Um Filho Teu não Foge à Luta

Coloque um homem franzino e fraquinho diante de uma porta sólida, de madeira de lei, uma porta que ele jamais conseguiria vencer. De repente por debaixo daquela porta começa a sair fumaça, e alguém grita “É fogo!”, e de repente o homem se dá conta de que presos do outro lado estão sua mulher e filhos. Então já não importa mais se o homem é franzino e fraquinho, porque ele vai derrubar aquela porta. Se manifestará nele o Espírito do Guerreiro, o Budô das artes de guerra japonesas. Agora ele não é mais um homem franzino, é um guerreiro. Nada mais importa para ele debaixo do Sol, nem a sua própria vida. Seu inimigo não é ninguém além dele mesmo, e por conta disso a porta tombará, ainda que seja de aço.

Agora cada um daqueles jogadores não é mais um jogador, mas um gladiador que erguerá a clava forte, se agigantará e lutará até que morra. Ainda que arranquem dele uma perna, ainda que lhe furem um olho, que lhe desfigurem a face e que rasguem-lhe a carne, ainda assim enfrentará cada um dos minutos que restam de sua curta existência, que se findará num súbito, em breve, mas que, enquanto não finde, ele suará seu suor por completo  até que se esvaia a última gota, até que lhe pingue o último pingo de sangue, até que lhe aponte o último osso exposto por debaixo do couro sofrido, até que seus dentes sejam quebrados pelo inimigo e que seus órgãos se liquefaçam tamanho o sofrimento, ainda assim ele enfrentará seu destino como um homem que veste um elmo e puxa duma espada; e, quando suas forças ameaçarem abandoná-lo, com um brado retumbante ele se reerguera, mesmo ferido mortalmente, com a dignidade do filho que não foge à luta, e com esse espírito avançará até que a morte enfim o vença, e se de fato ele morrer, morrerá sem que ninguém dele se envergonhe por uma batalha não batalhada, e por ele serão entoados, em uníssono, cânticos de honra sobre sua sepultura; mas, se porventura ele vier a sobreviver, ainda que deixe o campo de batalha mutilado, se arrastando com os cotovelos e deixando um rasto de sangue pela grama, ainda assim o fará orgulhosamente, heroico, e sua coragem e glória resplandecerão, gigante que é, pela própria natureza.

Foi esse espírito que faltou pra Seleção Brasileira de Futebol na semifinal da Copa no Brasil, dia 8 de julho de 2014. Que pena.

Cesar Cruz

Cesar Cruz

É paulista da Capital. Nascido em 1970, escreve contos, crônicas e artigos, além de fazer consultoria e revisão textual sob encomenda. Tem 4 livros publicados: O Homem Suprimido, Scortecci – 2010; A Idade do Vexame & Outras Histórias – 2011, A Invasão dos Horácios – 2013 e Território Conquistado – 2015, todos os três últimos pela Pontes Editores. Blog: Os Causos do Cruz.

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