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Robson Ferreira Vilela no Página Cultural

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Graduado em Letras e ex-aluno do curso de Artes Visuais (UFU). Atualmente Robson Ferreira é coordenador acadêmico do polo Uninter em Prata-MG. Amante das artes, está até hoje tentando descobrir como pintar o sete. Agora Robson pinta o sete também no Página Cultural.

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Django Livre é Tarantino indo além da Catarse

O texto contém revelações sobre a trama.

Quentin Tarantino se superou em seu mais novo filme. Djando Livre é talvez sua maior realização até o momento e é digno de aplausos por dois motivos. O primeiro deles é a capacidade do diretor continuar sabendo se reinventar. Se durante muito tempo a imersão na tela era o mais importante para garantir o sucesso de um filme, Tarantino veio para empurrar o espectador de volta à realidade: “Isso é só um filme”, é como se ele repetisse esta frase a cada um de seus cortes bruscos, zooms exagerados, trilhas sonoras aparentemente destoantes etc. Seus “vícios” de linguagem cinematográfica desagradam alguns, incapazes de compreender que como um Godard do cinema pop ele busca desconstruir o cinema tradicional, mas o diretor sempre mostrou saber usar essas “manias” a seu favor. Em Django Livre ele repete suas marcas, mas mostra estar mais preocupado em construir uma história que em brincar com a linguagem – talvez ele já tenha conseguido desconstruir o que precisava e agora pode focar-se em construir.

O segundo motivo que faz Django Livre ser digno de aplausos é que pela primeira vez Tarantino criou um filme que vai além do estético e chega ao mundo. E chega destruindo tudo, não fisicamente, mas de uma maneira que leva o espectador a questionar os conceitos que traz consigo. Nesse ponto, Tarantino supera seu tradicional senso estético-catártico e parte para a reflexão. Sim, acredito que a filmografia tarantinesca está bem classificada nesta expressão que eu mesmo criei. Estética, por motivos que saltam aos olhos e catártica porque sua violência não é gratuita como querem alguns, mas recheada da mais fina sensação provocada pelo teatro grego antigo.

Catarse é aquilo classificado por Aristóteles como a capacidade que a Tragédia possuía de purificar, na plateia, sentimentos fortes como o terror e a piedade. Ao chicotear um dos irmãos Brittle, Django (Jamie Foxx) sente-se realizado diante da ação, mesmo que isso não anule todo o sofrimento de seu passado. A plateia, ao identificar-se com a personagem Django durante a projeção experimenta sentimento semelhante, expurgando seus próprios sentimentos: eis a catarse. Isto é o que se vê comumentemente em um filme de Tarantino, a catarse unida à violência gráfica. Tivemos isso em Pulp Fiction, em Kill Bill a cada morte da lista de Beatrice Kido e magistralmente representado na última sequência de Death Proof. Mas agora Tarantino foi além e não se contentou em criar catarses, dedicando-se a fazer com algumas ideias o mesmo que já fazia com seus personagens, sagrá-las.

Com um tiro em um cavalo, Tarantino começa seu filme matando um dos elementos mais sagrados dos westerns. E a desconstrução do gênero continua ao situar a narrativa não no Oeste, mas no Sul dos Estados Unidos, três anos antes da Guerra Civil Americana, em pleno período escravocrata. Em seguida, ele desconstrói a visão da América como terra de liberdade e oportunidades ao retratar todos os americanos brancos como preconceituosos (OK, isso nem foi original, mas merecia ser citado). Em oposição a isso, ele coloca o alemão Dr. King Schultz (Christoph Waltz) como único personagem branco a reconhecer o negro Django como um homem livre e igual a ele – talvez até superior (aliás, em meio à América, talvez Dajngo seja o único homem que Dr. Schultz reconhece como digno de ser seu semelhante). Por fim, o filme desconstrói a própria imagem do negro escravo, contrapondo Dajngo ao personagem, também negro, Stephen (Samuel L. Jackson). Stephen se sujeitou à escravidão para conseguir algum poder e por isso não suporta a ideia de que Django possa montar um cavalo e ser livre.

Existe ainda outra desconstrução – e este é um terceiro ponto que mereça aplausos no filme. Tarantino desconstrói a si mesmo ao construir um herói. A busca pelos irmãos Brittle e suas mortes foram motivadas em Django pela vingança, como é comum na filmografia de Tarantino. Mas, a partir do momento em que ele se torna homem livre, seu objetivo principal passa a ser reencontrar sua esposa Broomhilda Von Shaft (Kerry Washington), vendida como escrava para a amarga fazenda Candyland, propriedade de Calvin Candie (Leonardo DiCaprio). Toda esta sua jornada é movida, não pelo ódio, como é comum na filmografia do diretor, mas pelo mais nobre dos sentimentos: o amor. Django é um herói tentando resgatar sua princesa e é o próprio Dr. Schultz, alemão, quem reconhece no negro liberto esta qualidade superior que o iguala ao lendário guerreiro do norte Europeu, Siegfried.

Mas, Tarantino é Tarantino e os planos não dão certo, obrigando Django a voltar como vingador no final do filme para salvar sua princesa e punir os malfeitores. Afinal, o filme vai além da catarse, mas ela continua presente e muito bem representada.

Robson Ferreira Vilela

Graduado em Letras e ex-aluno do curso de Artes Visuais (UFU). Atualmente é professor de Língua Portuguesa na E. E. Messias Pedreiro em Uberlândia-MG. O Literário.

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Comentários (3)

  1. [...] publicado anteriormente no Página Cultural em [...]

  2. Robson disse:

    Obrigado pelas boas vindas! Estou feliz em estar participando do site!

  3. Página Cultural disse:

    Seja bem-vindo ao Página Cultural.

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