Sobre a “Primavera Brasileira”

Não é fácil escrever sobre o presente. A ligação entre os eventos e a interpretação destes é tão tênue, que pode facilmente se romper. No entanto, não podemos nos eximir da responsabilidade de tentar descrever e compreender os fatos. Alguma coisa está acontecendo no Brasil!

Iniciado nas redes sociais, como uma manifestação contra o aumento dos preços das passagens de ônibus na cidade de São Paulo, o movimento, que ganhou a denominação de “Primavera Brasileira”, tomou proporções maiores, agregou novas reivindicações e invadiu as ruas do país.

 

O movimento não pode, ainda, ser chamado de Revolução e deve ser visto com um olhar de aprovação e outro de crítica, ao mesmo tempo. De qualquer forma, é um movimento legítimo que denota a insatisfação de uma grande parcela da população. As principais reivindicações são, além da redução dos preços das passagens do transporte público, a não aprovação da PEC 37; o fim das discussões, e não aprovação, da PEC 33; priorização dos serviços públicos de Saúde, Educação, infraestrutura e geração de empregos; a destituição (ou renúncia) dos cargos dos políticos condenados por corrupção e por terem as “fichas sujas” e o combate à corrupção, no geral, além de outras reivindicações próprias de casa cidade em que foram realizados atos de protesto.

Apesar de ser declaradamente um manifesto pacífico e que denota patriotismo, os manifestantes e a população têm enfrentado a ação de extremistas que, movidos por maior violência, têm causado tumultos, principalmente nas grandes cidades. Estes, felizmente, são minoria e ainda não foram capazes de transformar todo o movimento em um ato violento. A população reconhece isto. Em alguns casos, a Polícia interferiu e em algumas cidades em que os confrontos entre os manifestantes mais exaltados e a Polícia têm sido mais violentos, como é o caso de São Paulo e Rio de Janeiro, já foi considerada a intervenção das Forças Armadas.

Pairam sobre o movimento algumas desconfianças, de que pode ser um ato premeditado, visando abalar o Governo, já “de olho” nas eleições do ano que vem, ou então se trata de oportunismo de certos setores, uma vez que os olhares do mundo estão dirigidos para o Brasil, devido aos grandes eventos que serão realizados nos próximos anos. Outros acusam de ser um movimento da classe média, revoltada com a perda do poder aquisitivo, pela ameaça da inflação. Bom, isto só o tempo poderá nos dizer. De qualquer forma, mesmo que se tratasse de um movimento de uma classe, o que não é o caso, ele já estaria justificado, pois é a classe média, na qual me incluo, que têm mantido este país funcionando, pagando altos impostos, mantendo uma máquina administrativa onerosa e ineficiente e arcando com os custos da má administração e da corrupção.

Outra característica marcante deste movimento é o seu caráter declaradamente apartidário o que, por um lado, demonstra uma surpreendente rejeição a uma conquista da democracia, que é a possibilidade de diferentes ideologias coexistirem. Ao mesmo tempo, no entanto, denota o desgaste da política partidária no Brasil e o descrédito da população para com os partidos, em um país que passou a vivenciar gradativamente o fim da oposição.

Em Uberlândia, o ato do dia 20 de junho teve início na Praça Clarimundo Carneiro, às 17 horas, e contou com mais de 30.000 pessoas (estimativa veiculada nos meios de comunicação locais) que se movimentaram pacificamente até a sede da Prefeitura Municipal (Centro administrativo). A caminhada durou cerca de 90 minutos e poucos foram os focos de distúrbios. Ao final do ato, o Prefeito Gilmar Machado recebeu um pequeno grupo de manifestantes, para um diálogo. Estes ficaram responsáveis por se reunirem com representantes dos diversos setores, para elaborarem uma pauta de reivindicações ao Poder Público Municipal.

