Sua majestade, a identidade

Bernardo Carvalho, colunista do jornal Folha de São Paulo, certa vez escreveu: “Só se fala em identidade quando ela faz falta. E quando falta alguma outra coisa. A identidade, seja ela em que âmbito for, costuma ser um assunto deslocado, um substituto, a miragem de um porto seguro, um cano de escape, a promessa de um alívio para a falta de sentido e para o mal-estar dos indivíduos no mundo e em sociedade”. Talvez seja por isso, ou seja, por se mostrar um objeto um tanto quanto abstrato e vulnerável, que o tema identidade cultural seja tão complexo e de difícil desdobramento.

Para se fomentar um discurso concernente à existência de uma identidade cultural e de uma cultura nacional, é preciso compreender a formação sócio-cultural, política e econômica do nosso povo. Faz-se necessário o entendimento ideológico de todas as suas significações e representações, tendo em vista que o conceito de cultura e de dinâmica social estão historicamente ligados; assim, pode-se elaborar uma análise mais objetiva e crítica de toda a nossa herança cultural.

A partir do momento em que se dá o processo de aculturação, de intercâmbio de valores e de culturas, fica mais difícil trabalhar a questão do que vem a ser uma cultura nacional, com seu conjunto de valores particulares e expressivos. Lendo Darcy Ribeiro, é possível perceber que ele coloca a cultura em um ângulo privilegiado, no qual qualquer sociedade é, ou pode ser, gerada (reconhecida) a partir do seu acervo patrimonial e representativo. A cultura, segundo o autor, é uma forma totalmente perceptível; todavia, ao mesmo tempo encaixa-se num aglomerado extremamente particular, de caracteres natos.

A identidade cultural, assim como a cultura em si, tem no homem o seu maior constituinte, pois é ele que se constrói e ao mesmo tempo constrói a cultura que posteriormente o constituirá. Considerando a linguagem, a religião, as crenças e os valores como sendo componentes fundamentais da cultura, e também como modos padronizados e instituições reguladoras da mesma, fica praticamente impossível a concepção de uma identidade sem reconhecermos a presença de uma padronização que se insere factuando o processo de assimilação do povo “oprimido”, em decorrência do poderio do mais favorecido.

Pensar em “um Brasil” e em “um brasileiro” é enveredar-se num processo marcado por conflitos ideológicos e físicos. É preciso se ater ao quesito “nação” (conceito mais político), como também à produção de uma cultura brasileira por parte da comunicação nacional, já que o cinema – para servir de espelho -, entre outros meios, é um fator preponderante na construção de uma identidade cultural e uma identidade nacional.

Sabe-se que o território brasileiro permitiu uma penetração cultural de proporções colossais e de maneira bastante facilitada. Aqui se misturaram brancos, negros, amarelos, índios, entre tantos outros povos/raças que, por sua vez, fizeram coexistir inúmeras crenças, valores, significados, línguas e representações. Esses aspectos denotam que, por mais que haja uma personalização e uma individualidade, existirá sempre perspectivas semelhantes referentes à percepção de um território cultural.

Para poder dominar outros povos, as pessoas tiveram de aprender o verdadeiro significado da palavra “diferença”, assim como os “dominados”, necessariamente, tiveram, também, a obrigação de descobrir o significado da palavra “diversidade” e da palavra “identidade”, pois somente nos tornamos seres sociais a partir do momento que nos adentramos na sociedade e a sociedade, por conseguinte, penetra em nós.

A nacionalidade é o que forma a nação, como também é algo intencionalmente produzido. A cultura vem para tornar concreto o Estado brasileiro. A cultura identifica as pessoas e é preciso constituir um fator preponderante para a descoberta de uma nacionalidade própria. Mesmo com toda a diferença existente, ainda compartilhamos de uma ordem comum, e esse compartilhamento é de razão obrigatória. A partir desse pensamento, é possível, e mais notável, imaginarmos uma identidade cultural e uma nacionalidade conquistada através de uma ação de cultivo, uma expressão que se produz cultivando.

A cultura no Brasil emerge com a consolidação de uma classe burguesa na primeira metade do século XX. O afloramento de uma nacionalidade confunde-se com a aceleração no desenvolvimento das relações capitalistas com o crescimento quantitativo e qualitativo da burguesia e do proletariado. Esse período é caracterizado por uma efervescência política e um forte embate ideológico que acaba refletindo nos distintos campos de expressão cultural. É nesse contexto que vai emergir, também, a posição do regionalismo como cultura, o que abarcou uma leva de aspectos político-culturais. E, novamente, enxerga-se a presença e participação dos meios de comunicação como instrumentos e veiculadores da cultura nacional/regional, influenciando o todo através da formação e expansão de uma cultura de massa.

Toda espécie de interação social é de fundamental importância para a “fabricação” de uma cultura de indentidade e de uma nacionalidade brasileira, já que se identificar é produzir um espaço social próprio. O nordeste, nesse cenário, surge para reclamar o reconhecimento de seu espaço, numa manifestação muito tardia. A edificação dessa identidade nordestina, muito atrelada a ação do cinema, foi e ainda é de uma complexidade única.

