Sobre a humanidade e a subjetividade do “lugar”

Na geografia e no discurso geográfico, há um ponto recorrente a respeito do estudo do lugar, é o de que o mesmo sempre foi abordado em plano secundário (HOLZER), se comparado a outros conceitos fundamentais do discurso geográfico, como: paisagem, ambiente e território. Há quem afirme que o conceito “lugar” é auto-explicável (SUERTEGARAY). Por outro lado, há também quem defenda que, entre os conceitos fundamentais da geografia, o conceito “lugar” é o menos desenvolvido (LEITE), o que não deixa de ser intrigante, pois ainda há quem afirme que “o estudo do lugar é a matéria-prima da geografia, porque a consciência do lugar é uma parte imediatamente aparente da realidade, e não uma tese sofisticada (HOLZER). Yi-Fu Tuan, ao apresentar o neologismo “topofilia”, estabelece uma relação indissociável entre o sentimento e o objeto e entre o lugar e o meio ambiente: “podemos estar certos de que o lugar ou meio ambiente é o veículo de acontecimentos emocionalmente fortes…” (TUAN). Todas estas afirmações, quando tomadas em conjunto, nos permitem inferir que ainda há muito a se investigar sobre o conceito “lugar”. Comecemos, portanto, pelo fundamento: o que é “lugar”? É possível uma definição única do termo?

No que se refere à filosofia, o primeiro a propor uma definição para o termo “lugar” foi Aristóteles que, no livro IV da Física, afirma que o sentido mais preciso, a respeito do qual se pode enumerar uma substância, sem que este seja parte dela, é o lugar, ou aquilo que a contém. Ou seja, o lugar não é parte das substâncias ou dos corpos, mas é aquilo que os circunda e os situa no espaço. Na concepção aristotélica, portanto, o “lugar” possui uma realidade autônoma. Esta noção prevaleceu durante toda a antiguidade e foi um dos fundamentos da física aristotélica e, sobretudo, de sua cosmologia geocentrista: o lugar que a Terra ocupa no Universo é central.

Bem diferente é a concepção moderna, para a qual o lugar não difere dos corpos: o lugar… “nada significa de realmente diferente dos corpos que afirmamos estarem em algum lugar, e indica apenas seu tamanho e forma, e como estão situados entre os outros corpos”. (ABBAGNANO). Embora diferentes e, aparentemente, antagônicas, as duas concepções (aristotélica e moderna) apresentam um fundamento comum: são noções meramente espaciais e objetivas de lugar, não consideram a subjetividade.

Quais seriam as implicações subjetivas do conceito “lugar” que “escapam” à definição objetiva? São aquelas que se referem à maneira como os indivíduos vivenciam a experiência: tudo aquilo que acontece, acontece em determinado lugar, deixando uma marca característica. Tudo o que existe, ocupa um lugar, tanto objetivo e quantitativo, quanto subjetivo e qualitativo. “… o papel do lugar é determinante. Ele não é apenas um quadro de vida, mas um espaço vivido, isto é, de experiência sempre renovada” (SANTOS).

Como exemplos desta dimensão subjetiva de lugar, podemos citar comportamentos e “falas” comuns: uma pessoa que rompeu um relacionamento amoroso e sente-se abandonada, pode dizer: “aquela pessoa ocupa um lugar que era meu, na vida do meu ex-parceiro”, ou uma pessoa que está prestes a ser removida do seu lugar de origem, em virtude da construção de uma barragem, ou outro grande empreendimento, pode dizer: “eles estão nos tirando do lugar em que nascemos e construímos nossas vidas e do qual extraímos as nossas recordações, levando-nos para um lugar com o qual não nos identificamos”. Neste último exemplo, além das diferenças espaciais dos dois “lugares”, o que mais marca a diferença entre ambos, na subjetividade da pessoa removida, é a dimensão da vivência, da experiência. É por isto que o “lugar” exige, fundamentalmente, um ponto geográfico, um sentimento (subjetivamente localizado – um “endereço” psíquico) e uma reflexão (filosófica) sobre o encontro de ambos, do objetivo e do subjetivo, que constitui o primado “psicomórfico” do conceito. Sob a ótica da subjetividade, portanto, “lugar” é: “uma localização geográfica significativa, que implica em sentimentos e requer uma reflexão”.

O que se busca no presente texto é a investigação do conceito “lugar” sob o ponto de vista de que ele não pode ser concebido “a priori”, sem a existência do sujeito. Não porque é o sujeito que o concebe, o que seria óbvio, mas em um sentido semelhante ao que permite pressupor, “a priori”, a existência do espaço. Ou seja, é possível pensar o espaço sem a interferência humana, mas não o lugar. O lugar é o espaço humanizado, é um centro de significados e significações que só existem no entendimento humano. Esta proximidade entre o humano e o lugar permite estabelecer um paralelo ontológico entre ambos: o ser do indivíduo humano se assemelha ao ser do lugar. Assim como o homem, o lugar exige uma identidade, um nome. O lugar possui uma extensão corpórea, uma localização geográfica, na mesma medida em que os seres humanos possuem um corpo. O lugar possui uma história e uma “biografia”, assim como o humano. Do ponto de vista da subjetividade, não é muito diferente o querer estar com alguém, do querer estar em algum lugar:

