Um ditado de essências e uma vida de aparências

           Solerte homem é quem reza nas baixelas; nas miudezas das vielas da transvivância. Ai Deus! É tanta cousa para se pensar, amar, falar, que tempo pouco temos para benviver essa nossa vidinha medíocre. Olha bem que as cotas do tempo não são parceiras da democracia. E eu só tenho tempo para dizer que nunca tenho tempo. É assim. Reclamação demais para pouca ação definitiva. ─ “Ó, cumpâde seo Zulmiro: Não há bem que sempre dure, nem mal que sempre acabe.” ─ . Era assim o palavrear sucinto de um boteco de esquina. Dos meandros filosóficos de dois bêbados. Não sóbrios para olhar reto no horizonte. Tinham um olho já virado para as transviagens do outro lado. É. Aquelas. Umas lá que a gente só percebe quando a dor vem se arrastando na onomatopeia ai, ai ai! Se é que é assim para alguns. Mais nas dores fatigadas do corpo. Só que homem bem quer ver é o que os mensageiros da vida escondem. Escuta, quem nunca quisera ser pragmático a ponto de poder saber se vai mesmo dar certo empreitada da vida. Deveras, todos. Não se escuse desse grupo leitor. Narrador de narradas tem já verve para desgostar e descobrir mentira alheia. Ai, se tenho!

            Andava no voltear do trabalho ele, o Dr. Alberto. Título antes que devia ser sempre grafado, mesmo nos ares da fala coloquial. É nome de pompa para referência. Dá que o conhecimento poucas vezes são frutos de trabalho árduo, daquele mor reconhecimento verdadeiro. Esse aí é de duvidosa proficiência. Mas douto inegável constava bem no diploma que saíra da universidade. Se o diploma diplonomeava essa titulação, quem sou eu para ficar de discordância. É doutor, então vem respeito junto. E nome desses não era só pelo estudo. Vinha também da profissão. Tem dessas costumices de chamar médico de doutor. Nem me alembro muito de quando vem esse costume. Ele existe, isso é o importante. Nada de inexistência eu coloco em minha prosa. Um pouco, talvez. Mas eu manipulo para que os fatos articulem a realidade perante seus olhos de leitores. “Narrador e autor diabo, diacho de prosa corrompida!”. Tanto me faz vozes comentadas as beiras da minha narrativa. Nem escrevo para historizar verdades, nem para mitificar mentiras. Eu só escrevo, contente ou não meu público leitor. Se entendeu, continue. Ademais, pouco me importa a desistência de ilustrar o tempo seu com histórias daqui.

            Da rotina eu fico para dizer-lhes como se passava o trabalho do nosso personagem: era mais hospital e casa. Tinha ida à igrejinha e capelinha do hospital. Coloca com traço no meio dessas duas idas que eu citei logo em cima. Aê, é bem resumo assim: medicância e as orações. Cedo começava jornada. Tinha que ter fôlego mais que profundo para se encapuzar; vestir-se com a bandeira real da medicina. É trabalho bonito, que enche os olhos de lágrimas certeiras. Ver gente ajudar gente. Pessoinha que acorda desesperada sem amparo. Surge como luz divina, bem naquela hora que gente já estava na beira do tridente do capeta. É, nessas mortes que morremos. Oh, nisso tem o médico. Roupa alva mesmo é para dizer que eles são meio que os braços da terra dos anjos. Cai uns bilhetinhos do céu com as mensagens do dia. Chega uma secretária, curva-se sobre a mesa do doutor e escreve a agenda. Médico segura nas mãos das gentinhas que sempre vem para apelar. E sorri numa prescrição de esperança. Melhor remédio que existe. Esse Alberto fazia isso no trabalho. Citação foi impessoal, só que história agora tem um certo quê de pessoalidade.

