Sobre Giordano Bruno!

Paulo Irineu Barreto, em Roma – Itália

Este post é o relato de uma experiência pessoal, uma crônica.

Hoje realizei um propósito de longa data: visitei, entre outros lugares célebres da histórica Roma, o Campo de’ Fiori, com o objetivo de conhecer a estátua de Giordano Bruno e render uma homenagem ao filósofo nolano. Por isso, começo este texto com palavras que introduzem a importância de Bruno:

“Durante mais de mil e quinhentos anos, a cosmologia e a astronomia ocidentais foram dominadas pela concepção ptolomaico-aristotélica e milhões de pessoas nasceram, viveram e morreram acreditando que estavam no centro do Universo. Embora essa visão tenha assumido, no contexto do pensamento cristão, um valor de dogma religioso inquebrantável, sobre o qual muito se tem escrito ao longo dos séculos, o seu principal fundamento não é a fé, mas sim a experiência sensível.

Imagine Ptolomeu, e os seus contemporâneos, caminhando pelas ruas de Alexandria, nenhum deles sentia a si mesmo girando junto com o planeta Terra. No entanto, podiam perceber que os astros visíveis, o Sol, a Lua e as estrelas, mostravam uma regularidade muito grande na maneira como se tornavam visíveis para nós, tornando a ideia de que eles giravam ao nosso redor muito plausível. Apesar do erro de tal afirmação, a cosmologia de Ptolomeu continha elementos brilhantes que lançaram muitas luzes sobre o entendimento humano.

Muitos séculos depois de Aristóteles e Ptolomeu, Copérnico foi o primeiro a ousar propor uma visão diferente da concepção anterior, embora tenha esperado muito tempo para publicar suas ideias, devido às conhecidas imposições e restrições de ordem religiosa da época, cuja abordagem escapa das nossas intenções. O fato é que a proposta de Copérnico mudou totalmente a percepção do Universo e implicou em graves consequências para todo o conhecimento humano, como atestou, séculos depois, o filósofo Immanuel Kant.

Com Copérnico, a humanidade começou a superar a visão geocêntrica e a ampliar os horizontes de sua compreensão do Universo, mas o caminho a percorrer ainda seria muito longo.

Causa admiração, no entanto, que no momento em que o Heliocentrismo era apresentado como teoria revolucionária, apareça um filósofo e ex-monge, que já havia sido expulso de vários países da Europa e excomungado por inúmeras ordens religiosas, a propor uma concepção de Universo ainda mais revolucionária: a infinitude do Universo e a possibilidade de existência de outros mundos. O nome deste filósofo é Giordano Bruno.

Giordano defendia a noção de que o Universo é infinito e ilimitado e a Terra, portanto, não ficaria no seu centro. Além disso, Bruno defendia a possibilidade da existência de vários planetas com condições de abrigarem vida inteligente, uma afirmação ainda polêmica para os dias de hoje, mais de quatrocentos anos depois de sua morte.

Não estaria a infinitude do Universo, defendida por Bruno, relacionada com algumas teorias mais recentes, como a do Big Bang (grande explosão), que afirma que o Universo teria surgido de um estado original de densidade extrema? Essa teoria fundamenta-se na observação de que o Universo está em expansão, a partir de um ponto inicial. Bruno, por outro lado, talvez pensasse além do Big Bang, pois defendia a existência de um princípio anímico, uma “alma do mundo”, que pode ser entendida como a defesa do panteísmo, ou seja, a participação de Deus na criação. Deus não é um ser existente fora daquilo que ele criou, mas está presente em tudo. A infinitude do Universo, fundamento de sua cosmologia, é, portanto, a manifestação da natureza do Criador. O homem, como parte da criação e de Deus, pode penetrar nos seus mistérios. Essa é a “porta” para o aspecto desafiador de Giordano Bruno, que o levou à morte”.

(Ensaio sobre The Dark Side of the Moon e a Filosofia)

Retorno à experiência sabendo, pela literatura e por diversas mídias, que o lugar dedicado à estátua de Giordano Bruno é o mesmo no qual ele foi executado, queimado na fogueira, em 1600. E também é de conhecimento geral o fato de que o local abriga uma feira. No entanto, após a emoção do primeiro contato com o monumento, cujas dimensões são muito maiores do que eu imaginava, o primeiro sentimento pelo qual fui tomado foi um misto de indignação e decepção. Disputando a atenção das pessoas no seu próprio espaço, a estátua fica em segundo plano. Durante os trinta minutos que permaneci no local, das centenas de pessoas que frequentavam a feira, contei apenas três que perceberam e fotografaram a estátua.

giordano

A estátua de Giordano não tem o mesmo cuidado de outros monumentos históricos, que ficam isolados e em destaque e podem ser vistos e admirados à distância (a não ser em dias em que não há feira). Nem sequer reservaram um espaço livre à frente (da estátua) de Giordano, e as barracas estão à distância de um metro à sua frente. O único espaço reservado está atrás da estátua, pois as barracas mais próximas às suas costas estão a cerca de dez metros. Ao redor da estátua, o burburinho do comércio. Nada contra o mercado, pois reconheço a sua importância econômica e histórica, mas as preocupações imediatas e a superficialidade das relações estabelecidas ali se assemelham àquelas contra as quais Giordano se posicionou: o descaso, a vaidade, a hipocrisia e a distração. Atitude que lhe custou a vida.

Após conter a emoção e refletir, ainda no local, sobre a experiência de conhecer a estátua em homenagem a Giordano Bruno, o sentimento de indignação começou a ser substituído por uma suave resignação. A impressão que tenho é a de que, se estivesse vivo, aquele seria o lugar que Giordano Bruno escolheria para ficar, para continuar a incomodar as pessoas com as suas indagações, com a coragem e com o compromisso com a liberdade de pensamento e expressão que lhe custaram a vida, mas lhe conferiram a imortalidade.

Paulo Irineu Barreto

Paulo Irineu Barreto

É escritor e Professor do IFTM. Doutor em Geografia Humana e Cultural e Mestre em Filosofia Política e Social. Pesquisa e escreve sobre Cultura, Educação, Filosofia, Geofilosofia, Geografia e Política.

2 Comentários
  1. Olá Cesar Cruz,
    obrigado pelo comentário.
    Estou no face… nos encontramos “lá”!

    Abraços!

  2. Sensacional artigo, Paulo! Parabéns! Vê-se que a estupidez e o descaso humano em relação à história, arte e cultura não é exclusividade dos brasileiros!

    Abção

    em tempo: vc está no facebook? Me ache lá, se estiver, como “Cesar Cruz escritor”

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