As pessoas estabelecem com o lugar os mesmos laços que estabelecem com os seus semelhantes. Amam e odeiam, desejam e evitam, elogiam e caluniam, conhecem e reconhecem, lembram e esquecem. As grandes obras da criação humana fazem referência a lugares: a República, de Platão, descreve uma cidade perfeita; os livros de Júlio Verne descrevem lugares exóticos e inexplorados; na literatura brasileira imperam os regionalismos, as descrições detalhadas de lugares e personagens, numa síntese entre literatura e geografia humana, na qual se destacam, dentre outras, obras como “Terras do Sem Fim”, de Jorge Amado, “Grande Sertão: Veredas”, de Guimarães Rosa e “Vila dos Confins”, de Mário Palmério, da qual extraímos o parágrafo a seguir:

Contava-se a coisa assim. Há mais de duzentos anos, ponta desgarrada de catadores de ouro descobriu a aluvião do Morro Redondo nas nascentes do rio do Caracol. A notícia correu, levantou-se a rancharia, instalou-se a mina. E tal a quantidade de ouro em pó carregado pelas enxurradas das vertentes do morro e depositada na areia do ribeirão, que Mina Velha virou corrutela importante, com igreja, sobrado e tudo. Mas lá um dia – a explicação mais acertada é a da barbaridade dos brancos – os índios revoltaram-se e botaram fogo no povoado: acabaram mesmo com o garimpo. Se alguém sobrou da carnificina, esse nunca mais pôs pé naquelas bandas conflagradas nem convenceu ninguém a fazê-lo. E a mata tomou conta de tudo: virou virgem outra vez.

Em um único parágrafo, observemos quantos lugares diferentes são citados, revelando uma riqueza “geográfica” na narrativa que merece ser investigada. Outros domínios da experiência humana também destacam lugares, sob o ponto de vista do que estes representam. Os Beatles, por exemplo, imortalizaram vários em suas canções. A música “Strawberry Fields Forever”, retrata um lugar em Liverpool no qual John Lennon brincava na infância e que se transformou num dos pontos do roteiro turístico “beatlemaníaco” da cidade. Ou seja, o que era uma experiência individual de Lennon, foi alçado a uma dimensão universal, diante do sucesso da banda e da canção. E é também dos Beatles a música “In my life”, que faz um elogio ao lugar e à memória deste, quando diz: “Há lugares dos quais vou me lembrar por toda a minha vida, embora alguns tenham mudado. Alguns para sempre, e não para melhor. Alguns se foram e outros permanecem”. (Lennon e McCartney)

 No Brasil, uma esquina foi imortalizada na música “Sampa”, de Caetano Veloso: “Alguma coisa acontece no meu coração. Que só quando cruza a Ipiranga e a avenida São João”. (Sampa, Caetano Veloso)

 Além disso, há também os lugares que foram eternizados pela história, tanto por aspectos religiosos e espirituais, como Stonehenge, na Inglaterra e Machu Picchu, no Peru; por motivos estéticos e turísticos, como a Torre Eiffel, em Paris e a Ponte Golden Gate, em São Francisco (EUA); lugares de beleza natural, como as Cataratas do Iguaçu, no sul do Brasil e o Grand Canyon, no Estado do Arizona (EUA). Bem como lugares que foram eternizados por expressarem os extremos da crueldade humana, como Auschwitz, na Alemanha, Hiroshima e Nagasaki, no Japão e o Word Trade Center, em Nova Iorque (EUA).

Todos estes exemplos revelam a humanidade do lugar, o que explica porque as remoções, os exílios e os deslocamentos forçados são, via de regra, tão complexos e traumáticos. É possível retirar, forçadamente, uma pessoa do seu lugar de origem ou de permanência, mas é impossível tirar este mesmo lugar de dentro da pessoa.

Este texto é um extrato dos resultados preliminares de minhas pesquisas sobre o “lugar”. Aqueles que quiserem as citações completas e/ou mais informações sobre o tema, podem enviar e-mail para pauloirineu@gmail.com

Imagens e gráficos: Paulo Irineu. Exceto “Ipiranga com São João”, de  “saopauloparainiciantes.com.br”

Paulo Irineu Barreto

Paulo Irineu Barreto

É escritor e Professor do IFTM. Doutor em Geografia Humana e Cultural e Mestre em Filosofia Política e Social. Pesquisa e escreve sobre Cultura, Educação, Filosofia, Geofilosofia, Geografia e Política.

3 Comentários
  1. Olá Cires,

    agradeço imensamente o seu comentário, que me incentiva mais ainda a continuar nesta incursão, como você bem lembrou, atrevida!

    Grande abraço!

  2. Paulo Irineu, belíssimo e contundente artigo, se este for uma impressão de estudos em sua fase preliminar, intuo que, ao final teremos um peça ainda mais contundente e, pelo menos, igualmente bela.

    A conexão entre Geografia e Filosofia realmente se impressionante quando quando o conceptor desta conexão evoca os grandes filósofos da antiguidade, Aristóteles e Platão.

    Aguardo mais resultados desta sua incursão atrevida.

    Parabéns por enquanto

Seu comentário é importante!

Your email address will not be published.

Você pode usaratributos e tags HTML: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <s> <strike> <strong>