Quarteto em lá menor

Ao som do Quarteto homônimo de Mahler

Mas o que porra eu fiz? Meu Deus! Que porra eu fiz? As mãos ensanguentadas e frias, o vento batendo como um sádico e aquela enorme solidão da noite vazia. O suor descendo pelo rosto, as luzes amarelas do centro bruxuleando e aquela ideia abismática perseguindo a mente golpeada. Apenas queria calar aquele filho da puta. Eu pedi que ele parasse, não estava aguentando mais. Mas o filho da puta continuou, continuou até o fim, eu disse pra ele não continuar, eu disse. A voz trêmula e o frio quase estrangeiro a invadir as ruas escuras do Recife em alta madrugada. Ruas que testemunhavam com sua antiguidade e pesar, seu crime. CRIME! Assim as cinco letras perpassando sua mente alucinada I não estava mais em si R seria descoberto E aquele filho da puta não podia ter feito isso C, mas teria sido ele quem fez? Não fora ele que fez aquilo? M não podia ser, não podia ser. Voltou, voltou correndo, alguém poderia ter visto. Alguém poderia ter visto? A curiosidade o guiou como uma criança ingênua ao local onde o corpo ainda jazia abatido como à espera, como à sua espera. Precisava ocultá-lo, dar um fim naquilo. Ali, ali mesmo. Olhou para ambos os lados. Estava gélido. Sua mente inchava com a dor dos nervos latejando. Estava cadavérico como a cria de Stoker em busca de sangue. Tinha agora o sangue de um inocente nas mãos. Mas ele não era inocente. Aquele filho da mãe nunca foi inocente. Ninguém é inocente de nada. Depois que se nasce e se quer continuar vivo a inocência morre como a morte que a gente morre todos os dias. Tomou o corpo nas costas como um saco. Ele era agora um saco. Apenas um saco pesado de ossos e carnes que seriam digeridos pelos vermes. Arrastou-se ele mesmo como outro saco animado, como um autômato guiado por uma mônada de Leibniz, uma máquina. Era uma máquina fria, gélida e calculista. Amorfa. Ele arrastava o seu fardo como um imbecil de um crucificando. Onde seria o seu calvário? Estava destinado àquela tragédia própria como o corpo daquele imbecil estava destinado à morte por suas mãos. Mãos traidoras que manejaram a faca de Brutus, “punhal de prata”, punhal que a máquina empunhou e manejou com êxito. Parou no parapeito da Ponte Giratória. Séculos de sombras lhe saíram dos olhos. Séculos de sombra lhe entraram n’alma. No fundo mais fétido do Capibaribe jazia agora o corpo dele e nem sequer a queda fora elegante como antes ele era. Era isso, tudo acabado, lembrava-se do dito de Mefistófeles latejando em sua mente “acabou, palavra tola”. Eu sei que posso confiar em você. Sei que posso. Quero apenas te amar sem medo. Quero apenas externar, não posso mais guardar isso. Você tem de guardar, não pode falar a ninguém, o que seria de MIM? O que seria… de nós? Estavam eretos e ele galopava loucamente por sobre o outro, num furor faminto. O frêmito dos dois corpos rangendo como máquinas em gozo no ato. Um ranger das articulações e das dobras da cama lavada do óleo que escorria de seus poros. No peito uma vontade. Todos os dois eram uma vontade. O mundo era uma vontade. Você tinha de guardar segredo seu filho da puta! Lavou-se ao chegar, olhou-se no espelho e alguém dentro dele ria amargamente. Ele não era ele e era outro e era o outro que fizera aquilo e aquele ele que ele era amava tanto o corpo agora morto, mas não só o corpo, ansiava a presença do outro, daquele outro que talvez fosse um ele. Onde estava querido? Perguntou a mulher, da cama. Passeando, amor.

Mário Filipe Cavalcanti

Graduado em Direito pela Ufpe, advogado, escritor, autor dos livros de contos Comédia de enganos (Penalux, 2013) – Semifinalista no Prêmio Sesc de Literatura 2014 – e O circo (EdUfpe, 2015), colunista das revistas Samizdat e Página Cultural e colaborador do site Homo Literatus, já saiu pelas revistas Flaubert e 7faces. Leitor voraz e pianista retraído, é ainda algumas coisas mais e também absolutamente nada. Conheça o Blog .

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