nunca faria estórias baseadas em coisas que tivesse um dia passado – isso dá sempre em merda. Olhou para o teto, o ventilador metálico de pontas de madeira girava lentamente. Lembrou-se da promessa feita a si mesmo e rasgou-a na mente.

Terminou pondo o último ponto na estória. E após o ocorrido, todos foram muito infelizes.

P. S.: Muito tempo depois um leitor o abordou numa feira de livros. Tinha o rosto radiante. Ansiava falar com ele como se ansiasse por algo de outro orbe. Primeira pergunta: qual a intensidade da felicidade de lançar um livro? Olhou para o rapaz e depois de respirar profundamente disse: a escrita é como no sexo. A publicação é quando a gente rola pro lado, olha pro teto e depois se levanta pra lavar o corpo. Não há nada daquele instante artístico em vir aqui apresentar meu livro. Estou com o corpo limpo. Uso uma máscara ridícula de escritor que quer ser lido. No fim é tudo muito frustrante. Por favor, sem mais perguntas.

Mário Filipe Cavalcanti

Graduado em Direito pela Ufpe, advogado, escritor, autor dos livros de contos Comédia de enganos (Penalux, 2013) – Semifinalista no Prêmio Sesc de Literatura 2014 – e O circo (EdUfpe, 2015), colunista das revistas Samizdat e Página Cultural e colaborador do site Homo Literatus, já saiu pelas revistas Flaubert e 7faces. Leitor voraz e pianista retraído, é ainda algumas coisas mais e também absolutamente nada. Conheça o Blog .

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