Scherzo – ao som do 2º. Mov. da Nona de Beethoven

SCHERZO Acordou. Olhou ao redor e saltou como um rato. Ainda estavam batendo. Algo lhe escorria pela face. Havia uma face nesse algo que ele era? Olhou rapidamente para um buraco que havia entre o passeio e a estrada. Uma pancada lhe acertou bem no lóbulo esquerdo da orelha. Vinho espirrou no chão. O positivo. Gritavam gritos finos e continuados ao redor enquanto os outros continuavam a bater. Não pensou mais. Lançou-se no buraco e desceu, desceu à mais profunda sujeira que habita as covas da terra. Musgo e lama, merda e lixo lhe cobriam as faces. Havia uma face nesse algo que ele era? Alguns ratos observavam ao longe. Via os pés. Via os pés pela fresta do buraco. Pela fresta mínima do buraco ele via os pés. Como conseguira entrar ali? Relaxou os músculos para que os olhos continuassem vívidos. Seu coração batia como um tambor gigante. Um tambor gigante de orquestra. Havia algo verde nos seus lábios. Pastoso verde e fedido. Lambeu: era pus. Olhou assustado, um jato de areia havia entrado. Viu os pés. Os pés eram todos pés. Todos iguais. Mas uns chutavam e outros se encolhiam enquanto sangue e pus se formavam na superfície. Apagou. Seu coração batia como um tambor gigante de orquestra. Denis estava pondo mel encima das panquecas. Estava de cueca azul de algodão e elástico e fazia aquilo. Acordou. João gritava. Gritava muito e por isso acordou. Nunca esqueceria a voz de João. Ele havia caído. Dava pra ver o rosto de João no chão junto a todo aquele vinho. AB – O – A. Negativo, Positivo, tudo esparramado no chão. João olhou pra ele mas algo afundou a sua face. Havia uma face que emergia desse algo que João era? Apagou. Denis estava de costas escrevendo no computador. Suas costas eram lindas. Ele filmava com o smartphone. Iria postar no Instagram falando uma daquelas merdas que todo mundo gosta. Quantas curtidas as costas de Denis iriam lhe despertar o maior de todos os ciúmes? Se perguntava enquanto, mordendo os lábios, filmava (ele não podia saber que estava sendo filmado). Sentiu. Sentiu. Sentiu. Paz é algo que a gente sente? Sentiu: uma mão. Puxaram-lhe pra fora. Acordou. Olhou nos olhos. Tentou um soco, mas estava muito fraco e desviaram antes. Seu punho era uma trajetória parabólica inútil. Riram. Todo algoz ri, esbugalha os dentes. Empurraram. Lembrou-se de sua avó falando do holocausto. Era assim, era assim que os Einzeitsgruppen faziam. Fechou os olhos e lhe vieram lágrimas. Havia cem arranhões no corpo inteiro. Haviam usado muita força contra suas carnes pra que saísse do buraco com a mesma intrepidez que entrou. Foi arrastado ao longo da estrada. Avistou ao longe o carro de passeio onde riam e ouviam Marisa Monte. Foi arrastado. Os algozes riam. O mundo girava. Algo no canto do universo era indiferente a tudo isso. Viver era um gracejo? Como um rato foi posto de joelhos. Essa seria sua última genuflexão? Nunca orara a deus. Arrependia-se agora? Igreja, roupa de coroinha, crucifixo, culpa, genuflexão, oferta, dinheiro, padres, batinas, pênis, culpas, genuflexão, agnus dei, cuspiu um pouco de vinho tinto. Os algozes de largos dentes amarelados tinham cruzes penduradas no pescoço. E gritavam palavras de ordem do tipo: veado tem de ser morto! Aqueles punhos fechados eram saudação nazista? Se esforçou muito para lembrar. Mas não eram. Poderia haver tanto ódio fora do nazismo? Algo lhe escorria da face. Vinho tinto. Bateram-lhe quatro vezes na cabeça com um bastão de madeira. Desmaiou. Denis estava rindo e seu riso era como o sol. Acordou. Jogaram água gelada em sua face. Havia algo nessa face que ele era? Olhou pros céus e havia luz, muita luz. Sentiu o vento em suas narinas repletas de vinho tinto. Viver era um gracejo? Olhou ao redor sentiu medo. Olhou novamente os céus. E daí morreu,

 

Mário Filipe Cavalcanti

Graduado em Direito pela Ufpe, advogado, escritor, autor dos livros de contos Comédia de enganos (Penalux, 2013) – Semifinalista no Prêmio Sesc de Literatura 2014 – e O circo (EdUfpe, 2015), colunista das revistas Samizdat e Página Cultural e colaborador do site Homo Literatus, já saiu pelas revistas Flaubert e 7faces. Leitor voraz e pianista retraído, é ainda algumas coisas mais e também absolutamente nada. Conheça o Blog .

Sem comentários; deixe o seu:

Seu comentário é importante!

Your email address will not be published.

Você pode usaratributos e tags HTML: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <s> <strike> <strong>