Sapatinho de cristal

Faz sol lá fora, e é por isso que as criancinhas brincam em roda, cantarolando, girando, rodopiando em cantigas populares. Quente, como o calor da infância daquelas crianças. — “Roda, menina, roda. Roda feito pião!” —. E Cinderela sorria despreocupada para as nuvens e, com mãos trançadas no vestidinho, rodopiava num transladar para trespassar as miudezas da rua. — “Canta, menina, canta! Canta bem doce como algodão.” —. E cantava. Cinderela com canto ingênuo enredava cantiga de poetinha, para brincadeira da despreocupação. Ora, e é assim que criança vive: sorrisamente. Porque riso, se vem da infância, passa longe do cinismo e traz aquela querência de descobrimento das coisas simples e sinestésicas. E a cantiga então voava:

Sete em cores, de repente
O arco-íris se desata
Na água límpida e contente
Do ribeirinho da mata

Nem sozinha nossa garotinha brincava. Infância é longínqua de solidão. Eu por muitas vezes observo olhadamente, em minha carcomida cadeira de balanço, os infantes da vizinhança. Se sozinhos, mesmo que únicos, mesmo que de aparência isolada desse mundo, nunca estão consumados pela solidão. Eu joguei fora, e sem possibilidade de reciclar, enquanto eu envelhava minha condição de se misturar ao vazio e dele achar companhia. Enquanto crescemos vamos nos acostumando tanto ao invernar da velhice que morremos de hipotermia. Mas, sozinha, Cinderela não era só nem em família, pois brincava sempre junta de suas irmãs. Mais velhas. Velhas em que sentido? Pois palavra, desses vocábulos que a gente palavreia todos os dias, podemos imputar qualquer significado. Maiores, com mais tempo de vida de idade, mas que ainda compartilhavam por dentro daquele éter doce e de sabor particular. Eu fumava todos os dias minha ácida nicotina e aquele cheiro mórbido ainda não contaminava as crianças da vizinhança.

A infância é dessas idas corriqueiras de viagens de verão e sem volta. Os planetas e todo o cosmo girava no entorno de Cinderela, a existência crua, desnuda, fria, rebatia em volta da garotinha. Oh! Mas a infância, em viagem de duração de incógnita blinda a todos dessa mazela que se chama realidade. É. Enquanto crescemos vamos nos afastando cada vez mais de vermos as coisas com olhos voltados para o peito. Só vamos nos importar em calcular, e com precisão, a rotação da Terra, o transladar dos planetas, a quantidade de calorias que vamos ingerir. Ah, mas Cinderela, ainda infante como era, se importava apenas nessa vivância da despreocupação em provar o doce aroma de algodão doce que as nuvens tinham. E risos de desdém daqueles que já cresceram pouco lhe incomodavam. Pois, é assim, é tão real e verdade essa sinestesia com o concreto? Esse saboreio que a vida tem? Ai, se é. Meus amigos leitores, há de todos nós termos sido transeuntes dessa via infância alguma vez na vida. E saudosismo é pouco poupado, porque eu ainda tinha esperança, enquanto criança, de estar caminhando de olhos abertos para vida. Êirra, e tão desenganoso e desgostoso os anos que vão passar. Friamente calcula os palmos que faltam para minha cova ser fechada. Cada dia mais eu fico próximo da lucidez da morte. Sim, só me resta converter minhas perdas desse adultecer envelhando-se como criança outra vez. Ah, Cinderela, seu soubesse o tempo bom que passa, nunca iria querer sair dessa ruazinha para o mundo. Iria pedir para ouvir todos os dias as vozes gritando: “Roda, menina, roda feito pião!”.

