Psicodelia e Subjetividade

Os rebeldes, revolucionários e visionários de hoje (e de todos os tempos) querem ver, ouvir e sentir “experiências” inéditas. A viagem (trip) é uma tentativa de libertação, de dissolução do ego escravizado pela ordem vigente, o que Aldous Huxley chamou de “abrir as portas da percepção”. No entanto, a questão é a seguinte: “a experiência psicodélica é realmente a expressão de uma nova sensibilidade?”

Ao longo da história da humanidade, o uso de tais substâncias tem servido a diversos fins, desde a controvertida fuga da “realidade”, até objetivos mais elaborados: anestesia, cura, inspiração artística e filosófica, dentre outros.

Embora o uso de substâncias alucinógenas, em seu estado natural ou sintético, seja praticado pelos seres humanos desde os primórdios da civilização, foi somente nos anos 1960 que esta prática conquistou o status de um fato social, servindo de fonte de inspiração para os artistas e sendo merecedora de preocupação por parte da ciência e das autoridades e de estudo, por parte dos intelectuais. Entre os “mentores” e “gurus” da experiência psicodélica, nos anos 1960, estão Aldous Huxley (1894-1963) – escritor inglês, autor de As portas da percepção – e Thimothy Leary (1920-1996) – escritor norte americano, que influenciou diretamente as ideias e experiências revolucionárias da contracultura e é um dos autores do texto que se tornou uma das referências do psicodelismo: A experiência psicodélica – um manual baseado no livro tibetano dos mortos. Esse livro aborda, entre outros aspectos, a maneira como as drogas, sobretudo o LSD, poderiam proporcionar experiências de liberação do ego e elevação a outro nível de consciência.

Longe de querer reduzir o problema, esta breve reflexão chama a atenção para um “alerta”, ao qual não se deu o devido mérito, do filósofo Herbert Marcuse. Na condição de intelectual que visava o entendimento do que estava acontecendo no mundo nos anos 1960, Marcuse não poderia se furtar a abordar a questão, tão intimamente ligada aos processos em curso naquela década.

A conclusão de Marcuse, no entanto, é surpreendente. Ele não aprovou a experiência psicodélica como forma de expressão de uma nova sensibilidade, ao afirmar que ela produz um alívio apenas temporário da opressão do sistema estabelecido. Além disso, ainda conforme Marcuse, ela promove o esvaziamento da subjetividade e uma anulação da racionalidade requerida para a promoção da mudança, criando um “paraíso artificial” dentro da própria realidade da qual se pretende afastar.

Podemos dizer, em síntese, que a experiência psicodélica é um “remédio” mais perigoso do que o “mal” que se pretende tratar.

Pink Floyd – See Emily Play (considerada a mais psicodélica de todas as canções):

Imagens: http://www.bulevoador.com.br / http://www.dreamwvr.com

Paulo Irineu Barreto

Paulo Irineu Barreto

É escritor e Professor do IFTM. Doutor em Geografia Humana e Cultural e Mestre em Filosofia Política e Social. Pesquisa e escreve sobre Cultura, Educação, Filosofia, Geofilosofia, Geografia e Política.

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