No meu caso, e sei que para muitos de minha geração, participando do ato, não foi possível resistir à tentação de comparar com acontecimentos passados, como o movimento “Diretas Já”. Particularmente, vivi os “dois lados” da questão. Em 1984, estava nos protestos na Praça Sérgio Pacheco, quando os soldados da PM e do 36º BIMtz chegaram ao local, mas tal como agora, a manifestação foi pacífica. Dois anos depois, eu estava servindo no Batalhão de Polícia do Exército de Brasília e, no dia 28 de fevereiro de 1986, quando o Presidente José Sarney e sua equipe econômica instituíram o Plano Cruzado, foi a minha vez de, armado de capacete e cassetete, cumprir o meu dever de Soldado e Policial e o fiz, embora também tivesse vontade de estar entre o povo. Por isso, sei que situações como esta não devem ser menosprezadas. Vivemos em um país maravilhoso, rico, belo, construído por pessoas trabalhadoras, não é possível que não consigamos transformá-lo em uma sociedade justa de fato.

Finalizando, peço aos leitores que desconsiderem os erros, pois o texto foi escrito na companhia da madrugada e a sua urgência não permite a revisão costumeira.

Deixo um recado final para aqueles que têm se demonstrado totalmente contrários ao movimento: não sejam tão céticos! Pode ser que o protesto não passe de um “furor momentâneo”, mas mesmo assim, é, no mínimo, oportunidade de uma boa aula prática sobre democracia e civismo para os nossos alunos e filhos!

Acreditemos que o movimento seja o início de um novo momento para o Brasil. O recado das ruas está dado: o povo está se tornando consciente do seu poder!

Imagens: Paulo Irineu

Paulo Irineu Barreto

Paulo Irineu Barreto

É escritor e Professor do IFTM. Doutor em Geografia Humana e Cultural e Mestre em Filosofia Política e Social. Pesquisa e escreve sobre Cultura, Educação, Filosofia, Geofilosofia, Geografia e Política.

4 Comentários
  1. Olá Renato,

    Obrigado pelo feedback!
    Concordo com você, a negação por completo dos partidos é, de certa forma, um problema para a Democracia. E quanto à imprensa (principalmente a Rede Globo) fica evidente que as edições de reportagens e imagens deixam dúvidas quanto às reais intenções!
    Sou favor do movimento, da iniciativa, mas é preciso organizar, definir objetivos.
    A luta não é contra um Governo específico, mas contra uma história e uma “cultura” de corrupção.
    Grande abraço!

  2. Belíssimo texto!
    Concordo com quase tudo!
    Mas faço duas observações, de temas não tratados diretamente:
    1. Assusta-me bastante a confusão generalizada de uma enorme parcela dos manifestantes no sentido de não conseguir identificar os problemas. E de não discernir entre o que se poderia chamar de existência de uma estrutura institucional para manutenção da democracia e o seu “uso” cotidiano por pessoas, partidos, políticos, etc. Em outras palavras, considero que seria muitíssimo importante que os manifestantes entendessem que o funcionamento atual de partidos políticos, poder executivo , judiciário e legislativo (todos nos 3 níveis) está totalmente equivocado, corrupto, cego e insensível às demandas mais legítimas e primárias de uma população, mas que, por outro lado, a existência dessas instâncias é o que fortalece uma democracia. Então seria preciso lutar por mudanças dentro da estrutura, e não pela explosão dela.
    2. Parece-me muito evidente a perigosa manipulação dos acontecimentos feita pela Rede Globo nos últimos dias. A nojenta emissora tem mostrado, EXCLUSIVAMENTE, o lado ruim das manifestações, as partes violentas e arruaceiras delas. E tem relacionado descaradamente esses “problemas” com a gestão petista atual do governo federal e particularmente com a presidenta Dilma. Caríssimos, não nos iludamos: O PROBLEMA NÃO É ESSE!!! É muito mais difuso, secular e intrincado em instâncias variadas das instituições governamentais do país e em instâncias com nada de governamentais também. Tenhamos cuidado! Não sejamos tão ignorantes e ingênuos, independentemente de nossas tendências ideológicas e partidárias, para aceitamos essa relação superficial e canalha que a Rede Globo, mais uma vez interferindo de maneira nefasta na história do país, coloca atualmente.

  3. Equipe do Página Cultural, obrigado pela edição e formatação do texto.
    Ficou primorosa!
    Abraços

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