       Noitinha caía e o médico cessava tudo. Parava depois das seis horas da tarde. Privilégio de poucos poder ausentar-se das responsabilidades em hora daquelas. Alberto era homem respeitoso, de virtude virtuosa nas rodas políticas e cafés da cidade. Perdão, é Dr. Alberto. Imponente, calçava os sapatos do respeito e os jalecos do poder. Duas adjetivâncias que caracterizavam ilustre cidadão e hóspede da vida. O quarto alugado era na cobertura, assim vislumbrava tudo de cima. Vivia assim esse nobre homem. Quando saía em seu carro, na despedida dos enfermeiros, secretárias e outros médicos, sopesavam silenciosamente o desejo de um dia alcançarem patamar dele na escada da existência.

            Saiu com seu carro. Hora até tardia para o habitual. Passava das seis e meia. Acelerou com pé fundo, num súbito de pressa. Para comentários alheios, bem que aquilo parecia uma urgência, chamado desesperado da família daquele camarada. Olhou diversas vezes em seu relógio de pulso. Os ponteiros que relogeavam nossa vivância gritavam num cuco: ─ “Cuco, corre. Cuco, vai. Cuco, diz do tempo, e pouco agora tem.” ─. Se dá que essa vozinha ficava na cabeça do nosso protagonista. No relance de uma parada de sinal, olhou um endereço num bilhetinho manuscrito, em letras tortas e trementes. Sinal de assinatura prévia com medo do sinistro, da observância de alheio proibido. E assim também se sucedeu quando desceu do carro e caminhou caminhares leves nas esquinas já meio escuras pelo sol que ia se escondendo. Antes da lua alumiar as esquinas, homem devia logo chegar para seu encontro secreto. ─ “Ah, perdoe meu atraso, minha ninfa! Eu tenho que ter cautela com nossos encontros.” ─. Ninfa essa era como o bucolismo e as tágides camonianas. Só sumiram breu adentro de um quarto escondido.

       Olha só, esse homem respeitoso tinha um clamor adúltero. Esse era seu segredo. Leitor, peço sigilo quanto ao lido nesses parágrafos. Poucos sabem da verdadeira face de nosso doutor. Fora ele era respeito grandioso. Dentro, pão bolorento. – Perdoe minha comparação esdrúxula, assim era. E era. Por isso e outras peripécias mais que prosearei no seu devido tempo de narrar. Era Perséfone semeadora da discórdia. Sementes que semeavam um grão minúsculo de pecado, dito a transcrescer em planta alta, para com suas raízes enraizar-se pecadamente no coração do homem.

            Um tanto quanto deveras engraçado essa dialética de aparência versus essência: airosa aparência que demonstra exígua falta de essência. Que mais? Digo, numa contínua reta, pois agora eu prefiro deixar para lá secas prosas. Num dia desses, estava num pensamento cobresco, porque serpenteava nos miúdos de minha mente essa gente que genteia nas igrejas. Nem rezam. Não. Só pegam corpo lá dentro para ver se recebem benção. Mente mesmo está no além de lá, pensando em como pecar sem demonstrar. Um dia, desses ai, do corriqueiro nosso, leitor, eu fui jantar na casa de São Pedro. São Paulo estava lá também. Êirra, comida boa! É santíssimo o jantar com essas entidades! Melhor dizendo: tresbom! Uêpa, isso eu tenho que contar. Parece centelha de início de digressão sem mor sentido. Ai, tem tanta mente fechada! Isso aqui é meio que uma curvinha de prosa, bem sutil. Vai fazer um meio sentido bem logo. Se dá que eu comi pão benzido e rezado dos santos e São Paulo já enunciou discurso:

           ─ Ah, mas essa gente que vai às igrejas é tudo quanto é tipo. É de olhar nos olhos e ver que lábios dissertam reza. Mas alma beija pecado!

            ─ E como é! Eu digo ainda mais, noutro dia homem bom, médico nas atividades do dia. É um pouco religioso. Só que esse pouco é só para alegrar uns que estão pertinho. Por dentro – Vixe! – esse ai vale mesmo nem moeda que mal paga cafezinho em botequins.

