Preconceito linguístico: até onde?

BAGNO, Marcos. Preconceito lingüístico: o que é, como se faz. São Paulo: Loyola, 2007.

Marcos Bagno, mineiro de Cataguases, atua no setor de graduação e no programa de pós-graduação em Lingüística do Departamento de Lingüística da Universidade de Brasília (UnB), onde hoje é professor. Na mesma instituição, ainda dirige o projeto IVEM (Impacto do Vernáculo sobre a Escrita Monitorada: mudança lingüística e conseqüências para o letramento escolar), sendo uma das maiores referências nacionais sobre essa esfera de conhecimento.

O linguista brasileiro vem se transformando numa unanimidade quando o assunto diz respeito à língua e à sociedade, assim como ao homem e todo o seu processo histórico de desenvolvimento, atuando diretamente, e de forma ativa, pelo fim da discriminação social produzida através do advento da linguagem. Para ele, a exclusão social que se dá através do preconceito lingüístico precisa ser analisada com mais atenção, para que não haja no ambiente social a massiva estratificação de valores que prejudicam a diversidade de um língua e, por conseguinte, a totalidade cultural de um povo.

A todo momento, em sua obra mais conhecida, o autor de “Preconceito Lingüístico: o que é, como se faz”, nos leva a pensar a linguagem como ferramenta sine qua non para a realização do fenômeno da comunicação, da transmissão de mensagens e da geração de um movimento de sedimentação cultural de um povo ou de uma sociedade, desejando ele considerar, por essas e outras razões, motivos essenciais para que a “conquista” da fala, da língua, da linguagem seja um elemento tão fundamental e necessário, posto que as nossas diversas “vozes/falas” são os mais puros aprendizados que “fotografam” um determinado tempo.

Bagno vai nos endereçar ao caminho do conhecimento – objeto que trata como de natureza essencial -, preconizando que cada ser humano, cada indivíduo ou cada ator social, deve estar apto a respeitar as linhas limítrofes que no próximo estão instaladas, no que concerne à formação lingüística do prezado ser, modulando a idéia de que um ser humano de origem humilde, com dificuldades materiais frente ao processo educativo, tem a igual capacidade de outro, que desfrutou em sua vida de oportunidades mais propícias ao seu desenvolvimento intelecto-social.

Bagno considera a língua, acima de tudo, como um elemento de inserção social, capaz de transformar uma dada humanidade, uma respectiva ordem, tratando-a como uma entidade dotada de um valor estritamente concreto e apalpável, perceptível, dona de uma vivacidade que muito bem poder-se-ia ser equiparada ao próprio ser que a utiliza. E é aqui onde surge o paralelo-mestre da obra: o embate entre o formal e o informal dentro do universo de uma língua.

Durante o transcorrer da leitura, Bagno vai desmistificando diversos mitos referentes às variantes lingüísticas e suas aptidões-valores, quase todos ainda vivos – e bem vivos, pasmem! – em nossa sociedade. E, como aponta desde o início, a língua, mecanismo que deveria funcionar para um bem geral, facilitando ações, produzindo interferências positivas, termina dividindo, afastando, segregando, enraizada por um modelo de preconceito sutil e traiçoeiro que fragiliza a língua, dando-a um caráter dificultoso, de inacessibilidade, visto que conceitualiza e classifica o “utilizante” da língua a partir da escolha entre a norma culta ou não, criando uma perspectiva de fracasso e/ou sucesso nas pessoas.

Bagno, em seu livro, busca desconstruir a noção desse preconceito, “pondo a culpa” em peças importantes de todo o processo, como o analfabetismo, nossa escassa leitura, entre outras tantas… Reitera também a relevância das mudanças de atitudes por parte dos que usam a língua, apertando o cerco aos profissionais da língua materna e seus métodos pedagógicos de partilhamento do conhecimento.

Em tom por demais politizado, o autor vai tecendo comparações, esboçando desenhos imaginários, unindo liames distantes, tudo no justo desígnio de fazer o leitor refletir acerca do modo como essa expressão preconceituosa é tão presente em nosso território – só para reforçar o sentido – e, ao mesmo tempo, tão desvinculada de preocupação por autoridades e cidadãos simples. Mas até onde o preconceito lingüístico é um preconceito lingüístico, como ocorre e quais suas consequências? São perguntas que poderão ser respondidas após a leitura do livro de Bagno, ou senão alongadas ainda mais…

Germano Xavier

Germano Xavier

Mestre em Letras, jornalista profissional (DRT BA 3647), escritor e coordenador geral do Jornal de Literatura e Arte O EQUADOR DAS COISAS.

2 Comentários
  1. Para qualquer lingüista e/ou gramático (uma atitude está longe de excluir a outra – pelo contrário), a gramática é uma compilação posterior ao uso – à exceção das línguas imaginárias, nenhuma gramática ditou, de estro próprio, como se deve ou não falar a quem ainda não falava exatamente daquela forma, conforme faz Bagno crer para sustentar toda a sua tese. Desta forma, fica claro que os neologismos não fazem parte do léxico da língua se não são utilizados por alguém além de Joyce – como uma palavra que apenas eu utilize não fazem parte do léxico do português brasileiro. São idioletos. Bagno, diante de um exemplo evidente como este, diria o mesmo: sem perceber que sua teoria, que tenta metafisizar a língua de nascimento como valoratiza em absoluto, nega tal fato evidente para supor que seriam palavras do léxico, ainda que sem significado e não faladas por ninguém – e, caso se use como prova o fato de ser falada por um livro… bem, você já notou como Bagno é bibliofóbico até a medula, sobretudo no que se refere ao que é passível de existir numa língua ou não, né? Mestre Germano?
    . Muitos afirmam que ensinar e cobrar o uso da língua culta escrita é ser preconceituoso com os mais pobres. Ninguém consegue ver que é exatamente ao contrário. Se a escola – principalmente a pública – abrir mão do ensino da língua culta quem o fará? Estaremos reforçando o preconceito contra aqueles mais carentes por não lhes dar a oportunidade de aprender a se expressar da mesma forma que aqueles que têm uma condição financeira privilegiada. A escola, a meu ver, tem o DEVER de ensinar a língua culta e cobrar seu uso. Não adianta dizer a um sujeito que ele deve se sentir à vontade para dizer “nóis semo brasileiro”, pois futuramente o próprio mercado de trabalho irá discriminá-lo. Ou alguém acha que uma empresa gostará de ter um funcionário que se comunique dessa forma?! Um dos maiores problemas de nosso país é que tudo se resume a política. Se tivéssemos um ministro da educação concursado e que para concorrer a tal posto tive que ter ampla formação em linguística e formações acadêmicas afins, teríamos outra realidade. Mas não! Tudo o que temos são “cargos de confiança”! Pessoas que devem a presidente.E seu ganha-pão. Não têm autonomia alguma, são marionetes. E se discordarem? Perdem o cargo

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