Tuas mãos em meu corpo

Desceu as mãos pelo tórax e tocou-se efusivamente buscando no ato de preencher as mãos com o membro, o prazer que outrora encontrava no corpo do homem. “Seus olhos não me dizem nada. Tu tens medo do que se esconde a sombra da tua face. Covarde… és um covarde”. Ele se recordava de todas aquelas palavras com a mesma lembrança da angustia que o convencia do seu erro. Mas o quê poderia fazer? Não era dado a escolhas, não poderia arriscar-se e perder tudo o que já havia construído. “Tu és um falso, tu és um crápula, me usas quando bem entende e depois me deixa aqui, esqueces que eu te amo e que não sei viver sem ti? O que tu achas que sou? Devo me esconder? E tudo o que eu fiz por você? Todas as barreiras que rompi, tudo, tudo. Tu não pensas na vida que eu tinha antes e que abandonei para ser apenas teu?”. As lágrimas escorreram pelo canto dos olhos como magma queimando o que ainda restava de força em sua condição humana. Continuou a friccionar o membro enquanto lembrava-se das ultimas palavras daquele que amava. “Estou indo por que não posso ser apenas isso pra você. Queres apenas as coisas lindas do amor comigo, e te esqueces dos meus sentimentos, das minhas necessidades. Eu te amo, mas eu vou embora”. Tornou os movimentos mais intensos e repentinamente lançou no abismo dos seus dias os filhos que nunca teria. Uma súbita fraqueza tomou-lhe o corpo e ele se sentou sentindo no peito a mesma impotência que sentira quando vira-o abrir a porta e partir com os olhos chamuscados de lágrimas. Poderia ter pedido pra que ele ficasse, era o que queria. Era o que queria? Mas as palavras escapuliram da sua boca, e ele não conseguira proferir nem mesmo um adeus. O outro não entendia os seus motivos, não via quão difícil era deixar tudo aquilo para ser ele mesmo. No entanto tinha a certeza de que a vida era isso, a desmistificação do ser, o não-ser, o abandonar-se para reencontrar-se, o reinventar-se para ser o mesmo. Todavia no homem sempre repousa o medo do novo, o medo de conhecer-se, pois nunca em toda a sua vida o homem demora-se frente ao espelho medindo cada espaço do seu corpo, é um risco que se corre, o risco de achar-se. Achar-se é um jogo perdido, assim como o amor. Achar-se é levar-se por aquilo que lhe impulsiona a vida, por aquilo que lhe toma, lhe cerca, lhe faz ter asas e não temer a liberdade. Do temor a liberdade que nasce a angustia, premeditação da solidão. Solidão é um estado de autoconfirmação do homem onde ele apenas está, e sendo só, percebe-se. Ser é perceber-se.

Levantou-se da banheira completamente molhado. Ergueu o braço em direção à toalha que estava pendurada, pegou-a, envolvendo-a no corpo. Outrora quem lhe envolvia o corpo eram os braços daquele homem. “Gosta quando eu te pego por trás”. Ele respondia com um sorriso e se deixava tomar pela rispidez com que o outro o penetrava. “Assim, assim…”. As frases eram chulas, mas cabiam perfeitamente no momento.

“Padre, padre”. Ouviu alguém bater em sua porta desesperadamente. Aquele som arrancou-o das suas recordações e ele teve que voltar assim, como se antes, no momento anterior, fosse outro a qual não cabia ser dado aquele título “Padre”. Vestiu-se rapidamente, pondo a batina e o crucifixo pendurado no pescoço. Abriu a porta e deu de cara com um jovem nervoso e desesperado. Indagou a ele o que acontecia e ele lhe explicou os pormenores, pedindo-o que se apressasse. O padre então voltou para dentro da casa rapidamente, pegou um bíblia e saiu com o jovem para cumprir a sua missão.

Voltou à noite quando a lua brilhava intensamente no céu tal qual o sorriso sarcástico de alguém que o observava. Entrou na casa buscando o aconchego daquele lugar que lhe era familiar, mas sempre faltava alguma coisa. Desde que ele se foi sempre faltava alguma coisa. Mergulhado naquela mentira, a solidão era o seu castigo. Nada o trazia um sorriso de felicidade. A sua condição lhe impingia a busca, lhe ofertava a escolha, mas ele não podia, ele não podia…

Antes de ir ao quarto, parou em frente a um quadro na sala, era uma paisagem impressionista. Haviam flores, uma cerca, um rio, e um caminho. Fitou o caminho como se buscasse nele uma resposta a todas as suas dúvidas. Fechou o punho buscando encontrar forças em qualquer molécula de ar que pudesse ser estourada em suas mãos, mas não obteve êxito. Voltou o olhar para o teto. Tudo aquilo não dizia mais nada.

