Será o novo êxodo?

O que será de nós se não chover pra valer? Não falo dessas chuvinhas rastaqueras que temos visto precipitar, que quando muito mantêm o nível das represas estacionado. Refiro-me àquelas de verdade, que são a um tempo benção e desgraça, que duram dias e noites ininterruptos, meses a fio, que alagam cidades, matam as pessoas, mas que também fazem ressurgir o verde, hidratam os animais e, claro, enchem as represas.

Em São Paulo e em praticamente toda a Região Sudeste, as represas estão com níveis abaixo dos 10%. O consumo diário das cidades é brutal, calculado em milhões de metros cúbicos. A meteorologia falha nas previsões de chuva e a discussão sempre deriva para a culpa do governo que não fez o racionamento a tempo, etc. Mas esse papo político já pouco nos interessa. A verdade é que não chove e sem chuva não falta só água, faltará também energia elétrica; no limite nos veremos em megalópoles inabitáveis. Pense numa cidade sem água e energia. A pergunta que me vem à mente é: cadê a mesa-redonda de cientistas na TV para nos explicar o que faremos se não chover pra valer? Sim, porque antes de ser uma crise hídrica, essa pode ser uma nova realidade pluvial.

O quê, minha senhora? Estou exagerando? Ora, quem poderá garantir que não chegou a hora da vingança da natureza contra toda a sorte de absurdos que temos feito contra ela há mais de um século? E se estiver para se concretizar a previsão bíblica do livro de Isaías?

“Aí de vocês que adquirem casa e mais casas, propriedades e mais propriedades, até não haver mais lugar para ninguém e vocês se tornarem os senhores absolutos da terra! [..] casas belas e grandes ficarão abandonadas, sem moradores […] A ira do Senhor se levantou contra o seu povo, os montes tremeram e os cadáveres estão como lixo nas ruas […] e se alguém olhar para a terra verá trevas e aflição”

O governador de São Paulo já pôs em estudo a reutilização da água dos esgotos para transformá-la em água potável. Aceita um gole?

Se não chover, prevalecerá a matemática, contra a qual não há argumentos. Quando acabar, acabou. Numa situação limite, que agora não parece assim tão impossível, ficam as dúvidas: irá então o homem se brutalizar a ponto de lutar com pedras e paus pela água da sobrevivência? Quem está preparado para abandonar tudo o que chamamos de civilização e sair pela estrada, abraçado à família, com a roupa do corpo, em busca de mananciais? Ficarão as cidades vazias e se tornarão morada de pássaros migratórios?

E agora, José?

Cesar Cruz

Cesar Cruz

É paulista da Capital. Nascido em 1970, escreve contos, crônicas e artigos, além de fazer consultoria e revisão textual sob encomenda. Tem 4 livros publicados: O Homem Suprimido, Scortecci – 2010; A Idade do Vexame & Outras Histórias – 2011, A Invasão dos Horácios – 2013 e Território Conquistado – 2015, todos os três últimos pela Pontes Editores. Blog: Os Causos do Cruz.

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