Prefácio ao livro inexistente

“Quando é que sai o livro?”, perguntam-me isso sempre. Minha resposta, definitiva e inapelável: nunca. Se Deus quiser nunquinha, pelo menos no que depender de mim esse equívoco não será cometido.

É confortadora a ideia de que a publicação virtual pode ser editada a qualquer momento, e que a coluna de jornal, tão logo seja lida (se é que será), passará a forrar gaiolas de papagaio. Eu vejo uma espécie de segurança nessas plataformas, de reversibilidade da obra e, consequentemente, da reputação de quem a assina. Nada de volume, de editora, de noite de autógrafo, de virar adorno de prateleira ou encheção de linguiça no currículo.

O livro é um tijolo à prova de arrependimento, é obra catalogada na Biblioteca Nacional, passa de mão em mão e espalha-se mundo afora, ainda que seja pequena a tiragem. Se o escriba renega a cria, não há chance de reparar o erro. A menos que faça um recall, oferecendo recompensa por exemplar devolvido. Uma espécie de errata da obra toda.

Um livro é um negócio com aura de testamento, de coisa pronta e acabada. Não há o que possa ser feito depois de impresso, e essa perspectiva é uma sentença dura demais. Nega ao pobre do escritor a chance do control Z. A supressão de um advérbio mal empregado, um ponto-e-vírgula que poderia muito bem ser ponto, uma palavra repetida dentro do mesmo parágrafo, a troca de um substantivo que faria toda diferença. Dizem que o Graciliano Ramos acordava de madrugada, cismando de mudar uma palavra, corria à gráfica e mandava parar as máquinas para fazer a correção. E sendo ele quem era: o imortal Graça.

Mas o pior não são esses escorregões de forma, e sim os desarranjos de conteúdo. Um assunto escolhido na falta de outro melhor, um final sem charme, algo que na hora parecia bom mas que irá, lá na frente, macular o bom nome do autor e trazer constrangimento à descendência…

Para completar, o pior e mais humilhante dos riscos que um incauto escrevinhador pode correr: encontrar o seu rebento em um sebo, naquela banquinha de 1 real, autografado e tudo. E ainda ficar sabendo quem foi o amaldiçoado que vendeu, por quase nada, aquilo que um dia valeu tanto.

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Marcelo Sguassabia

Marcelo Sguassabia

Redator publicitário, pianista diletante, beatlemaníaco desde sempre e amante de filmes e livros que tratem de viagens no tempo. Blog Consoantes Reticentes.

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