É sobre a ótica que acredita na existência dicotômica entre litoral e sertão, deixando de lado a representatividade européia relacionada às experiêncas históricas, valorizando as visões inerentes à América, que Nísia Trindade lima, autora do livro “Um sertão chamado Brasil: intelectuais e representação da identidade cultural”, vai trabalhar. Esse contraste em relação ao território de uma nação, dando características e identificando-os diferentemente, não é fato exclusivamente brasileiro: “Podemos lembrar, entre outras, a linha divisória entre o oeste e o leste alemães, que mereceu a atenção de Max Weber, a questão meridional na Itália, tal como a abordou Antônio Gramsci, além da busca incessante da historiografia americana pela especificidade do sul (Lima, 1999)”.

A posição em que o regional se encontra – quase sempre às margens do processo civilizatório, subjugado à condição de “barbárie” – marca o debate concernente ao posicionamento de uma identidade nacional brasileira. Aqui, o conceito de “fronteira” se destaca por ter uma importância muito grande para que se desenvolva tais estudos, predizendo que fatores geográficos exercem um papel fundante e de primeira instância na produção de conceitos identitários. No caso do Brasil, esse conceito de fronteira deve ser substituído pelo de “sertões”.

Os processos de tentativa de se explicar a formação de uma cultura de identidade no Brasil são muito semelhantes: “Em ambos os casos, temos um espaço de contornos geográficos pouco definidos, representado como lugar onde se desenvolveria o mais típico de identidade nacional (Oliveira, 1996).” Só que este pensamento não é compartilhado por todos os estudiosos do assunto, o que faz com que haja alguns intelectuais pensando e refletindo em uma enorme diferença quanto as experiências brasileiras e norte-americanas, por exemplo. “Nos Estados Unidos da América do Norte teríamos com o movimento de fronteira a universalização do núcleo inicial de origem puritana – contribuindo para o deslocamento populacional e para a mobilidade social desse núcleo -, enquanto, no Brasil, fronteira implicou, em grande parte, a simbiose de paisagens, pessoas e culturas. Talvez a evidência mais expressiva desse contraste esteja nos diferentes sentidos atribuídos à palavra fronteira entre os norte-americanos e os brasileiros. A palavra que indica mobilidade, para os primeiros, chegou a ser usada, no Brasil, com referência a pessoas. Os homens eram “fronteiros”, vivendo o encontro de hábitos, de etnias, de linguagem, em suma, de culturas. Daí que a figura mais representativa, esse homem fronteiro, visto especialmente como produto do encontro do português e do indígena, seja identificada em diferentes textos com a figura do sertanejo (Lima, 1999)”.

É impossível estudar a cultura brasileira sem considerar o fator regional, que sempre, ou na maioria das vezes, é refletida às outras partes do país e do mundo de maneira preconceituosa e muitas vezes inverídica. Há uma caracterização do fator regional – sob uma ótica extremamente mercantil – que leva a uma desconfiguração de seus elementos mais reais, dando-lhe o caráter cômico e/ou de aberração. Isso faz transparecer uma espécie de isolamento das partes interioranas do Estado brasileiro; uma forma de exclusão que marcou e ainda marca a nossa história. “O isolamento em que vivemos não foi apenas do Brasil em relação a outras nações durante todo o período colonial, mas no interior da unidade nacional, entre diferentes grupos e instituições (Azevedo, 1958)”.

“O desconforto não se encontra apenas frente aos brasileiros do interior; ele está fundamentalmente no intelectual que também se coloca como estrangeiro – em relação aos habitantes rústicos do interior e aos valores dos copistas que tomam outra civilização de empréstimo e perdem de vista a autenticidade da nacionalidade brasileira (Lima, 1999)”. Percebe-se, aqui, a importância e a capacidade de influência dos meios comunicacionais, tanto do cinema (já abordado) quanto da televisão, do rádio e também dos meios impressos. Este último, onde se insere de maneira mais abundante e original a literatura, permite a visualização dos diferentes tempos históricos e contextos físico-políticos em que as manifestações culturais regionais estiveram presentes, sofrendo mudanças – “enfatizando a busca por uma caracterização autêntica do homem do interior e questionando aqueles que associem de forma simplista regionalismo e conservantismo (Lima, 1999)”.

Fica então um tanto que dificultoso e sublinhado os meandros da formação identitária nacional; uma identidade cultural que descarta as inúmeras possibilidades do espaço regional, e que é gerada a partir da visão segregadora de intelectuais parciais, por uma mídia alienante e por um outro Brasil que ainda não aprendeu a se valorizar.

* Peço desculpas, mas perdi a última folha desse texto, na qual estava contida toda a bibliografia estudada. Fico em débito com vocês, pois. Este texto data de 12 de dezembro de 2005.

Germano Xavier

Germano Xavier

Mestre em Letras, jornalista profissional (DRT BA 3647), escritor e coordenador geral do Jornal de Literatura e Arte O EQUADOR DAS COISAS.

2 Comentários
  1. Uns dos maiores fatores para a existência da identidade nacional é o fato de a língua portuguesa ser comum a todo o território, apesar de suas particularidades regionais. A língua seria então um elemento no conjunto de elementos culturais comuns que são constitutivos da cultura nacional. Outra coisa que contribuiu para essa identidade foram as obras de José de Alencar, um exemplo de aliar a imagem da nação brasileira às suas belezas naturais, como também a mitificação do indígena como componente principal da nação brasileira.a entrada cada vez maior do capital estrangeiro na economia e a apresentação de um ideal de modo de vida cada vez mais próximo do estadunidense influenciaram o processo contínuo de formação da identidade nacional, momento ainda vivenciado no século XXI.

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