           ─ Ai, ai, esse aí eu lembro! Ele vai e reza as ave-marias, pai-nossos, cânticos divinos e todas essas rogas dos salmos da Bíblia. Dá gosto de ver o homem orar. Só que é mecanizado da boca só. O foguinho de dentro fica com chama acesa esperando fagulha pecadora.

           ─ Pede um perdão, nem que seja um só pouquinho. Vai lá, paga o dízimo certeiro. Mas de que adianta! Casca de fruta é madura, mas polpa já estragou há tempos!

       Eu só fiquei de mutuca ouvindo as dissertações e conversas alheias daqueles santos. Comida boa se aproveita com lábios bocamente fechados. Nem preciso ser douto para saber disso ai. Bem que agora faz sentido essa conversa marginal. Tantos médicos existem nas cidades afora, só que é coincidência demais não ser esse de prosa nossa. Tão certeiro, que se não for, eu verdadigo: é demais da conta! Concorda? Pouco importa. Deixa eu só rabiscar devagarinho para que entenda quem é dono dessa prosa. Ademais, não existe nem mesmo um argumento de maior blindagem jurídica que derrube essa argumentação. Pronto. Ficou certo que a digressão é da medicina daqui da história.

            Alberto, no entorno de duas horas depois, precisou sair de forma súbita de seu encontro. Imagine, para grandioso homem de sua posição se pego surpresado no ligeiro do ato ilícito. Roga numas pressas para a santíssima trindade e pisa no freio aceleradamente. Tinha barraco lá de pouquinho de fronte que viu médico sair, mas gente pobre importa de menos aqui. Nem conheciam pessoa que ele é.

      Ah mas tem vida nesses barracos urbanos, nos casebres que habitam as margens fronteadas e opressoras. Lá mesmo, num barraquinho desses, tinha uma sinhazinha com seu filhinho. E viviam vivendo. Somente. Os dizeres eram limitados, da mesma forma que a condição. A sinhazinha nem fala tinha muito. Fala doía garganta. Quando a gente força para gritar em som mudo, rasga nossas cordas vocais. Pouco dizia, já que vaziamente vivia. Então cheio de nada era voz dela. E filho era criança que feliz tentava mais criançar feliz do que viver por viver. O Cidinho era menininho mirradinho, mas tinha sorriso tão grande que sumia até na felicidade. Mesmo se a felicidade fosse vazia. ─ “Ó, mãe, ó! Um dia eu mais quero quando for gente grande ser igual uns homens de branco que eu vejo passar!” ─. E era sonho grande. Criança que os olhinhos brilhavam quando vinha com trocados de doces, balas e qualquer outro badulaque vendido em sinal. Só que assim era sinhazinha: mãe do pessimismo. Sinhazinha pouco suspirava. Era transpiração de viveção sofridamente. Ai, ela mal tinha moedinhas para comprar pão para alimentar Cidinho. ─ “Ô, se cala. Num tem mais jeito de mudar esse acordar de dia do demônio, menino!” ─. E é, assim. A vida vivida deles era assim.

       ─ “Ai, mainha! Um dia, bem dia que mais vai vim, eu vou só ficar grande e montar um barracão para nós morar!” ─. Cidinho era coisa que coisava esperançadamente. Tão magrinho, mas tão magrinho, que dias de tempestades mãe mandava molequinho ir para dentro de barraco para vento não empiná-lo como pipa em carretel. Só que ele nem ouvia isso. Gostava de correr na chuva chovida. Tinha gostinho diferente água que caía do céu. ─ “Oh, mãezinha, olha aqui! Tô bebendo água de beber de deusinho. Ele está mandando para mim!” ─. E corria cada vez mais. De quando em vez caía na lama, sujava-se todo. Era criançando assim que ele gostava de crescer. Dia mais mãe manda ele ir vender doces no sinaleiro. Era trabalho para ver se naquele mês conseguia comprar nem que fosse um copo de leite. Sujinho, o mirradinho sai cantando alegre. Era rapazinho que nem reclamava das beiras sofridas que tinha. ─ “Óia, mainha, quando eu voltar, dessa vez vou traze dinheirinho mais para comprar aquele cata-vento coloridinho que tem na barraquinha de jornal da frente!” ─. Se foi. E chuva choveu com vento que venteia forte. Mas moleque não voou de volta para mãe como pipa em carretel. No corre-corre e vai e vem da vendeção dos doces, carro preto, de luxo mor, atropela menininho.