Ouvia ainda? E continuou a ouvir por longos anos. Só que cada fragmento de vida passante era eco de voz que diminuía. Cinderela em pouco tempo foi vendo as irmãs tornarem-se sombras distantes. Era um vento. Uma brisa gelante que passava por aquele endereço específico. Cinderela batia todas as manhãs na porta do quarto das irmãs, arrastando pela casa sua bonequinha de pano. Entre fios soltos, lãs despedaçadas pela casa, ela não perdia seu sorriso. Porque isso é o que dá nome ao período de ser criança. Até nos males mais profundos encher suas lágrimas com água insipida de despreocupação. — “Mamãe, as manas nunca querem mais brincar comigo na rua!”—. Tinha face emburrada, choramingava uma falta sem entender seus motivos. Mas mãe, complacente da situação e sua delicadeza, fingia ignorância. Sempre dizia que amanhã seria outro dia; que amanhã elas iriam rodar feito pião até tontearem noutra esquina. Então Cinderela saía com risinhos para rua e dizia que iria colher os feijões que plantara no céu. Ela queria porque queria escalar até o topo do mundo, poder enxergar até o outro lado do céu. Ai, tem muito disso essa coisinha chamada infância. Curiosidade. Eu perdi, e digo que me arrependo com gosto amargo de ter deixado para trás esse gosto pelo descobrimento. Quando as coisas se tornam lógicas e passamos a pensar demais, esquecemos que surpresar é coisa verdadeira para se viver. Eu até tento afastar-me desses cientificismos, dessa matematicidade e legalidade de todos os pormenores. Mas quedo-me já sem forças para modificar meu estado, tão confortável como estou, apesar de destruidor. Cinderela, ainda virgem dos anseios de uma sociedade pronta para mecanizá-la, ainda acreditava que os feijõezinhos iriam crescer lá no céu. E porque acreditava, eles iriam crescer, mesmo ninguém os vendo.

 Então os rodopios foram indo, indo até chegarem ao cansaço de pessoinha. Mesmo sozinha, ainda conseguia sair rua afora para realizar aquelas brincadeira de imaginar. É que dentro dela ainda podia conversar sortidamente com seus pensamentos. Ainda tinha capacidade de ser Rainha de reino que nunca existiu aqui, mas noutro mundo sim. Esses mundos, que sentimos saudades porque hoje são fugas para os problemas diuturnos. Cinderela, sem noção da vagueza que a vida iria ter depois de crescer, ainda imaginava-se como desbravadora dos reinos ocultos do inconsciente. E conversava consigo enquanto rodopiava rua afora. Sorria. Mais que um simples riso, em tresorriso sem significado aparente. As coisas significativas estavam nos deslumbre de poder acreditar que sonhos impossíveis um dia poderiam a vir acontecer. Ai, tão pura que lha invejo como poeta, pois transmissão de sentimento tão alvo, casto, simples e ao mesmo tempo rico em profundezas, poesia nenhuma consegue transpassar. O tempo, em forma tão invisível como é, se passara pelas irmãs, não seria tão justo não passar por ela também. Cinderela não percebia ainda os avanços da idade, nem sempre mente acompanha estadia do crescer de corpo. Outros, do outro lado da rua, percebiam, e muito além de só olharem, comentavam em palavras que seriam muito simbólicas para Nabokov. Ah, eu queria recusar-me de usar aquele termo Lolita, mas talvez seja deveras impossível de não citar. Não, eu não sou um maníaco sexual. Crescemos, e com isso vem os fragmentos da sexualidade que de tempos em tempos vão se juntando para formar o conjunto todo. E se tempo da mente nunca é o mesmo do corpo, tão nítido é aqui que o silêncio faz criar em suas mentes a perfeita imagem, abstendo-me de palavras.

Um dia desses, de tanto importar uma pequena falta de companhia, uma ponta de solidão, as irmãs de Cinderela decidiram chamá-la para sair com elas em certa noite. Não, não era um lugar para crianças. Cinderela sabia? Muito mais que afirmar uma resposta, importa mesmo que Cinderela agora se via um pouco deslocada do mundo, ausente da sociedade, pois tanto tempo passou sozinha, e vendo com seus olhos os comentários de malícia, que decidira tentar encontrar seu lugar no mundo. Aos poucos, em imperceptíveis passos de distanciamento, ia deixando de importar o gosto das nuvens, o pé de feijão ou a bonequinha de pano. Não, não! Não quero dizer que isso não tinha importância para ela. Mas pairava uma dúvida, uma constante incógnita de porque só ela insistia em ver o mundo daquela forma, e permeando sobre sua mente, fixada resposta de que lhe excluíam por ser assim. Deixou na gaveta de baixo as blusas ou vestidinhos rendados que, de alguma forma em tecido, estampas ou seja lá o que for, demonstravam que quem os vestia tinha ainda tempo parado nas primaveras de um início de juventude. Não entendia porque tinha que ir vestida daquela forma agressiva. É, assim as mulheres se vestem. É, assim ela conseguiria passar mais tempo junta de suas irmãs. Antes, bem antes de saírem, quando queria se olhar no espelho por uma última vez, decidiu colocar seus sapatinhos de cristal. Naquela noite percebeu que aquele calçado estava ligeiramente mais apertado. Não se importava em caminhar mitigada pelas dores nos pés, pois ainda tinha afeto por aquele sapatinho.

