Sobre a necessidade de se estar com a razão!

Sobre a necessidade de se estar com a razão! (A propos de la nécessité d’avoir raison)

Em uma quinzena marcada por ataques homicidas em Paris e, mais proximamente a nós, pelo rompimento das barragens na região de Mariana (MG), parece até heresia escrever sobre outro assunto que não seja um desses. As redes sociais virtuais que o digam, pois viraram palco de disputas sobre qual dos eventos é mais importante e qual deles merece, ou não, o destaque (avatar) no perfil dos usuários brasileiros, sobretudo os mineiros.

paris-frança-rio-doce

Não há como questionar a gravidade dos eventos e de suas consequências e devemos nos solidarizar com todos, na mesma medida. No entanto, a repercussão desses episódios pode nos ensinar muito sobre nós, brasileiros, e sobre a nossa própria autoimagem.

A primeira questão que me ocorre é a seguinte: “Será que os franceses estão preocupados ou comovidos com o ocorrido em Mariana, Minas Gerais, na mesma medida?”. Creio que não. Mas isto é compreensível, pois somos nós que estamos, há centenas de anos, aprendendo e reproduzindo informações sobre eles. Não faço essa referência em termos de disputa, ou de valor, pois, insisto, uma vida humana é uma Vida Humana em qualquer lugar que esteja. Faço a questão do ponto de vista cultural. E várias são as questões que surgem:

Os franceses sabem sobre Tiradentes (1746 – 1792) tanto quanto nós sabemos sobre Robespierre (1758 – 1794)? Será que eles sabem sobre Antônio Francisco Lisboa, o Aleijadinho (c. 1738 – 1814), tanto quanto nós sabemos sobre Debret (1768 – 1848)? Qual o autor brasileiro eles conhecem e estudam, na mesma medida em que nós conhecemos e estudamos Descartes ou Sartre? Alguma avenida brasileira é conhecida e falada entre os franceses, tanto quanto a “Champs-Élysées” é conhecida e falada entre nós?

As questões acima são difíceis de serem respondidas, pois uma parte considerável dos brasileiros pode desconhecer tanto Tiradentes, quanto Robespierre; tanto Aleijadinho, quanto Debret. E o risco ao qual estamos sujeitos, se aprofundarmos essa discussão, é o de cairmos em alguma armadilha do “politicamente correto”, sob a pecha de preconceituosos.

Entretanto, o que mais chama a atenção nesse comportamento, nessa disputa entre qual dos eventos merece mais destaque, é que ele reforça uma atitude dualista, presente no senso comum, de polarizar as questões, de transformar tudo em “sim ou não”; “certo ou errado”. O que está em jogo já não é mais Paris, ou Mariana, e sim uma opinião, ou representação, sobre Paris e Mariana, muito pouco efetiva, no que tange às reais necessidades, tanto dos mineiros atingidos pela catástrofe, quanto dos franceses. Em suma: um retorno ao maniqueísmo. Por que não podemos pensar de forma dialética e admitir que é possível a sensibilização com ambos os eventos, sem que isto seja um contrassenso? E, além disso, por que não lembrar de que existem muitos outros que merecem a nossa atenção? Será esse o comportamento que nos define? Por que essa necessidade tão premente de se ter razão?

Tudo indica, no atual dilema Mariana-Paris, é que os fatos não são tão relevantes, poderiam ser outros, como já foram no passado, mas o que prevalece é essa necessidade que cada um tem de se sobrepor sobre o outro, de demonstrar (com argumentos, ou à força) que o seu ponto de vista é melhor, que a sua preocupação é mais justa.

Ainda assim, prefiro pensar que todas essas discussões valem mais do que a indiferença e, quiçá, possam nos levar à compreensão de que mais vale uma dúvida sincera, do que milhões de certezas mal digeridas.

Fontes das imagens:
Rompimento das barragens: uol.com
Paris: exame.abril.com.br

Paulo Irineu Barreto

Paulo Irineu Barreto

É escritor e Professor do IFTM. Doutor em Geografia Humana e Cultural e Mestre em Filosofia Política e Social. Pesquisa e escreve sobre Cultura, Educação, Filosofia, Geofilosofia, Geografia e Política.

Sem comentários; deixe o seu:

Seu comentário é importante!

Your email address will not be published.

Você pode usaratributos e tags HTML: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <s> <strike> <strong>