Trevo

– Bom, o que a gente já esperava foi confirmado hoje no comunicado que a prefeitura fez no jornal: nossas terras foram desapropriadas e vão nos pagar preço de banana. Uma merreca.
– Ai, ai, ai. Tá sacramentado mesmo, é? Bem, mas pelo menos vamos poder explorar algum negócio no entorno do novo trevo. Tá lá no edital de desapropriação. Temos a indenização e o direito de abrir comércio ou serviços nas imediações, como compensação pelo baixo preço que a prefeitura vai pagar.
– Sei… um negócio ao redor de um trevo rodoviário? O que é que pode ir pra frente num entroncamento de trânsito rápido? É área de passagem, o cara tá preocupado com o caminho que ele tem que pegar.
– Eu pensei em um empreendimento que tenha a ver de alguma maneira com o próprio trevo. Nem tanto com a função, mas com a forma e o significado dele.
– Nossa… nebuloso esse seu raciocínio, heim?
– Imagina só, já tenho até o nome: “Trevo da Sorte”. Uma moderna e vistosa lotérica. Quem trabalha ou mora nas vizinhanças do anel viário não precisará mais ir até a cidade fazer suas apostas. Além disso, as lotéricas também são postos de pagamento de contas. Conveniência pra população das vilas nas adjacências.
– Ah, agora entendi. É pra quem mora perto, não pra quem trafega pelo trevo. Pensando bem… podemos abrir quatro lotéricas, uma em cada alça do trevo – assim os moradores dos arredores têm que andar ainda menos pra fazer sua fezinha. Mas olha, indo por essa sua lógica, a gente também poderia abrir um viveiro de plantas pra vender trevo de quatro folhas. Aí então, um negócio puxa outro. O sujeito passa no viveiro, compra o seu trevinho e depois vai pra lotérica fazer seu jogo. Tudo amarrado. É o chamado Cross Marketing!
– Isso! Montamos uma verdadeira holding. E dando certo a estratégia levamos a experiência vencedora a outros trevos pelo Brasil afora, quem sabe até abrindo sistema de franquia…
– Espera aí, tenho uma ideia melhor. Melhor não, uma sacada que complementa essas duas que a gente já pensou. Uma casa super bem montada, discreta, com som ambiente maneiro e iluminação suave, uns cem metros antes do início da obra. A campanha publicitária já está pronta: “Keep calm e encare o trevo”. Um grande salão, com umas quinze massagistas do jeito que o diabo gosta, pra relaxar a tensão de quem vai passar pelo entroncamento. Especialmente os caminhoneiros. Convenhamos, passar por um trevo requer atenção e reflexos bem alertas. É um momento crítico para o motorista, se ele ficar nervoso é um perigo.
– Aí forçou, heim. O que me diz de “Shopping Trevo Souvenir”? Uma espécie de parque temático do trevo. Canecas, camisetas, cinzeiros, adesivos, tudo personalizado com o desenho do entroncamento. E também aqueles chaveirinhos com a mensagem “Estive no trevo e lembrei de você”. Até tatuagem, podemos ter um tatuador full-time. A gente pode também editar um belo book de umas quinhentas páginas, tipo livro de arte, com fotos bem produzidas dos principais trevos do Brasil e do mundo. O nosso em destaque, é lógico. Caramba, ideia é o que não falta…
– Tamo rico, véio.
– Tamo junto, mano.

Marcelo Sguassabia

Marcelo Sguassabia

Redator publicitário, pianista diletante, beatlemaníaco desde sempre e amante de filmes e livros que tratem de viagens no tempo.

Sem comentários; deixe o seu:

Seu comentário é importante!

Your email address will not be published.

Você pode usaratributos e tags HTML: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <s> <strike> <strong>