Era uma festa. É. As coisas continuavam num fluxo que parecia ser ininterrupto para Cinderela. O ar, tão sombrio quanto a noite, parecia oprimir a garotinha no meio daquela multidão. Amargou um arrependimento em seu coração de ter aceito o convite. Êixa, mas ela estava lá, com suas irmãs, com outros rostos conhecidos da época das cantigas de roda da rua. Só que as pessoas, por mais que parecessem as mesmas, pareciam ser completos desconhecidos. E cumprimentavam-na como se fosse a primeira vez que viam aquela dócil e singela garotinha. Sorria e acenava como se ali fosse um momento tão mágico quanto um conto de fadas. Oh, mas lastimava-se por dentro e escorria lágrimas de desespero e sofrimento. Cinderela não conseguia achar mais as vozes que lhe diziam que poderia escalar os pés de feijões mágicos. Dói. Dói dizer isso. Dói essa coisa chamada crescer. Não, eu não tenho analgésicos para anestesiar o momento. Bem ou mal, não se tem desvivência aqui. Eu observo as lágrimas do inconsciente de Cinderela escorrerem, desolado com certa pena daqui de fora. Nada posso fazer. Nada posso fazer para impedir, já que crescer é tão natural quanto morrer.

Meia noite, hora tão mística e demoníaca que as portas do inferno se abrem justamente nessa hora. E o medo de ser perseguida pelos demônios noturnos fez com que Cinderela tivesse quebrada aquela vontade quase que mágica de estar presente naquele lugar. E saiu correndo, com rosto fechado, emburrada. Fingiu alguma dor de cabeça para acreditação das irmãs, que assim a seguiram de volta para casa. Remediaram-na com sua mentiragem de dor física, porque a cabeça mesmo pesava pelo sofrimento presenciado. Amanhecido o dia, Cinderela tinha olhos apáticos, de uma ressaca da embriaguez de bebida psíquica que provara ontem. Inquietava-se com o silêncio de sua mente, com a vontade vazia e ojeriza de andar arrastando sua bonequinha de pano pela casa. Bate a mãe em sua porta, dizendo que o café está na mesa. Amargo como o café e tão negra e obscura como a cor da bebida eram os passos que daria de agora em diante. Descendo da cama percebeu que no caminho de volta perdera seu sapatinho de cristal. Não ia vir príncipe bater em sua porta numa segunda-feira nebulosa oferecendo seu sapato de volta. Existem muitas coisas na vida que não podem ser devolvidas uma vez que se perdem, e o sapatinho era uma delas. Andaria de agora em diante descalçada pela misantropia que é a verdadeira realidade, sentindo o frio assoalho da casa em que vivia e dos muitos pisos que viria a caminhar. —“Cinderela, minha filha, não vai sair na rua para brincar?”—. Cinderela, resoluta de sua nova condição, percebendo-se no espelho como irreconhecível mulher, apenas disse:

— Não. Hoje eu preciso cortar meu cabelo e comprar roupas novas.

Marco Aurelio Souza Mendes

Marco Aurelio Souza Mendes

Nascido na cidade de São Paulo, em 1994, atualmente cursa o bacharelado em Direito na Universidade Federal de Uberlândia (UFU). Atua no meio literário com o pseudônimo de Aurélio Mendes. Possui uma coletânea de contos publicada pela Editora Multifoco chamada Pensamentos Singulares (2013) e uma novela política pela Editora Subsolo, Abapanema: o lugar das coisas ruins (2015). Em processo de editoração de sua terceira obra, "A manhã de J.H. e outros contos" pela Editora Subsolo, fruto da aprovação pela Lei Municipal de Incentivo à Cultura (2015).

1 Comentário
  1. Que texto profundo Marco! Todos nós, sejamos homens ou mulheres, um dia fomos crianças. E, ao crescermos, abandonamos essa criança que ainda dorme dentro de nosso peito, para adentrarmos nas responsabilidades da vida. É crescimento necessário de todo ser humano. No entanto, temos que ter sempre em nosso peito, em nossas vidas, um pouco da essência da criança que deixamos para tras. Parabens Filho Amado.

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