       ─ “Ai, meu garotinho! Eu só tenho ele para viver vivendo!” ─. Era frase primeira formada que mãe conseguia falar de boca para fora, sem pensar muito tempo com mente pequenina. ─ “Senhora, calma. Eu bem sou médico. Irei correr e levá-lo para o hospital em que trabalho. Entre no carro para me acompanhar com seu filho.” ─. Sorte do destino o carro nosso saindo de trabalho adúltero ter atropelado o rapazinho. Em meados de minutos estariam já no hospital, prontificando cura rápida para garoto.

    Chegava rápido para prontificar os papéis no prontuário. Tinha que ser de forma ligeira, porque o garoto tinha perdido uma quantidade extremamente grande de sangue no decurso da viagem. Quando se tem posição hierárquica grande, nem é dificultoso achar logo espaço para esse curandeirismo de prontidão. Ixá! Alberto depara agora com dilema moral, decisão de precípua importância naquele hospital. Bem naquele momento, recebe urgente chamado de que importante deputado fora internado às pressas por causa de fulminante infarto. Era ele, sabe, daqueles políticos que arrumam quanta verba for preciso e quanto cargo for necessário. Se leitor está atento para prosa minha, ausento-me de dizer se Alberto era homem que dependia de depender demais do serviço da politicagem. Uê, era demais! Não tinha o descalar, porque já recebera urgente chamado em mãos. Ou ia agora, ou morria a fortuna. E o Cidinho? Ai, é decisão dificultosa. Antígona enterrou Poliníces e desrespeitou a Lei maior de Creonte. Esse direito natural divino era que mais importava na vida vivida gregamente. E essa vida de hoje? Alberto tinha mesmo é o direito do dinheiro. Então se a justiça for Polinices, que Cidinho morra. Aliás, era só mais um. O outro, tinha poder de Creonte para zelar.

      Era da conversa do boteco que eu queria me lembrar, dessa paráfrase dos bêbados de esquina e de ditos populares. Esse bem? Ora, só se benvive poucos. Ele nem acaba para esses. Coitado dos dizeres. São errados para uns, certos para outros. No dia de amanhã hospital ia aparecer em jornal para repórter jornalizar feito heroico que salvou entidade política importante. Nem vai ter morte morrida de meninozinho que foi feliz. Esse mal? A malvivância é extremo: eterna num lado e nunca chega nos outros.  Vida amarga essa nossa. Os buritis azuis do sertão nunca chegam a todos com suas asas de santa esmeralda. É demônio verde só, capiroto de pedra esmeralda para ludibriar esses pobrezinhos. A sinhazinha que vive certeiramente: só acorda diamente e dorme para noitear.

     

Marco Aurelio Souza Mendes

Marco Aurelio Souza Mendes

Nascido na cidade de São Paulo, em 1994, atualmente cursa o bacharelado em Direito na Universidade Federal de Uberlândia (UFU). Atua no meio literário com o pseudônimo de Aurélio Mendes. Possui uma coletânea de contos publicada pela Editora Multifoco chamada Pensamentos Singulares (2013) e uma novela política pela Editora Subsolo, Abapanema: o lugar das coisas ruins (2015). Em processo de editoração de sua terceira obra, "A manhã de J.H. e outros contos" pela Editora Subsolo, fruto da aprovação pela Lei Municipal de Incentivo à Cultura (2015).

1 Comentário
  1. Parabens pelo texto! Pelo jeito Cidinho morreu e o médico foi atras da fortuna. Certamente esqueceu-se do juramento final quando de sua formatura.Abração.

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