“Sou o seu pedaço de carne”. O homem lhe disse concluindo o seu pensamento. “Por que tu dizes isso?”. Ele indagou. “Por que é só isso que sou para ti. O teu amor é uma mentira na qual eu insisto em acreditar. Meu ego não permite acreditar que isso seja falso. O nosso amor é marginal. Eu gostaria de não pensar assim, mas é que às vezes, às vezes… A vida machuca a gente por quê a gente não sabe viver. A gente não sabe de nada, eu… eu…” “Por favor, para de dizer essas coisas, eu te amo e sou capaz de fazer qualquer coisa por você, por nós”. Mentira! Foi o que ele próprio sentiu no seu tom de voz. Não. Não era capaz de fazer qualquer coisa por ele, por aquele amor, preferia viver nas sombras a assumir a sua culpa, o seu erro. Preferia o gosto da falha nos lábios ressequidos ao gosto dos beijos daquele que amava. No começo fora tudo muito fácil, a aproximação, como eles chegaram ao primeiro beijo, mas agora que estavam juntos, as coisas haviam se tornado difícil, pois nenhum dos dois sabia como agir diante das situações.

Parado ainda, refletindo sobre tudo o que lhe havia ocorrido, lembrou-se do dia em que o vira pela primeira vez. “Padre, eu pequei!”. A maçã fora ofertada. “Padre, eu o amo”. A maçã era podre. “Padre, eu me masturbo pensando no senhor”. A maçã havia caído da arvore no colo do padre, e foi naquele momento em que ele soube de si próprio que se deu conta de que aquele jovem era a sua forma de escapulir de si mesmo, de ser ele, de se sentir um ser humano. No momento em que mordera a maçã aceitou com o gosto insossa de o fruto ser tomado pela podridão que também o compunha. “Filho, eu o amo”.

Os encontros eram furtivos, os beijos, o toque. Ah, que saudade… Ele revivia tudo aquilo na memória todos os dias. Foi então que tudo começara, o outro, seu homem, cobrava dele muito mais do que ele poderia ofertar-lhe. Consequência daquele amor louco. O amor é uma loucura da carne. Fundidos corpo e alma, obtém-se o prazer que nenhum outro sentimento pode proporcionar ao homem. Eles haviam se entregado aquilo sem ter noção de que o tempo exige do homem coisas impossíveis. Impossíveis?

Sua cabeça girava, seu pensamento o consumia. Foi quando ele constatou toda aquela saudade e aquela falta. Arrancou do pescoço rapidamente o crucifixo, e foi até seu quarto. Tirou a batina e pôs uma calça jeans, e uma camisa preta. Penteou os cabelos, escovou os dentes. Olhou o relógio, olhou a parede, Jesus estava pregado em uma cruz. Resolveu naquele momento negar a si próprio no intuito de reencontra-se, mas nada daquilo dizia nada. O que lhe doía no peito era a saudade.

Foi em direção a porta e abriu-a. Atravessou aquele portão, deixou-se arrebatar pela emoção daquele momento e seguiu em direção ao lugar onde tudo começara.

A igreja estava fechada, ele abriu-a e foi em direção ao confessionário. Entrou dentro da grande caixa de madeira com alguns furos e sentou-se no lugar que lhe cabia. Logo depois saiu e se ajoelhou a frente de si próprio e disse “Cristo, eu pequei. Pequei contra mim mesmo”. Levantou-se rapidamente e correu desesperadamente no meio da noite escura, buscando na ausência de luz a confirmação da sua dor. Os sorriso da lua corroía a sua futilidade. O sexo do homem iluminava a sua mente. Assim, capturado pela sua própria loucura, ele se deu conta da sua infantil ação e correu novamente pela escuridão.

O caminho escuro lhe levava para algum lugar, ele não sabia para onde seu instinto o guiava, apenas a sua angustia fazia algum sentido no meio de tudo aquilo. Ele viu as luzes, as casa, e então bateu a porta desesperadamente.

Alguém abriu a porta. Os olhos, a boca, a barba, os cabelos caídos sobre os olhos, os músculos. “Estou com saudades”. Disse o padre com lágrimas nos olhos. O rapaz permaneceu calado. Minutos depois indagou “De mim?”. “Sim”. “Eu também sinto sua falta”. “Sabe o que eu mais quero agora”. “O quê?”. “Tuas mãos em meu corpo”. Olharam-se intensamente. Os olhos sorriam. Naquele momento o amor falou mais alto. A aurora dos dias abateu-os e eles caíram novamente no abismo que eram o nós que haviam construído.

Marcos Welinton Freitas

Marcos Welinton Freitas

Baiano do Bravo/Serra Preta. Graduando em Economia pela Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS). Escritor: poeta e contista. Publicou os livros “Poesia proibida” (Editora Multifoco/RJ, 2012) e “Badalos do século XXI” (Editora Penalux/SP, 2013). Comanda o blog Para Lavar a Alma.

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